Saudade não precisa doer

  • TEXTO Sibele Oliveira
  • FOTOGRAFIA Laura Fuhrman | Unsplash
  • DATA: 01/07/2019

Quando estamos de bem com o passado, conseguimos olhar para trás com a sensação de ter vivido intensamente. Só não podemos deixar que ela ocupe todos os espaços do presente

Quando eu era adolescente, registrava tudo num diário. Recheava as folhas com detalhes cotidianos, segredos, confissões, frases bonitas e até guardanapos dos cafés por onde passava. Temia que se algo escapasse eu não pudesse recuperar mais. Mas ali a minha história estava protegida. Assim como estavam bem guardados num baú dourado os souvenirs que trazia de viagens, fotos, cartas e cartões-postais. Com o tempo muita coisa se perdeu, mas ainda conservo boa parte dessas recordações. Elas permanecem no meu quarto, agora em uma caixa de madeira com estampa floral. Cada vez que a abro, meu mundo pretérito se revela em datas, caligrafias, mensagens bem-humoradas, desenhos, paisagens e perfumes. É quando entro no meu recanto particular de saudades.

Talvez ninguém consiga falar dessa companheira que nos segue por toda a vida com tanta maestria como os poetas. “De que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”, disse Cecília Meireles. Assim é a saudade. Uma ausência presente. Uma ponte que nos oferece acesso livre ao que há de mais intenso e marcante no nosso passado. Quando ela nos visita, traz consigo abraços, olhares, conversas, carícias, promessas, cenários, cheiros, músicas e sorrisos.

Surge como um filme no qual somos protagonistas, com imagens vivas e sons nítidos que nos fazem reviver momentos especiais guardados na memória. O vocábulo saudade vem do latim solitas, que significa solidão. Sofreu variações para soidade, soedade ou suidade até chegar à forma como o conhecemos. Já foi considerado, algum tempo atrás, a sétima palavra mais difícil de se traduzir pela empresa britânica Today Translations, mas exprime um sentimento universal.

A saudade nos encanta porque funciona como uma máquina do tempo. Ela nos leva ao encontro de pessoas, mesmo que não possamos mais revê-las, nos transporta a lugares e épocas distantes. No livro A Filosofia da Saudade (editora QuidNovi), o autor António Braz Teixeira reuniu diferentes filósofos que pesquisaram o sentimento a fundo. Um dos que exploraram essa característica atemporal da saudade foi o português Eduardo Lourenço, que a definiu como uma sensação-sentimento que o homem experimenta de arder no tempo sem se consumir. Para o filósofo, a saudade tem um relógio próprio, que não obedece qualquer cronologia. É isso o que causa a impressão de que ela é eterna e a faz brilhar no coração de todas as ausências.

Não é por acaso que gostamos de sentir saudade, mesmo que ela nos deixe tristes, com uma ponta de solidão. “Existe uma tendência humana de repetir vivências prazerosas. Quando isso acontece, reativamos experiências infantis muito primitivas de completude, satisfação e felicidade”, explica a psicanalista e filósofa Maria Vilela Nakasu. Apesar de nos permitir reviver tempos felizes, é importante não nos deixarmos envolver demais por esse sentimento, pois, dependendo da intensidade, ele pode fechar nossos olhos para o presente. O poeta Almeida Garrett alertou para esse risco: “Saudade é um suave fumo do fogo do amor que qualquer breve ausência basta para alimentar”.

Deixe o rio levar

Juliana Talala foi para São Paulo em 2010 para visitar um amigo, mas acabou encontrando um trabalho. Uma proposta irrecusável, já que a jornalista sempre foi atraída pela cultura, conhecimentos e experiências que a cidade oferecia. Deixou Uberaba (MG), sua terra natal, sem pensar duas vezes. No começo, tudo era novidade e a companhia de três amigos facilitou sua adaptação. Mas logo a saudade da família bateu. “Era um vazio desmedido. Mas a tecnologia chegou para encurtar a distância, trazer o aconchego, mesmo que na tela do celular.” O tempo passou e agora Juliana está novamente de mudança, pois surgiu a oportunidade de um novo emprego em Uberlândia (MG).

E ela já está sentindo saudades antecipadas das amizades que fez e de momentos inesquecíveis que viveu na cidade, como um show da cantora Norah Jones que assistiu sentada na grama do Parque da Independência, ou das vezes que perdeu a noção do tempo folheando livros nas prateleiras de uma livraria. “Como todo final, esse traz um novo começo, repleto de desafios, expectativas e planos. Tão grandes como os que carregava quando cheguei a São Paulo.”

Nossa vida é repleta de chegadas e partidas, como as de Juliana. O ano começa e termina, amores vêm e vão, amigos surgem e desaparecem, cursos se iniciam e acabam, festas e viagens têm começo e fim. Deixamos e carregamos algo de nós em tudo o que vivemos, em cada ciclo que fechamos. Há pessoas que preferem parar em algum ou alguns desses ciclos, achando que jamais irão viver algo com o mesmo sabor.

O que está por trás da atitude de querer morar no passado muitas vezes é um grande vazio existencial. Como a imperfeição do presente é desconfortável, preferem a zona de conforto do que já se foi, valorizando o que aconteceu de bom e jogando no lixo o que foi ruim. Assim criam sua própria receita para suportar os aborrecimentos do dia a dia.

É exatamente isso o que acontece com os nostálgicos. De origem grega, a palavra nostalgia deriva de álgos (dor) e nóstos (retorno) e expressa uma tristeza profunda causada pelo afastamento da pátria. Essas pessoas se sentem desse jeito. Fora do seu lugar. “Na nostalgia, a pessoa revive o passado acentuando os aspectos positivos dele, com a ideia de que perdeu algo que não pode recuperar. Ela afirma que o passado foi e continua sendo melhor que o presente, como um momento perfeito ao qual nunca poderá retornar a não ser por lampejos de lembrança. Há um brilho ligado a uma experiência única, intensa. Algo relacionado à plenitude, ao sublime, ao divino”, afirma a psicanalista Maria Vilela. Mas felizmente há remédio para a nostalgia, que é parente próxima da saudade.

Aceitar a transitoriedade da vida é o segredo para sentir uma saudade boa, aquela que por um instante causa palpitação, uma sensação de vácuo que nos faz suspirar e entrar em transe, mas que quando passa nos deixa com um sorriso no rosto.

“Há um lado nefasto da saudade que se aproxima da melancolia. Ela é vivida como algo dilacerante, que desestabiliza e consome a pessoa por inteiro. É um sofrimento quase insuportável. É preciso fazer um trabalho de luto para que ela fique mais leve. E entender que a vida se transforma a cada momento. É importante desapegar, deixar ir embora, não reter o que se perdeu. Rupturas acontecem diariamente, à nossa revelia, e vão continuar acontecendo. Quanto melhor lidamos com a ideia da impermanência das experiências, mais facilidade temos de viver uma saudade gostosa”, lembra.

Retocando o quadro das memórias

Maria Bethânia e Lenine cantam a saudade como um eterno filme em cartaz, na música que leva o nome do sentimento. O que a faz tão forte, até mesmo permanente, é a mistura de ingredientes da qual é feita: amor, ausência, desejo e pesar. Segundo o filósofo português Manuel Cândido Pimentel, a saudade é capaz de perpetuar os vínculos amorosos no infinito. Ela também é um elo entre nós e parte importante da nossa história, formado por uma trama única e intransferível, crucial para a manutenção da identidade.

“A saudade é tecida de fios complexos e emaranhados, repetitivos e variações de um mesmo bordado. Quando se puxa um, se percebe sua intrincada relação com os muitos outros”, analisa a filósofa Ivone Gebara, autora do livro O Que É Saudade (Brasiliense).

Usamos uma dose de imaginação quando fazemos da saudade um instrumento de reconstrução das memórias, pois nem sempre elas estão intactas nos arquivos da mente. Corrigimos imperfeições, aplicamos tintas mais vibrantes, acrescentamos um toque de sonho, usamos a lente com a qual enxergamos o mundo hoje.

Assim, as remontamos como uma colcha de retalhos. Mesmo quando não há nada para realçar, a saudade teima em aparecer. O poeta Manoel de Barros descreveu isso muito bem. “Tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância.” Mas é preciso tomar cuidado para não acharmos que se não alcançamos a plenitude em tudo, o quadro da nossa vida é preto e branco. Cada fase tem sua cor e beleza, mesmo em tons pastel.

O presente de viver o presente

Há momentos em que o melhor a fazer é deixar a saudade doer. No filme italiano Cinema Paradiso (1988), o bem-sucedido cineasta Salvatore Di Vita retorna à cidadezinha em que viveu na infância para o sepultamento do amigo projecionista que nunca mais viu. Seu passado todo vem à tona envolto em uma saudade densa. Surgem imagens dele como coroinha, na época em que era conhecido na cidade como Totó, escapando da igreja para ir ao cinema, manipulando a filmadora e seus rolos de filme e namorando a filha do banqueiro, um romance que terminou em desilusão.

Muitos anos depois ele aparece dentro do cinema imerso em pó, examinando pedaços de rolo de filme no chão, pouco antes de o prédio ser demolido para dar lugar a um estacionamento. De volta a Roma, Salvatore assiste a uma fita em preto e branco que trouxe da viagem, que foi censurada pelo padre quando ele ainda era criança. Nela, beijos de vários casais apaixonados. Ele não consegue mais segurar as lágrimas. Quantas pessoas não se identificam com a emoção dele?

Quando a saudade é vestida de angústia e cola na alma como uma ferida que não cicatriza, vale a pena investir num encontro íntimo com esse sentimento. Pensar, escrever, falar, refletir, fazer uma oração e, se necessário, chorar, podem ser o caminho para matá-la, para encontrar a saída dessa prisão.

E aceitar que na nossa jornada nem tudo é perfeito. “A vida tem lacunas. Mas nem por isso devemos escapar do presente. O presente é real, é faltante, é conflito. Olhamos para ele com muita concretude, vemos as falhas. Só que há coisas boas no presente, que nos alimentam, motivam e conduzem a um sentimento de esperança em relação ao futuro”, resume a psicanalista Maria Vilela.

Não podemos perder tempo desperdiçando o aqui e agora, pois, como a filósofa Ivone Gebara bem observa, “marcas e rastros estão sendo deixados como novas heranças saudosas. Tecemos, hoje, as futuras saudades”.

Sempre fecho a minha caixa de recordações sentindo gratidão por tudo o que vivi. E saio do meu mundo de saudades deixando a minha vida livre, para que ela escreva novas histórias.

Sibele Oliveira sente saudade do ano que acaba, mas sabe que vem muita coisa boa pela frente para tecer novas lembranças.


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