(R)existir: a vida de pessoas LGBTQIAP+ no Dia do Orgulho

  • TEXTO Alessandro Fernandes
  • FOTOGRAFIA Norbu GYACHUNG | Unsplash
  • DATA: 28/06/2022

Para celebrar o Dia do Orgulho, a Vida Simples reuniu histórias de pessoas LGBTQIAP+ de diferentes lugares do país ao lado de suas lutas, conquistas e histórias pessoais. 

 

Neste mês, o movimento LGBTQIAP+ se intensifica com as primeiras manifestações presenciais depois do início da pandemia, além de celebrações em defesa da vida e da memória da comunidade*. Em São Paulo, no último dia 19 de junho, milhões de pessoas, dos mais diferentes corpos, orientações sexuais e identidades de gênero, se reuniram para comemorar e resistir contra o preconceito e o aumento no número de crimes e mortes a pessoas consideradas “fora do padrão” da sociedade.

“Eu sinto que, pra mim, é um momento muito libertador, é um momento em que eu posso falar sobre isso abertamente, porque as pessoas também estão falando sobre. É um privilégio enorme estar viva hoje e poder experienciar o mês do Orgulho”, afirma Sofia Wickerhauser, uma cineasta assexual que vive em São Paulo e busca uma maior representatividade no cinema.

Apesar das dificuldades e desafios enfrentados por pessoas LGBTQIAP+, buscamos também resgatar a história do movimento, as conquistas e momentos de celebração. Todos são importantes para energizar a luta por direitos e potencializar um imaginário no qual não haja preconceito ou qualquer tipo de discriminação com base na orientação sexual ou identidade de gênero.

 

*Sabemos que alguns termos e expressões do texto podem não ser conhecidas por todos. A sigla que optamos usar, por exemplo, é uma das mais abrangentes e atuais. LGBTQIAP+ indica as pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis, Queer, Intersexuais, Assexuais, Pansexuais e o + indica que ainda há outras pessoas que merecem ser consideradas. Nosso objetivo é tornar esse texto acessível a todos. Por isso, para auxiliar a leitura, sugerimos que você conheça o Glossário da Diversidade, criado pela Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul.

 

História do movimento

Cansadas de sofrerem com a truculência da polícia de Nova York — que frequentemente extorquia travestis, agredia pessoas queer e invadia bares — integrantes da comunidade LGBTQIAP+ da cidade deram um passo contra a repressão policial. Na madrugada do dia 28 de junho de 1969, durante o verão, um grupo de gays, lésbicas, travestis, entre outras pessoas, decidiram encurralar agentes da polícia que faziam uma operação no bar Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, na região de Manhattan.

Com um copo de vidro atirado contra uma viatura da polícia, a travesti e trabalhadora sexual Masha P. Johnson foi uma das ativistas mais importantes que ajudaram a organizar o motim. Johnson foi uma das pessoas mais proeminentes na luta por direitos LGBTQIAP+ nos Estados Unidos, liderando a comunidade na luta por reconhecimento, participando de marchas e cobrando do poder público da época políticas de inclusão e proteção.

O motim, liderado pela comunidade, deu início ao que hoje conhecemos como o Dia do Orgulho LGBTQIAP+. O evento foi tão significativo que um mês após a revolta foi realizada a primeira Parada do Orgulho na cidade de Nova York, impulsionada pelos movimentos históricos de contracultura, que marcaram a década de 60 em todo o mundo.

 

Experiências que antecederam Stonewall

Apesar disso, a história do movimento vem antes de Stonewall. No livro Bash Back: Queer Ultraviolence, as autoras contam as vivências de inúmeras mobilizações ao redor do mundo, desde o ano 390, na Grécia, quando a população protestou contra uma lei que proibia a “efeminação dos homens” na cidade de Tessalônica, ou em 1629, quando uma “Capitã” transexual de nome Alice comandou um motim em Essex, na Inglaterra.

Samuel Gomes, homem negro, gay, escritor, consultor de diversidades e professor, afirmou à Vida Simples que “as lutas e revoltas emblemáticas de Stonewall não são nossos únicos marcos para nossa comunidade. Estamos reivindicando o direito de existir em todos os espaços e sonhos que tivermos. Queremos e merecemos estar em qualquer lugar e ali poder ser e existir por completo sem medo ou vergonha.”

 

 

No Brasil, o primeiro grupo conhecido pela defesa da comunidade LGBTQIAP+ foi o Somos: Grupo de Afirmação Homossexual, criado em 1978, durante o período da ditadura militar. O coletivo surgiu a partir do periódico independente Lampião da Esquina (1978-1981), além do nome ser em homenagem à uma publicação do movimento homossexual na Argentina que circulou na década de 70.

 

Luta por representatividade e direitos

Desde o seu nascimento, o movimento LGBTQIAP+ atua principalmente na luta por direitos, representatividade em espaços públicos — como parlamentos e universidades —, e por reconhecimento, respeito e proteção.

Sofia Wickerhauser iniciou sua trajetória a partir do cinema, com o objetivo principal de produzir filmes com a temática queer, sendo uma cineasta pertencente à comunidade, já que, para ela, é um grande incômodo ver apenas pessoas heterossexuais criando, dirigindo e roteirizando filmes do gênero.

 

Foto de Sofia Wickerhouser com cabelos ruivos chacheados e longos. Ela tem pele branca, olhar sério e está com a cabeça levemente inclinada.

Sofia Wickerhauser é cineasta e se considera uma pessoa assexual. Foto: Arquivo pessoal

 

“O meu desejo e a minha vontade de fazer cinema vem de um local de desassossego, de inquietação, porque os corpos das mulheres são sempre vistos por olhares masculinas, e os dos LGBTs por pessoas heterossexuais”, afirmou à Vida Simples. Sofia já dirigiu, roteirizou e produziu quatro curtas de temática LGBTQIAP+, como “Infinito Enquanto Dure” e “Poente” – que foram exibidos em mais de 200 festivais – como o BFI Flare, Frameline, Leeds Internacional, Seattle Internacional, Palm Springs – e ganharam diversos prêmios.

Florence Beladona, que se considera uma travesti transgênera e pangênera, defende que o Estado precisa atuar na criação e manutenção de políticas públicas que protejam a comunidade LGBTQIA+ e que a sociedade reflita, a partir dos privilégios sociais, novas formas de viver que sejam democráticas e inclusivas.

“Nós não podemos mais estar em uma sociedade que não pense em políticas públicas, empatia, que não tenha uma relação de cuidado com os seus. Então, a sociedade tem que entender que o local de privilégio não é de acusação, mas de responsabilidade, porque esses espaços precisam ser repensados e democratizados”, defende.

 

 

Representação na mídia e estereótipos

Os primeiros a passarem por um processo maior de aceitação e inclusão foram os homens gays, ainda que fruto de muita luta e mobilização. Ao mesmo tempo, esse processo é parcial na sociedade brasileira, por não acolher outras pessoas da comunidade, especialmente travestis, que vivem, em sua maioria, em espaços marginalizados, ou até homens gays destoantes do padrão cultural, como negros, deficientes e moradores da periferia.

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), estima-se que 90% da população de pessoas trans no Brasil tem como principal fonte de renda a prostituição. Já um levantamento do Projeto Além do Arco-íris, do AfroReggae mostra que apenas 0,02% desse grupo está nas universidades, enquanto 72% não possui ensino médio completo e 56% o ensino fundamental.

Além de serem estereotipados na sociedade, pessoas da comunidade LGBTQIAP+ passaram por um processo longo de invisibilização na mídia, em uma tentativa de apagamento na sociedade. A primeira cena que mostrava um casal gay fazendo amor na televisão, por exemplo, só veio acontecer no ano de 2016, com a novela “Liberdade, Liberdade”, da TV Globo. Cenas de intimidade entre casais ficaram cada vez mais comuns desde a década de 1980, mas apenas relacionamentos heterossexuais eram retratados.

Até agora predominam peças publicitárias e propagandas que reproduzem famílias heterossexuais e brancas, como nos famosos comerciais de margarina. Marcas que começam a praticar a inclusão estão cada vez mais comuns, mas ainda são alvos de boicotes e de ataques preconceituosos quando decidem se posicionar, como aconteceu recentemente com o carro Polo da Volkswagen.

 

Pessoas LGBTQIAP+ na produção de conteúdo

Florence, que é mestranda em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), defende a inclusão de pessoas heterossexuais dentro da comunidade LGBTQIAP+ na construção de produtos midiáticos. “Nós precisamos pensar uma possibilidade de construção dos textos, de qualquer veículo de informação, de forma com que as pessoas que não sejam LGBTs também estejam dentro da comunidade, para que ela se sinta responsável enquanto uma pessoa que integra a sociedade, porque isso acaba formando um posicionamento ético. É saber que todas as pessoas são diferentes, mas é preciso acolhê-las”, afirma.

Da mesma forma, Samuel Gomes aponta o surgimento de criadores de conteúdos nas redes sociais que abordam assuntos relacionados à temática LGBTQIAP+ e trazem uma visibilidade e representação de temas que ainda não estão presentes nos jornais impressos, rádios e televisões.

“Fico extremamente feliz de ver essa nova geração vindo mais confiante e com entendimento que podem e merecem ocupar os espaços que são seus por direito. Quantos criadores de conteúdo e militantes que vieram antes que deram suas vidas e saúde para que pudéssemos ter essa pluralidade no discurso e nas nossas vivências”, conta.

O professor acrescenta ainda que é preciso extrapolar esses espaços e almejar novas conquistas. “Agora quero mais, quero ver os nossos ganhando o Nobel, sendo reconhecidos por serem os melhores em suas profissões, para além da comunicação e entretenimento”, conclui.

 

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Desafios

Apesar dos esforços, ser uma pessoa fora dos padrões heterossexuais no Brasil não é fácil. Constantemente, há casos de ameaças, agressões, físicas e verbais, demissões baseadas em preconceitos e um mercado profissional ainda resistente em incluir travestis, gays, lésbicas, entre outros grupos, no mercado de trabalho.

Florence, em um de seus textos para o Laboratório de Linguagens e Diversidade Sexual (LALIDS) da Universidade do Sudoeste da Bahia (UESB) conta uma das agressões sofridas na cidade onde vive, São João do Sabugi, interior do Rio Grande do Norte. “No domingo de carnaval de 2011, eu saí do sítio em um pau-de-arara em direção à casa da minha avó paterna, na zona urbana de São João do Sabugi, no intuito de, no dia seguinte, sair no carnaval de rua, tradicional por aqui”, inicia a história.

“Eram entre 15h e 16h da tarde, quando eu cheguei. Algumas pessoas, quando me viram, começaram a rir, por eu ser alta, gorda e pintosa.” Florence teve ainda sua fantasia rasgada por um rapaz, mas decidiu não ir embora e aproveitar os festejos com alguns amigos. No entanto, no fim da tarde, ela encontra novamente o garoto, que acompanhado de alguns amigos decide agredi-la. A levaram para um banheiro, “passaram a perna nas minhas, derrubaram-me no chão e esfregaram minha cara no mijo e na lama, debaixo do mictório de aço. Tudo isso, enquanto todos riam como se fosse brincadeira”, conta.

 

Processo de aceitação

Camila Goulart, professora de Sociologia, afirma que o processo de aceitação enquanto uma pessoa fora dos padrões da sociedade foi muito difícil e até hoje sente dificuldades em se encontrar dentro da sigla. “Eu me reprimia bastante e, depois que tive uma relação homoafetiva, não me relacionei mais com mulheres. Encontrei uma repressão bem forte dentro de casa.”

 

Camila Goulart, com cabelos pretos cacheados ao fundo, pele branca, olhar sério, estante de livros ao fundo.

Camila Goulart é cientista política. Foto: Arquivo Pessoal

 

Sofia, que se considera hoje uma pessoa assexual, disse que “sentia que não havia espaço para eu me descobrir. Eu lembro que teve um momento na adolescência que me taxaram de bissexual, a gente não conseguia dar um nome para a experiência que eu estava tendo.”

 

Conquistas

Apesar dos preconceitos, as conquistas e lutas travadas pela comunidade LGBTQIAP+ trouxeram enormes avanços para que as pessoas possam hoje, mesmo que com diversas barreiras, coexistir em sociedade.

Embora haja dificuldades, retrocessos em políticas públicas fundamentais e crimes cometidos contra a comunidade, o exercício de celebrar as pequenas vitórias também é importante para energizar as ações e a vida desses grupos.

Florence enfatiza que é “pedagógico” e “didático” quando uma pessoa LGBTQIAP+ é mostrada com suas alegrias ou em momentos de diversão.

“A gente não pode esquecer que uma parada, um mês LGBT, é uma pauta que pensa o Orgulho para além do sofrimento. Por mais que seja importantíssimo pontuar esse sofrimento, quando a gente fala em pessoas LGBTs o mundo já espera histórias negativas e ruins, mas a pessoa LGBT feliz também é pedagógica e didática, porque mostra como é possível ser uma pessoa LGBT de bem com a família, com o trabalho, com a escola e a família.”

Já Camila comenta como as paradas do Orgulho foram importantes para a sua identidade durante a adolescência. “Nessa época havia muitas boates, só que elas eram chamadas de GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), não existia essa desconstrução para pessoas transexuais, por exemplo. Eu era bem jovem quando a primeira parada LGBT de Pelotas começou, na década de 80”, relembra o momento em meio à nostalgia.

Sofia conta animada como foi o processo de fundação do primeiro coletivo de pessoas assexuais no Brasil, o AbrAce, criado em 2018 na cidade de São Paulo. “A gente fundou o coletivo em um momento em que a comunidade se encontrava em espaços da cidade, piqueniques, troca de experiências. Uma parte do grupo começou a conversar sobre como seria interessante um grupo de ativismo para discutir de maneira mais séria essas discussões.”

Como forma de resistência, Samuel Gomes afirma que tenta enfrentar os mais diversos tipos de preconceito de forma que isso não o desanime ou repreenda a pessoa que ele é. “Hoje enfrento esse medo e não me importo mais com essas opressões. Não deixo de demonstrar meu afeto por medo de quem não sabe amar”, enfatiza.

 

Futuro

Não são poucas as notícias preocupantes que circulam diariamente no Brasil e no mundo sobre a comunidade LGBTQIAP+.

De acordo com o LinkedIn, em uma pesquisa realizada neste ano, 4 em cada 10 pessoas relataram ter sofrido preconceito por causa da orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente de trabalho.

Na Turquia, a polícia da cidade de Istambul, uma das maiores do país, reprimiu os participantes da Parada do Orgulho no domingo (26). Já no Catar, país que sediará a Copa do Mundo de Futebol, campanhas publicitárias do governo local atingem negativamente pessoas LGBTQIAP+.

Apesar disso, há ainda momentos de esperança e conquistas que podem ser feitas nos próximos anos. “Que bom que a gente vai continuar lutando, mesmo quando estão nos matando e nos calando a gente vai continuar existindo e vai continuar falando e batalhando. Eu acho que isso é incrível e é isso que eu quero pro dia do Orgulho, para o mês do Orgulho nos próximos anos, que a gente siga sem dar trégua para as pessoas que continuam a nos oprimir”, disse Sofia Wickerhauser.

 

Importância da ancestralidade

Camila Goulart relembra a ancestralidade e todas as pessoas que lutaram, de alguma forma, para que os direitos hoje conquistados existam.

“Eu gostaria de fazer uma humilde menção às pessoas que já se foram, entregaram seus corpos, sofreram as consequências desse preconceito. O sofrimento delas, a gente sabe, não é em vão, mas a gente honra a vivência de pessoas como Dandara”, afirma.

Samuel Gomes defende que as pessoas da comunidade precisam ser vistas e respeitadas enquanto corpos diversos, além de poder viver todas as suas potencialidades. “Nos humanizem! Parem de achar que todo LGBTQIAP+ é tudo igual ou desejam as mesmas coisas. Tem quem quer só ter sua vida tranquila em um espaço que lhe pareça um lar de acolhimento, tem quem quer ferver, tem quem quer viajar o mundo, tem quem quer conhecer pessoas, têm quem quer estudar e construir um legado… E é esse o grande barato de estar numa comunidade tão diversa”, enfatiza

Florence acrescenta, ainda, que 2022 é um ano para repensar as políticas institucionais e criar uma sociedade mais acolhedora. “Este ano, nós temos uma grande missão, que é repensar as políticas institucionais para que toda a sociedade saia ganhando.”

 

 


ALESSANDRO FERNANDES é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará e estagiário na Vida Simples. Natural do Rio Grande do Norte, acredita no veganismo popular como uma das ferramentas de transformação da sociedade e no potencial da escrita e do Jornalismo em tocar as pessoas.


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