Parteira por vocação

  • TEXTO Sibele Oliveira
  • FOTOGRAFIA Suhyeon Choi | Unsplash
  • DATA: 12/01/2019

Ivanilde Rocha era criança quando decidiu o que queria ser. Neta de duas parteiras, ela herdou a vocação das avós e formou-se enfermeira. Não para cuidar de doentes, mas para trazer bebês ao mundo. Por isso, especializou-se em obstetrícia. Encantou-se com o centro de parto humanizado do Hospital Geral de Itapecerica da Serra, onde as grávidas podiam comer, beber, caminhar e tomar banho, em vez de ficar deitadas sendo medicadas. Trabalhava lá quando uma de suas alunas do curso de enfermagem a procurou dizendo que não queria repetir o sofrimento do primeiro parto. Desejava que seu segundo filho nascesse em casa com a ajuda de Ivanilde. Assim foi. Desde então, o boca a boca trouxe várias outras gestantes até a parteira domiciliar, que de 2003 até hoje realizou cerca de 300 partos em residências. “São mulheres que querem ter autonomia sobre o próprio corpo e decidir como parir, sem interferências”, afirma ela, que trabalha como enfermeira obstetra há mais de trinta anos.

Após a confirmação de que a gestação é de baixo risco, os pais assinam um termo de prestação de serviço e participam de uma aula sobre o parto. A grávida não recebe medicações e quase sempre fica abraçada ao marido. Ivanilde chega acompanhada de uma enfermeira assistente e às vezes também de uma aprendiz, que ela mesma capacita. “Na hora em que pego o bebê e passo para os braços da mãe, sinto que sou um instrumento de Deus”, diz. Imersa nesse sentimento, costuma cantar. “Quando canto para ele é como se o abençoasse.

A beleza de fazer alguém nascer de forma natural leva Ivanilde a percorrer grandes distâncias. Mesmo morando em Pouso Alegre (MG), ela continua atendendo em São Paulo, em cidades do interior paulista e do sul de Minas. Uma vez foi procurada por um casal que morava em Guaxupé (MG). Preocupou-se quando soube que eles eram deficientes visuais, mas acabou sendo um dos partos mais lindos que fez. Ela conta que o casal enxergava com a alma, e que com sua orientação, o pai teve a felicidade de cortar o cordão umbilical. Para Ivanilde, nascimentos assim são mais humanos. “O bebê fica nove meses dentro da mãe. Então é tirado e fica longe dela. Isso repercute na afetividade, na forma de ser dessa criança. Eu o mantenho ligado à placenta até o cordão umbilical parar de pulsar, para depois cortá-lo. O bebê vai para o colo da mãe e continua escutando as batidas do coração dela. Só o tiro, com carinho, para fazer os cuidados. E logo devolvo para ela”. Para continuar dando atenção a eles, mesmo de longe, a parteira oferece cursos para as mães sobre aleitamento materno.


TAMBÉM QUERO COMENTAR

Campos obrigatórios*


VEJA TAMBÉM