O que é a igualdade? Me explica?

  • TEXTO Diogo Antonio Rodriguez
  • FOTOGRAFIA Elladoro | IStock
  • DATA: 11/10/2021

Na prática, a igualdade é complexa e também uma discussão antiga sobre como trazer condições iguais, de trabalho, de educação, de moradia, de vida para todos.

Eu devia ter uns 6 anos quando me dei conta pela primeira vez de que o mundo é um lugar desigual. Voltando para casa no ônibus da escola, vi um pequeno grupo de meninos mais ou menos da minha idade entre os carros, no farol vermelho. Vestiam roupas rasgadas. Pediam dinheiro aos motoristas. Não vi sinal de adultos cuidando da turma. Me perguntei: o que está acontecendo? Uma vaga lembrança de uma conversa com meus pais restou na minha memória. Devo ter perguntado a eles o porquê daquela criançada não estar voltando para casa no ônibus da escola, como eu estava, prestes a comer um lanche, para depois fazer a lição de casa. A resposta exata não lembro, devo confessar. Mas foi nesse dia que entendi que o mundo é um lugar desigual.

A partir de então, essa compreensão se aprofundou sem parar e se revelou em domínios da minha vida, do nosso país e do mundo. A desigualdade mostrou sua face nas questões raciais, de salários, na discriminação de pessoas por serem mulheres, negras, latinas, muçulmanas, trans…

Para os brasileiros, a face mais evidente é a desigualdade econômica. Somos o nono país mais desigual do mundo, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Segundo a ONG Oxfam Brasil, o rendimento do 1% mais rico é 36,3 vezes maior do que o rendimento dos 50% mais pobres em nosso país. As mulheres ganham um terço menos do que os homens; os negros ganham 43% menos do que os brancos. Vários abismos ainda separam nossa sociedade. O problema não é só nosso, vale lembrar.

Igualdade

Por trás da ideia de que existem desigualdades, há também a noção de que existe um oposto a tal ideia, algo que seria melhor. Estamos falando da igualdade. Como muitas das ideias que discutimos ao longo da série Nossas Questões, esse conceito tem causado intensos debates, principalmente na internet. Existe até um meme a respeito do assunto: três pessoas estão assistindo a uma partida de futebol em cima de caixotes de madeira e há uma cerca entre elas e o campo. Cada torcedor tem uma caixa, mas, enquanto os dois primeiros conseguem assistir ao jogo tranquilamente porque são mais altos que a barreira, o terceiro não vê nada por ser baixo demais, mesmo tendo a caixa como apoio.  

Mas o que é igualdade? Onde surgiu essa ideia? As discussões são antigas, é claro. Os gregos (sempre eles) já debatiam qual era a maneira correta de tratar pessoas que tinham status sociais semelhantes. O filósofo Aristóteles diz que existem dois tipos de igualdade. A primeira é a numérica: a lógica é que se há um número determinado de coisas (maçãs, por exemplo), a mesma quantidade desse bem é distribuída a todos de maneira igual. No entanto, nem sempre isso é justo. Pode ser que uma pessoa não esteja com fome, portanto não precise das maçãs que recebeu. Ou pode ser que essa pessoa tenha bastante comida estocada em casa, e as maçãs não farão tanta diferença. Aí, uma pessoa que está com muita fome pode não ter recebido o número adequado de maçãs.

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Crédito: Clay Banks | Unsplash

A divisão

A igualdade numérica, portanto, não leva em conta a necessidade das pessoas, apenas reparte os recursos de maneira igual. Para “resolver” isso, existe a igualdade proporcional, ou seja, a igualdade que distribui os recursos de maneira a atender às necessidades de cada um. Quem precisa de mais, recebe mais. Quem não precisa, não recebe. A igualdade proporcional é mais profunda porque leva todos esses fatores em consideração na hora de distribuir algum tipo de bem entre as pessoas de uma determinada comunidade. 

Direitos

Até aqui a ideia parece bastante simples. Só que a igualdade é um conceito que pode ser bastante abstrato e estar além até da distribuição de renda. Por exemplo, todas as pessoas devem poder votar? Essa pergunta pode parecer boba, mas não faz muito tempo que negros, mulheres e outras minorias não podiam escolher seu representante. Igualdade não diz respeito só a dinheiro ou maçãs, e é isso que a torna tão complexa. Por exemplo: você acha que um empregador deveria poder recusar uma candidata ou candidato porque a pessoa é transexual? Por conta da cor da pele? Porque a pessoa é obesa? Nesse caso, a ideia ganha contornos sociais e passa a falar sobre a distribuição de outros tipos de recursos na sociedade. 

Um termo bastante usado é igualdade de oportunidades. Há quem defenda que uma sociedade só é igual se todas as pessoas tiverem as mesmas condições de sobrevivência e acesso a coisas como educação, lazer, moradia, empregos. Desde a Antiguidade ocidental, a igualdade tem sido associada a outro conceito que já abordamos aqui na Vida Simples: a justiça. Você deve estar se perguntando: como dizer que todos são iguais quando as pessoas são tão diferentes entre si? Têm diferentes personalidades, sonhos, capacidades, interesses… Será que isso não acaba com as diferenças, com aquelas coisas que tornam cada um de nós um ser único? Não necessariamente.

Querer igualdade não significa dizer que todos deverão fazer, querer e ser a mesma coisa. O argumento a favor desse ideal considera que as pessoas devem ter as mesmas chances e possibilidades de se desenvolver. Isso é muito diferente de padronizar ou impor um determinado jeito de ser e pensar a todos. 

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Crédito: Sharon Mccutcheon | Unsplash

Oportunidades iguais

É perfeitamente possível respeitar diferenças individuais e, ao mesmo tempo, defender a igualdade. Um caso que confunde muita gente (e causa embates pesados na internet) diz respeito aos gêneros. Há muitas décadas, as mulheres lutam para ter os mesmos direitos que os homens têm. O voto foi uma das primeiras questões em que elas conseguiram o reconhecimento da igualdade. Hoje, fala-se muito na necessidade de equiparar os salários dos gêneros, ou seja, todo mundo ganhar a mesma coisa pelo trabalho feito.

O mesmo raciocínio se aplica às desigualdades relativas às pessoas negras. Toda vez que esse debate acontece, é comum aparecer a palavra “meritocracia”. Seu significado não é claro, mas ela denominaria uma sociedade em que as desigualdades só aconteceriam por conta do esforço individual. Ou seja, se uma pessoa ganha menos, tem menos posses, etc., seria porque ela não trabalha o suficiente. Muita gente defende que a meritocracia seja o padrão em todos os aspectos das nossas vidas (e isso até parece bastante razoável). No entanto, ela só pode funcionar de verdade quando as pessoas têm as mesmas oportunidades desde o começo. Caso contrário, o mérito será julgado pela metade. 

Todos somos serem humanos

Infelizmente, desde os meus seis anos, não parei de ver crianças pedindo dinheiro nas ruas, o que sempre me traz à memória meu primeiro contato com a desigualdade. Meus olhos, no entanto, se abriram mais e passei a ver as diferenças em outros lugares, antes não tão óbvios. Passei a entender que, embora sejamos todos seres humanos, a vida em sociedade cria separações e nos tornamos diferentes. Até hoje me pego pensando naqueles garotos e, hoje, mais maduro, sei que a situação não era realmente justa. Tão pequenos, eles não mereciam tão cedo estar onde estavam, na rua – enquanto eu voltava da escola para casa no meu ônibus confortável.


DIOGO ANTONIO RODRIGUEZ é formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Jornalista há 10 anos, também deu cursos sobre a importância da política para todos, na Unibes Cultural e na Virada Política, ambos em São Paulo. Em 2013, criou o site Me Explica, para tornar as notícias mais acessíveis.


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