O que aprendi com o suicídio do meu pai

  • TEXTO Izabel Duva Rapoport
  • FOTOGRAFIA Panuwat Dangsungnoen I IStock
  • DATA: 21/09/2021

Enfrentar o silêncio sobre o suicídio do meu pai trouxe novos caminhos, menos dor e mais histórias para contar sobre a nossa família.

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, como parecia ser a sua mente lúcida e um tanto impaciente, ele se despediu de mim dizendo “está tudo azul, minha filha”. Era uma manhã do dia 5 de julho de 1994. E eu ainda era uma menina de 13 anos passando as férias na casa de uma amiga, escutei essa frase do meu pai, por telefone.

Ele estava feliz e eu, apressada. Além de achar a expressão “tudo azul” um tanto cafona, lembro-me de ter desconfiado daquela alegria extrema. Um sentimento que, confesso, confortou meu coração ao longo daquela terça-feira e, mal sabia eu, ao longo da minha vida.

No dia seguinte, outra ligação. Dessa vez, para a mãe da minha amiga, ambas muito íntimas da minha família. A notícia que chegou a mim era de que meu pai, João, aos 48 anos, teve um ataque cardíaco e estava no hospital. Estranhei irmos até minha casa em vez de ver meu pai, mas logo a ficha caiu: ele havia partido, fazendo-me viver o primeiro grande luto da minha vida.

Desatar o nó

Dois anos depois, escutei de uma prima a frase “suicídio do João”. Eu não sabia o que significava aquela palavra (ainda não existia Google) e fui dormir incomodada. No dia seguinte, depois da aula, uma surpresa. Minha irmã Carol, seis anos mais velha que eu, foi me buscar na escola. Assim, veio ela disposta a desatar qualquer nó que apertava minha garganta desde a noite anterior.

Foi uma tarde bonita, mas difícil. Se nem hoje, aos 40 anos, eu consigo me libertar de verdade do sentimento de abandono, imagina aos 15, idade em que vivi o segundo grande luto.

Rupturas e fragmentos

Perder alguém por suicídio é viver a dor da ruptura duas vezes. A primeira quando a pessoa morre e a segunda quando se descobre a causa da morte. Meu pai conseguiu superar suas más noites, mas se fez em parte vazio. Não o conheci por inteiro, conheci fragmentos – pedaços e lembranças de uma vida que foram se apagando da minha memória, dando lugar a uma busca sem fim dentro de mim.

Como enfrentar pensamentos e dores tão impotentes e confusos? Como espantar os demônios da culpa e do abandono e conviver com o eterno “por quê”? Tentar entender a razão que fez meu pai se enforcar naquele dia em que parecia ter tanta alegria na sua voz virou uma obsessão muda dentro de mim.

Por anos, me rendi a um silêncio sufocado de tabus, de tristeza, raiva e muitos julgamentos. De família católica, passei a questionar Deus, sofrendo pela alma “pecadora” do meu pai suicida. Eu queria salvá-la, libertá-la do limbo e de um “plano espiritual pesado e injusto” em que ele não merecia estar.

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Crédito: Baramyou | IStock

Censura em casa

Dentro de casa, meu pai nunca era assunto, pelo menos na minha presença. Eu, minha mãe e meus três irmãos estávamos cada vez mais unidos, mas cada um sentindo o próprio luto, as próprias angústias e solidão, tentando viver como se não existisse uma perda tão inesperada – e censurada – dentro do nosso lar.

Na rua não era diferente. Até me acostumei a contar que perdi meu pai por ataque cardíaco – uma mentira em que eu lutei para acreditar. Em vão.

Com o tempo, mesmo tentando me encaixar nessa sociedade na qual o sucesso e a felicidade são obrigatórios (assim como a vida mais longeva possível), fui percebendo que o suicídio era mais comum do que eu imaginava e que eu só havia focado na morte, esquecendo o essencial: quem foi meu pai.

Uma nova memória 

João Duva, neto de italiano, nasceu de uma família sobrevivente de um terremoto que matou 4 mil dos 7 mil habitantes de Montemurro, uma pequena cidade próxima de Roma. Na virada para o século 20, meu bisavô emigrou para o Brasil, tendo seu nome trocado, por engano, de Duvo para Duva, e refez sua vida.

Entre os netos, meu pai era o caçula. Um homem amável, de sorriso largo e fácil, voz grossa, apaixonado pela minha mãe, Maria Sylvia, e pelos quatro filhos. Reclamava muito, a ponto de se tornar hilário por isso, e falava também com as mãos.

Adorava comer em família e achava que sabia cozinhar – quando assumia o fogão, a casa virava uma festa, mas no fundo ninguém gostava muito da comida.

Quando tudo ruir

Mas ele também era sério, bravo e atacado, especialmente no fim da vida, quando sua poupança foi confiscada pelo governo Collor, em1989. Um homem que não soube lidar com a instabilidade financeira da vida e que, por isso, me ensinou a ser forte nos momentos em que tudo ao meu redor parece ruir, e a olhar para as vulnerabilidades com mais paciência, compaixão e humanidade. E esperança também.

Hoje, após 26 anos da sua morte, o dobro do tempo que vivi com ele, digo que fiz desse tempo uma coleção de novas vidas para ele e para mim, com histórias reais ou imaginárias, com novas presenças, recomeços e até com novos olhares para o suicídio. Aprendi que o suicídio por vezes tem por trás uma doença que tem tratamento: a depressão. Hoje meu pai é assunto dentro de casa e, cada vez mais, conheço sua vida por meio das histórias de minha mãe – que tanto evitava falar dele.

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Crédito: Katarzyna Bialasiewicz | IStock

Sem rancor

Nessas conversas, tenho a impressão de que, juntas, conseguimos resgatar boas lembranças, falar dele com alegria e amá-lo de novo sem rancor. Nesse tempo também tive dois filhos. O caçula, João, aprendeu a andar no dia 5 de julho de 2012, mesmo dia em que meu pai se foi.

E essa data passou a ter um novo sentido, que explico usando os versos do Poema de Natal, de Vinicius de Moraes: “De repente nunca mais esperaremos / Hoje a noite é jovem / Da morte, apenas nascemos / Imensamente”.

O que vem por ai

Enquanto penso no meu pai partindo, deixando saudades, lembro-me do meu filho caminhando a passos curtos. Com jeito explorador e um brilho no olhar, em busca de tudo o que vem por aí. Da morte de um velho tabu, nasceu uma nova memória, um novo caminho e um primeiro passo. E por falar em memória, trago a lembrança do documentário No Intenso Agora, de João Moreira Salles. Sua mãe também morreu por conta própria, aos 59 anos de idade. “Na minha memória, eu era feliz nas férias e a minha mãe era feliz o ano inteiro”, ele conta, diante de cenas que mostram a mãe sorrindo – feito o azul do meu pai.

Do documentário, guardei também outra frase, dessa vez dita por um jovem, sobre a vida: “cada segundo tem a espessura da eternidade”. Espero que meu pai tenha experimentado um pouco disso também. Acho que na nossa casa ele chegou perto.


IZABEL DUVA RAPOPORT é jornalista e tenta se lembrar do pai pela vida que ele teve, e não pela morte que ele escolheu.


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