O que aprendi com meu cachorro

  • TEXTO Luis Mazzoni
  • FOTOGRAFIA Jeffengeloutdoors.com | iStock
  • DATA: 09/08/2019

As descobertas sobre convivência, tolerância e afetuosidade quando se divide um apartamento pequeno com um cachorro de 40 quilos

A história do Vitto, um cachorro da raça golden retriever, se confunde com a minha e a da Li (Livia), minha companheira. Estávamos apenas “ficando” quando ele surgiu em nossa vida. Lembro do dia em que recebi a mensagem dela: “Olha o que minha mãe me deu. Chama Vittório”. Na tela do meu celular reluziu a foto de um filhote de cachorro mastigando uma planta. Naquele momento, me dei conta de que se eu quisesse qualquer contato com aquela coisa peluda, teria que namorar a garota, não haveria outro jeito.

A família da Livia é de Bauru, interior de São Paulo, então Vitto morava lá com a mãe e a avó dela. Mas elas não tinham muita vontade de ter um cachorro. O filhote era para Li, mas compraram por comprar. Algo que eu descobri fazer parte do DNA das duas. São consumistas compulsivas. Vocês conhecem alguém que tenha cinco grelhas elétricas, diversos produtos de cozinha como processadores, raladores, máquinas de suco e uma fritadeira a ar sendo que ninguém cozinha? Bom, agora elas tinham um cão inquieto que passava boa parte do dia preso. Minha sogra trabalhava o dia inteiro e o filhote era muito elétrico para a vó Rachel, com uma rígida rotina de sonecas. Mas a felicidade dele quando nós o visitávamos era contagiante – e a saudade também.

Vitto chegou

Uma das maiores alegrias para esse cachorro era ir para a fazenda da família, também no interior paulista. Lá, ele tinha uma imensidão de grama para correr e brincar. E foi em um desses finais de semana, depois de uma corrida descontrolada, que a vida do Vitto e a nossa deu uma reviravolta. Ele estava na fazenda apenas com a vó Rachel e uma amiga dela, ambas no esplendor de seus 80 anos. A vó chamou o Vittório e ele veio, desenfreado na grama escorregadia, e se lançou por entre as pernas da desprevenida senhora. Resultado: uma perna quebrada e a ordem para nos livrarmos do cão.

Eu havia acabado de sair da casa dos meus pais e estava morando sozinho em um apartamento pequeno, de um dormitório. Mas sempre quis um cachorro. Então vesti a camisa 10, bati no peito e falei: “Deixa que eu fico com ele.” Livia ficou com o pé atrás. Tinha medo de perder a posse, mas não podia cuidar dele, já que dividia apartamento com uma amiga. E então o Vitto, um goldenzila terriver veio para a capital e tudo mudou.

Eu não sabia o que esperar com a chegada dele. Sentia uma mistura de ansiedade em realizar o sonho de ter um cachorro com o medo da destruição do meu novo lar. No final foi uma agradável surpresa e a única coisa que eu precisei fazer foi abrir a porta do coração… Da sala, do quarto e até dos armários para ele roubar tênis e meias.

A família cresceu

Fizemos, também, um investimento de infraestrutura para receber o Vitto no meu cafofo: compramos um tapetinho próprio para fazer xixi e uma grade para limitar seu espaço. Tudo em vão. Isso porque ele veio com a função “xixi só fora de casa” de fábrica, o que significa dois passeios diários e meia hora a menos de sono. Essa não foi a única surpresa. Impressionantemente ele não destrói as coisas, só papel como cartas e dinheiro.

Um dia, comeu 150 reais da Livia. Também foi o culpado por cortarem a luz de casa, já que esqueci de pagar a conta por ele tê-la comido. Normalmente, eu teria ficado nervoso, mas ao ver aqueles olhos caídos percebi que não adiantava, que ele não havia feito por mal, só estava brincando e que nervosismo não resolveria nada.

Pouco tempo depois do Vitto ter se mudado para meu apartamento, ele foi pivô de outra guinada na minha vida. Lembro de uma conversa com meu primo Claudio, quando contei que o cachorro da Li estava comigo. Imediatamente veio a pergunta: “Mas e a Livia?”. Expliquei que ela morava com uma amiga e estava cedo para esse passo. Mas não demorou muito e ela se mudou para o apartamento. Agora, éramos uma família e começamos a dividir as responsabilidades, como os passeios, o veterinário, a comida.

Convivência e afeto

Eu sabia que a rotina de casa ia ser alterada, mas não tanto! O dia já começa diferente. O barulho depressivo do despertador deu lugar ao alegre batuque de rabo, seguido de lambidas do Vitto e patada no peito. Isso quando não tem um salto surpresa na cama. Na sequência, ele vai para seu passeio matinal, que pode ser uma volta tranquila ou uma grande aventura. Ele pode enfiar o nariz em um carrinho de bebê e lamber uma criança dos pés à cabeça, estranhar um vendedor ambulante e disparar assustado, ou derrubar a Livia com um tranco – ele não tem noção de próprio tamanho.

Após essa odisseia pelo bairro, vem o momento mais difícil do nosso dia. Fechar a porta encarando aqueles olhos caídos que claramente dizem: “Vocês vão me deixar aqui sozinho?”. E quando olhamos para trás, às vezes, ainda o vemos debruçado na janela com uma feição que mostra inconformidade com a situação.

O aperto no peito causado pela cena volta a aparecer ao longo do dia e só cessa quando retornamos. Então, uma explosão de alegria toma conta da casa, e num passo de mágica qualquer problema ou sentimento ruim desaparece. É como se o rabo balançando, os pulos, a exibição dos brinquedos fosse o jeito dele falar que tudo vai ficar bem, que ele está ali e que se John, Paul, Ringo e George estavam certos (All we need is love) nós temos naquele momento tudo o que precisamos.

Ter um cachorro

Não é só ter que levantar mais cedo e dormir mais tarde por causa dos passeios. Inevitavelmente acabamos ficando mais em casa, não por obrigação, mas porque queremos estar com ele. Isso fez com que nossa casa virasse o QG da galera graças ao Vitto. Quem chega já é recebido com um par de patas no peito e uma lambida na cara.Quando somos convidados para algo, muitos amigos deixam claro: “Vocês vão trazer o Vitto? ”. Seguido de: “Se não, nem precisa vir”. Tem o outro lado também: quando nos convidam e deixam explícito para não levar o cachorro. É bobo eu sei, mas de certa forma isso me ofende, principalmente se o convite é para uma viagem.

O que as pessoas esperam que eu faça? Já sei… Hotelzinho. Gente, se eu quisesse gastar dinheiro para viajar, eu pagaria um hotel para mim, não para o cachorro. Já deu para perceber que viajar é outra situação que mudou completamente. Mas acho que isso fica para outro texto… Outro dia. O que eu posso garantir é que morar com um cachorro de 40 quilos em um apartamento de 70m2 não é fácil. Transforma o lugar onde você vive e também lhe modifica, despertando seu melhor. Quando penso no velho Luis (irresponsável, preguiçoso e, muitas vezes, egoísta) percebo o quanto o Vitto mexeu comigo.

Amor

Ter um cão exige paciência, carinho e tempo. Preocupações como acordar cedo para levá-lo para passear, ir ao veterinário ou para comprar ração tomaram um espaço em minha cabeça e um tempo em minha vida que eu não havia imaginado. É uma responsabilidade enorme, é outro ser que depende da sua dedicação. Mas vale muito a pena. Cada vez que ele faz uma cara engraçada, deita de um jeito estranho ou se deslumbra com um cachorro na TV, sentimos algo especial. Ter um bicho de estimação como esse no lar é como ter um multiplicador de sentimentos. Se você der um pouquinho de amor para ele, lhe devolverá todo amor do mundo, em uma única lambida.

 

Luis Mazzoni está estreando nas páginas de vida simples. É administrador e tem um olhar peculiar da vida.


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