O desafio das relações na pandemia

  • TEXTO Lucas Vasconcellos
  • FOTOGRAFIA Soroush Karimi (Unsplash)
  • DATA: 14/05/2021

Em momentos de crises, tendemos a ficar mais reativos e esquecemos da chave para o sucesso de toda relação: à comunicação.

O que faz um relacionamento durar? A pergunta, digna de diversas respostas, tem movido pessoas ao longo dos tempos. Não raro, ao andar pelas ruas, os cartazes de encantamento de amor ganham destaque nos postes. Talvez a busca pela “sorte de um amor tranquilo”, como canta Cazuza em Todo o amor que houver nessa vida, tenha mais valia para muita gente do que os números sorteados das loterias. Os relacionamentos, seja de qual natureza forem, são um dos pilares da existência humana – a solidão não é algo que, em geral, lidamos bem.

No último ano e meio, as relações viraram de ponta cabeça: sem abraços, sem encontros, sem a troca presencial. Em muitos casos, uma tela nos separa de quem amamos. Para alguns, a realidade imposta por um novo vírus serviu como afastamento. Para outros intensificou, caso de Fabrícia e Vitor, que começaram a namorar seis meses antes do primeiro lockdown na cidade de São Paulo. Era um relacionamento leve — encontros nos finais de semana, pontualmente jantares em dias úteis. Ele morava com os pais e ela sozinha. Em março, na incerteza do desconhecido, com medo de não se verem mais, ele se acomodou no mesmo apartamento que ela. E não saiu mais. “Para nós, foi o melhor. Parece precipitado, mas funcionamos morando juntos. Podia ser o inverso e a gente sabe disso. Até então, não tínhamos experimentado uma rotina constante juntos, desde o acordar até a hora de dormir. Mas nos encontramos e rapidamente encontramos um caminho para as nossas manias”, conta Fabrícia.

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Soroush Karimi (Unsplash)

Situação oposta à de Gabriela e Cláudio, do Rio de Janeiro. Há cinco anos estavam casados, mas já havia um desgaste na relação, reconhecido pelos dois. Ainda que tentassem se ajustar, o confinamento foi crucial para o fim do casamento. “Não deu mais, estávamos lidando com muita coisa e ficar 24 horas por dia juntos, em um apartamento, potencializou os atritos. O diálogo ficou ainda mais difícil. Uma coisa é tentar reconstruir a relação tendo uma rotina, com momentos de descompressão. Para nós, foi difícil e decidimos oficializar o fim do relacionamento”, compartilha Gabriela.

Escuta verdadeira

Para Desirée Cassado, psicóloga, professora da The School of Life e especialista em desenvolver habilidades emocionais, um dos possíveis caminhos para ter uma relação de sucesso está em não romantizar e não criar expectativas em relação ao amor. “Os casais que conseguem ser mais felizes juntos, são aqueles que se aproximam da imperfeição do outro com naturalidade, com acolhimento, normalidade. Talvez os relacionamentos que perdurem sejam aqueles em que as pessoas não esperem demais umas das outras, que colocam o amor no lugar onde ele não é o pilar central único e responsável por toda a felicidade. O amor envolve outro ser humano e com certeza um outro imperfeito. E o sucesso da relação implica em entender isso e que nós sempre teremos algum nível de solidão e frustração em relacionamentos”, explica.

Durante períodos de crises, tendemos a ficar mais reativos. Imagine uma situação como a atual, sem precedentes, que não apresenta sinais de que irá acabar logo. Os sintomas no dia a dia são comuns a todos. Ficamos desorientados e impacientes, para citar algumas questões. Nessas condições, é mais fácil aumentarem as interações difíceis, as brigas. O caminho, compartilha Yuri Busin, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento, está na comunicação. “Percebo que as pessoas têm muita dificuldade em se expressar, de falar o que desejam e não gostam. Muitas vezes, comunicamos parte do que queremos e esperamos que o outro compreenda o que está no subliminar, nas entrelinhas. E essa expectativa, quando não suprida, aumenta nossas frustrações, criando problemas onde, por vezes, não há”.

Como somos naturalmente incompatíveis, esclarece Desirée, é preciso entender que a compatibilidade no amor não é um presente, mas uma conquista. Ao buscar o autoconhecimento, criamos as ferramentas necessárias para a inteligência emocional e a maturidade. Atributos fundamentais para as relações bem-sucedidas. No fim, tudo depende da nossa habilidade de comunicação. Falar sobre os limites, medos, sonhos, de maneira clara, não violenta, priorizando a empatia e com uma escuta verdadeira para o que você sente e para o que o outro sente.


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