Da escassez para o caminho da abundância

  • TEXTO Keila Bis
  • FOTOGRAFIA Anne Nygard | Unsplash
  • DATA: 07/10/2021

Dar e receber é o que mantém a estrada da abundância aberta. Para seguir em frente, é preciso deixar para trás o que nos prende à escassez.

Antes de continuar lendo os próximos parágrafos, pense por alguns minutos em como você se relaciona com a abundância e com o dinheiro. Se quiser, escolha duas ou três pessoas próximas e reflita sobre como elas também lidam com esse assunto. Vocês possuem o que precisam para viver bem, mas têm medo que acabe a qualquer momento? Ou,mesmo tendo, acham que não é o suficiente e por isso precisam acumular mais porque algo pode acontecer e acabar? Ou não têm e pensam que nunca vão conseguir ter?

No entanto, depois dessas reflexões, há uma grande chance de se constatar algo que é muito central no trabalho “Dinheiro e Espiritualidade”, da psicanalista pós-junguiana Amelia Clark. “A maioria das pessoas fala em atrair abundância porque ainda está fugindo do medo da pobreza. Abundância passa a ser acumular em maior quantidade e seguir escravo dessa energia e do sistema. Por isso, pessoas com muito dinheiro tendem a ter mais medo da escassez do que quem tem menos”, explica.

Independentemente de quão polpuda é a conta bancária de cada um, o dinheiro faz parte da vida: é importante porque, sem ele, não há como sobreviver nos moldes em que a gente vive. Contas pedem pagamentos, alimentos e roupas são comprados, e por aí vai.

Fazer dinheiro

Com isso, vem o medo real de faltar. Esse temor pode ser maior, regendo fortemente a vida de muitos, se a educação familiar, a sociedade e a cultura reforçam ainda mais essa preocupação. “Muitos vivem para trabalhar, fazer dinheiro e depois para gastar. Mas como estão se relacionando com o marido, com a esposa, com os filhos, amigos e familiares?”, questiona Amelia.

Segundo ela, “Normalmente, não estão nem mesmo se relacionando com eles próprios, olhando o seu propósito da vida, de autorrealização. Se não estão em contato com a essência, não estão em contato com o amor, com as experiências que realmente preenchem o ser”, alerta a psicanalista, também terapeuta e professora de leitura de aura.

Como os alicerces do capitalismo são o produzir, vender e consumir em altas quantidades, falar em autorrealização, essência e propósito de vida pode parecer coisa de gente maluca ou alternativa. No entanto,  é justamente por estar distante desse tripé que surge o medo da escassez. “A verdadeira abundância é a liberdade. A liberdade de ser você, autêntico.

Para isso, é preciso se conhecer, saber de onde veio, para onde vai. Sair do modo sobrevivência, que gera a roda do hamster do sistema, e ir para o modo realização”, encoraja a terapeuta.

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Crédito: Sandy Millar | Unsplash

A  vida é abundante

Com calma e perseverança, com o mergulho no autoconhecimento, na meditação e observação da própria vida – verificando se ela condiz com a sua natureza, com seus dons e talentos natos –, acumulam-se os ingredientes que levam ao encontro com a essência real. “Essa essência é a verdade daquilo que você veio viver nessa existência.

O que veio aprender? Evoluir? O que veio ensinar? Servir? Um grande mestre me disse que nosso propósito é ser amor e que cada um tem de descobrir qual a sua forma de ser amor. Se estamos presos a somente fazer dinheiro para pagar nossas contas e nos tirar do estresse do dia a dia, estamos vivendo nossa essência?”

Lei da atração

Amelia explica ainda que, quando acontece esse encontro, o vínculo com a abundância se inverte. Assim, em vez de correr atrás dela, ela vem até você. Quando uma pessoa é verdadeira com a sua essência, produzindo aquilo que a entusiasma, ela passa a trabalhar em consonância com a lei da atração, que lhe garante, equilibradamente, o que ela precisa.

“Depois de entender que prosperidade significa não se preocupar com a falta, pois você se conectou com a essência da sua existência e criação, e está fluindo no ‘sim’ das portas abertas que a inteligência universal abre para você. É importante saber que a verdadeira fórmula para a abundância é o dar e receber. Esse fluxo é natural da vida e natural da abundância.”

Tudo está ligado

O biólogo José Sabino, doutor em Ecologia pela Universidade de Campinas (Unicamp), diz que essa interdependência também se faz presente em todos os ecossistemas e nas relações entre as espécies. “Um beija-flor, por exemplo, quando vai visitar uma flor, ele se alimenta do néctar, mas leva o pólen que pegou em outra flor. Um outro exemplo são os animais frugívoros. Eles comem os frutos e, muitas vezes, engolem as sementes. Depois, quando defecam, as fezes com sementes vão dispersar aquela árvore e planta da qual dependem.”

Sabino, também coordenador do projeto Peixes de Bonito, da Universidade Anhanguera-Uniderp, em Campo Grande (MS), lembra que essa conexão se estende a nós. “Estamos profundamente conectados ao mundo natural. Nossos alimentos, o ar que respiramos, a água que bebemos e o clima que torna nosso planeta habitável vêm da natureza, embora a espécie humana tenha ainda uma visão arrogante de se achar divorciada da natureza. Isso é um erro.

Sexta extinção

Esse erro, inclusive, está colocando em risco toda a abundância que o meio ambiente nos oferta. Pela primeira vez, o equilíbrio da natureza não pode mais ser garantido. “É o que os cientistas chamam de a sexta extinção em massa. Todas as anteriores estão relacionadas a causas naturais, mas essa atual é nitidamente fruto da ação humana. Tanto pelo tamanho da população, próximo do limite que a Terra pode suportar, quanto pelo predomínio de um modelo predatório de uso indiscriminado dos recursos naturais”, explica Sabino.

De acordo com o biólogo, é urgente que seja criada uma nova relação com o mundo natural, que o considere muito além da visão economicista para darmos continuidade à vida no planeta. Amelia compartilha da mesma opinião e diz que a destruição da natureza está ligada às necessidades de consumo criadas para preencher um vazio existencial.

Dar e receber

“Nossa sociedade está baseada no ter, e não no ser. Dessa forma, enquanto não acordarmos para essa migração, viveremos na escassez. A natureza tudo nos dá, e de graça e em abundância. Sempre digo: você quer entender e sentir o que é abundância e prosperidade? Abra um mamão e veja a quantidade de mamoeiros que guardam suas sementes”, diz Amelia, que vive na ecovila Piracanga, na Bahia.

Segundo Amélia, o fluxo do dar e receber, que atua em consonância com a lei da causa e efeito, não só permite a via aberta de circulação da abundância na nossa vida: também nos ajuda a reequilibrar a sociedade de extrema desigualdade na qual vivemos.

Ela propõe pensar nesse fluxo sempre em movimento, como uma estrada de entrada e saída onde as portas da doação e da recepção (lembra do beija-flor?) têm de estar sempre abertas.

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Crédito: Samuel Austin | Unsplash

Seja gentil

“Então a dica é: primeiro, se tem algo faltando na sua vida, doe esse algo, pois, se essa energia está em falta, significa que o seu fluxo está parado, e para ativar o fluxo você deve doar. Se quer dinheiro, amor e gentileza, doe dinheiro, amor e gentileza. E essa doação tem de estar desprendida de resultado, sem uma intenção além daquela de doar.

Doar porque você quer experimentar ver o outro feliz junto com a sua energia”, diz. Com a porta do fluxo aberta, é hora de se abrir para receber. E, por incrível que pareça, isso pode ser difícil. Por isso, vale fazer uma concentrada autoinvestigação. “Há crenças como a de que não merecemos coisas boas, de que não temos nada para dar.

De que não podemos depender de nada e nem ninguém (que é o orgulho) ou que, se abrirmos essa porta, vamos fracassar e aí preferimos ficar pequenos e limitados.”

Abundância para todos

Compreender que ocupamos, junto com todos os seres vivos da natureza, o planeta Terra, nossa casa em comum. E que vivemos em comunhão, numa rede que mantém a nós todos interligados, é essencial para nos mantermos vivos e com abundância. Por isso, não há mundo saudável se só poucos têm e muitos ainda vivem na miséria.

Compreender também que a raiz do medo da escassez é fundamentalmente criada pelo esquecimento dessa comunhão, priorizando o ter em vez do ser, pode ser o começo para quem quer empreender essa viagem nas águas da abundância, não pensando só em si, mas também no coletivo. Sabino diz que, para isso, precisamos de duas coisas: “ampliar nossa conexão com o meio ambiente, esse mundo rico e fantasticamente colorido, e nos lembrar no plano individual, de fazer um consumo consciente dos recursos.

Recursos finitos

Por fim, toda vez que compramos algo, todos os materiais, todos os insumos, toda a cadeia de produção está conectada ao meio ambiente. O plástico, o vidro, todos os componentes não se originam do espaço sideral, eles vêm de recursos da Terra, e esses recursos são finitos.”

E Amelia completa: “Abundância significa conversar sobre isso e encontrar soluções. Caso contrário, não é abundância, é cada um fugindo da sua escassez. Enquanto não nos dedicarmos individualmente e coletivamente a mudar os paradigmas da nossa sociedade, seguiremos vivendo em algum tipo de miséria, seja financeira, de saúde ou emocional. Precisamos nos dedicar ao dar e receber, ao amor, ao respeito, à honestidade”. Um chamado que, como humanidade, não podemos mais negar.


KEILA BIS é jornalista, psicanalista e terapeuta floral, e aprendeu que abundância é fazer o que se ama.


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