PENSAR – Tem conserto

  • TEXTO SIBELE OLIVEIRA
  • FOTOGRAFIA Taylor Wright | Unsplash
  • DATA: 31/08/2021

O que achamos que não serve mais pode ser exatamente aquilo que a gente precisa para ser feliz. Basta ter a habilidade de fazer um bom reparo

Ah, se as casas falassem… Com certeza, elas contariam o trabalho que deu para deixar o terreno limpo e plano, fincar a primeira coluna, empilhar tijolo por tijolo e esperar o tempo necessário para que eles formassem paredes firmes. Passariam horas descrevendo as minúcias do acabamento até nascer um lar de verdade. E depois lembrariam com emoção várias passagens da vida. O que sentiram ao testemunhar as alegrias, tristezas e segredos de seus habitantes. Como foi aguentar o sol forte dos verões, a braveza dos temporais, os dias gelados de inverno sem um agasalho para se proteger. Por fim, diriam com orgulho que permanecem em pé. Apesar de tudo.

Temos muito em comum com as casas. Nossas vidas são repletas de construções, umas resistentes e outras tão frágeis que qualquer vento joga no chão. Há também aquelas que abandonamos inacabadas porque não são a “casa dos nossos sonhos”, sem ao menos tentar consertar o projeto, ampliando o quintal, incluindo uma biblioteca ou mudando a cor da fachada. Desistimos antes de perceber o potencial que ela tem de nos fazer bem, mesmo sendo imperfeita. Ou de ver que às vezes basta um detalhe, como um jardim na frente, para a casa deixar de ser um patinho feio aos nossos olhos e se transformar num paraíso.

Fissuras e desgastes

Silvana Sodré Lourenço não percebeu que sua construção, embora bem-feita, precisava de manutenção. Havia se casado apaixonada, 13 anos atrás, e vivia com José Fernando e os dois filhos uma felicidade que inspirava todos em volta. Mas nem a comerciante, nem o marido notaram as pequenas fissuras que começaram a surgir aqui e ali por falta de diálogo, por não se ouvirem mais, pelas fofocas que vinham de fora e pelo carinho que foi sumindo. Brigas por coisas bobas foram virando rachaduras profundas, que clamavam por um reparo.

Mas, quando o casal percebeu que elas existiam, era tarde demais.

Cinco anos se passaram desde então. Durante esse tempo, os dois buscaram em outros amores o afeto potente que havia na família. Mas foi em vão. Eles já estavam legalmente separados quando tiveram uma conversa cheia de verdades e nenhuma censura, que os fez enxergar o amor que sobrevivia no meio dos entulhos do antigo casamento.

Término e reconstrução

Então decidiram reconstruir tudo do zero. Com as palavras certas fazendo o papel dos alicerces, a obra não demorou a acabar. Oito meses depois, Silvana se casou outra vez com José Fernando. “Nossa separação foi por falta de conversa, por um entender o outro. Não vamos repetir os mesmos erros”, afirma.

bom reparo

Crédito: Denise Johnson | Unsplash

Hoje os dois vivem atentos aos desgastes naturais para que a nova residência não desabe. Entenderam que, diferente dos filmes, o “e foram felizes para sempre…” da realidade depende de ingredientes como franqueza, zelo, paciência, flexibilidade e perdão. “Relações precisam ser cuidadas, renovadas, ajustadas, alimentadas para que possam perdurar e progredir”, afirma Marcia João Pedro, psicóloga do Departamento de Atenção à Saúde da Universidade Federal de São Carlos. Isso vale para tudo o que construímos na vida. Quando a gente não se assusta com uma parede descascada, bastam uma ou duas demãos de tinta para deixar o ambiente novo.

Não se apressem

Quando um plano escapa da rota que imaginamos para ele, é hora de entrarmos em nossa oficina de conserto interior, pegá-lo na mão como um objeto e olhar atentamente, canto por canto, até descobrir por que não está funcionando – em vez de condená-lo imediatamente ao lixo.

Pode ser que essa avaliação nos mostre que a peça deu perda total. Quando fazemos tudo que está ao nosso alcance e ela não dá nem sinal de funcionar, desistir é a melhor opção. E tudo bem se for assim. Mas se por um lado é mais sábio jogar a toalha do que relutar em aceitar o insucesso, por outro uma análise cuidadosa evita o descarte precipitado de algo de valor.

Ela nos permite saber se um namoro que começou a desandar merece ser levado adiante, se há cura para uma mágoa em uma amizade antiga, se o cargo sonhado e conquistado vale a vida dedicada apenas ao trabalho ou se o negócio próprio vai engrenar com ajustes. É claro que nem tudo depende de nós e que somos responsáveis apenas pela nossa parte.

reparo

Crédito: Taylor Wright | Unsplash

Restaurar

No entanto, se ainda não esgotamos todas as possibilidades, com vontade, empenho e persistência é possível restaurar o que parece perdido. Além do mais, insistir enquanto houver chance de dar certo nos livra de ter arrependimentos lá na frente.

Mas até quando tentar? “Nos envolvemos com algo na busca de felicidade, prazer, satisfação e necessidades básicas, entre outras coisas. Se esses objetivos não estiverem sendo atingidos e se a frustração for frequente na maior parte do tempo, corremos o risco de adoecer. Só a pessoa pode fazer essa avaliação e decidir se vale a pena ou não prosseguir”, diz Marcia. Ou seja, o estado emocional deve ser o nosso termômetro, observando se o que prevalece é o sofrimento ou o bem-estar.

Um sonho, ao ser tingido com as cores da realidade, muitas vezes perde a magia. Por não se encaixar na percepção de como deve ser a vida que o sonhador construiu secretamente em algum lugar da consciência, ele se decepciona. E fica pulando de sonho em sonho em busca de um que caiba perfeitamente na fôrma que criou.

Lidar com sonhos

“Quase sem notar nossas tendências, construímos um roteiro de como o futuro deve se desenrolar. Essas expectativas não têm nada de inocentes e se tornam o parâmetro segundo o qual julgamos tudo que acontece”, diz o livro Calma, da The School of Life (Sextante). Diante desse script perfeito, a vida real não é nada atraente.

Lidamos com os sonhos de maneira saudável quando entendemos que eles não são feitos apenas de prazer, mas também de esforço e talvez de algumas derrotas.

Só então o ideal deixa de ser o parâmetro e conseguimos enxergar os encantos da realidade. “A idealização caminha nesta direção, que é a de descartar o todo em virtude de uma parte, que pode ser pequena, que não está satisfazendo. São as expectativas utópicas de que haverá uma situação de felicidade plena”, observa Marcia.

Não é só a idealização que nos leva a desistir fácil do que temos nas mãos, mas também o tempo que demora para as coisas acontecerem, já que esse tempo nunca casa com o nosso relógio emocional. Quando a pressa bate, precisamos respirar fundo e consultar a alma para ver com mais clareza o que está acontecendo. Aí, a calma nos traz a paciência necessária para não agirmos como pessoas mimadas que querem todas as suas vontades atendidas na hora.

“Quem sabe o que o amanhã vai trazer? O adiamento da satisfação perdeu o seu fascínio. É, afinal, altamente incerto que o trabalho e o esforço investidos hoje venham a contar como recursos quando chegar a hora da recompensa”, reflete o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman no livro Modernidade Líquida (Zahar). Com ela, entendemos que é impossível sermos habitados por satisfações o tempo todo. E paramos de desejar o imediatismo.

bom reparo

Crédito: Marco Montalti | Unsplash

Um sentido novo

Um dos problemas da restauração é a sensação de que nada será como antes, como um vaso que se parte em mil pedaços. Mesmo bem colado, as marcas estarão sempre ali. É preciso ter sensibilidade para ressignificá-las, como faz a técnica kintsugi, criada quando o xogum Ashikaga Yoshimasa, no século 15, quebrou uma de suas tigelas de chá. Enviada para ser consertada na China, a peça voltou para o Japão emendada de forma grosseira, deixando essa autoridade descontente.

Quando ele pediu a artesãos que encontrassem um jeito de repará-la, surgiu a ideia de aplicar laca misturada com pó de ouro, prata ou platina para unir os cacos. E a tigela ganhou uma nova beleza. Ao olhar para uma cicatriz da vida, não devemos nos lembrar da dor que deu origem a ela ou lamentar a impossibilidade de voltar ao passado e evitar seu aparecimento. Mas evidenciá-la, como faz a técnica kintsugi, para ver com nitidez seu valor e os aprendizados que ela carrega.

Explorar o mundo

Quando isso não acontece, é necessário checar se o processo de cicatrização está completo. Às vezes, a ferida ainda precisa de um tempo para ser curada ou os cuidados não estão sendo suficientes. “A vida é uma reunião de experiências, que podem ser muito bem vividas se soubermos entender e dar significados adequados a elas”, afirma Marcia.

Podemos deixar para as crianças o desejo de viver trocando as coisas. Pois, na missão de explorar o mundo, desprezar um brinquedo após desvendá-lo por completo faz todo o sentido. Assim, elas ficam livres para serem capturadas por outros estímulos que vão lhes ensinar mais e mais. Os adolescentes também precisam dessa fase de experimentação até descobrirem como querem viver.

Mas, para quem cresceu e se conhece o bastante, mudar o tempo todo não tem serventia. Ao contrário. Pode ser o caminho certo para uma vida superficial. Por isso, em vez de abandonarmos uma
construção quando ela dá problema, vale a pena investir em uma boa reforma. Depois de pronta, ela pode se tornar novamente o nosso melhor refúgio.


SIBELE OLIVEIRA não desiste de suas construções, mesmo que pareçam condenadas. Ela sabe que, com cuidado e paciência, é possível fazer um conserto.


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