Como viver com mais leveza em outro país 

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Istock
  • DATA: 02/09/2019

A experiência de sair do Brasil fez com que Silvia Curiati, executiva do Google, descobrisse como o espaço externo pode transformar o que acontece dentro da gente

Duas décadas atrás, Silvia Curiati embarcou para os Estados Unidos para acompanhar o namorado em um projeto de trabalho. Morou durante quatro anos na Flórida e, quando voltou ao Brasil, já não era mais a mesma. “É como se tivesse acendido uma luz dentro de mim, mostrando que algo estava errado no estilo de vida que eu levava em São Paulo. Não me encaixava mais”, afirma. Os incômodos começaram a ganhar nome e, com eles, a vontade de voltar às terras norte-americanas. Quatorze anos depois, ela fez as malas novamente e, hoje, vive em Nova York. Apesar de estar em uma das áreas metropolitanas mais populosas do mundo, ela acredita que encontrou um ponto de equilíbrio e leveza em meio ao caos. O ponto de partida para isso? A relação que desenvolveu com a cidade.


Quando mudar de país pareceu ser a melhor opção?
Assim que voltei da temporada nos Estados Unidos, percebi que minha relação com São Paulo já não era mais saudável. Então, comecei a pensar em alternativas para me apaixonar de novo pela cidade – até então, eu nunca tinha cogitado deixar meu país. Vendi meu carro e voltei a usar transporte público em uma tentativa de redescobrir o espaço coletivo. Mas, aí, surgiram novas questões e não senti São Paulo como uma cidade amigável e decidi mudar. Hoje vivendo em Nova York também vejo que não é o lugar perfeito – a sujeira das ruas, por exemplo, me incomoda muito. Mas é onde sinto paz.

O uso dos espaços urbanos e coletivos parece ser uma questão essencial para você…
Acredito que a maneira como nos relacionamos com a cidade diz muito sobre a forma como vamos lidar com todas as outras áreas da nossa vida. Gosto de pensar em uma sala de reunião de uma empresa que, durante um bom tempo, é permeada por um barulho persistente, mas nenhum dos presentes parece se importar com ele. Até que, por algum motivo, esse barulho cessa e as pessoas pensam “que alívio!”. Ninguém tinha parado para dar a devida atenção aos ruídos, porque estavam todos acostumados com eles. A gente aprende a conviver com os incômodos e os trata como normais. Mas, quando percebemos que é possível viver sem alguns deles, a coisa muda de figura. Percebemos o quão melhor seria a vida nessas ausências.


De que maneira podemos aguçar a audição para perceber esses ruídos?
Autoconhecimento. Buscar entender quem somos, quais são nossos valores, do que não abrimos mão e o que é negociável. Outro ponto muito importante é dar atenção aos nossos interesses paralelos, porque eles fazem com que a gente se reconecte com a gente mesmo, e isso traz leveza. Agora, eu voltei a pintar, dançar, cantar, escrever. Eu gosto muito de tudo que envolve arte, e resgatar esses hábitos, parados desde a minha adolescência, foi algo importante para mim. Eu não ganho dinheiro com isso e aqui mora outra reflexão urgente: precisamos reservar parte dos nossos dias para essas atividades prazerosas, que não têm um fim produtivo. O objetivo é nutrir a alma.

 

Você trabalha em uma grande empresa, o Google. O fato de poder trabalhar de casa mudou a forma como você enxerga a questão da mobilidade, especialmente nos grandes polos comerciais?
Mobilidade é uma questão mundial e muito desafiadora. Além disso, é uma esfera diretamente conectada com o trabalho e o funcionamento das cidades. As empresas estão começando a olhar para isso com mais atenção agora, e é claro que isso exigirá esforços de todas as partes envolvidas. Quantas pessoas não chegam ao escritório mais cedo ou fazem hora extra todos os dias para não ter que enfrentar o trânsito nos horários de pico? Nós precisamos pensar não só nas tarefas do dia, mas em que condições chegaremos para cumpri-las. Levar três horas para se deslocar até seu local de trabalho é algo aceitável? Quanto não poderíamos produzir nesse tempo? O nosso dia inteiro gira em torno do pilar profissional – se não no escritório, no deslocamento até ele. Acho que, quanto mais os empregadores confiam aos seus funcionários certa flexibilidade, mais eles poderão contar com uma equipe feliz e engajada.

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Edição 211, setembro de 2019 ASSINAR
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COMENTÁRIOS

  • Nat

    Ainda é um desafio , mesmo em São Paulo , uma grande metrópole . Os gestores ainda não acreditam no trabalho remoto e da falha de comunicacao entre as partes . Torço para que seja uma realidade pra nós em breve.

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