Como lidar com nossas perdas

  • TEXTO Liane Alves
  • FOTOGRAFIA Annie Spratt | Unsplash
  • DATA: 12/02/2019

Será possível escapar de uma grande dor? Não. Mas existem maneiras de atravessar esse duro capítulo da vida. E, quem sabe, encontrar o lugar justo para abrigá-lo no coração

 

Foi com o peito ainda dilacerado pelo fim do seu casamento que Flávia M. entrou no Museu de Arte de Montevidéu. Quis ver uma exposição temporária de máscaras africanas, sem compromisso, durante uma viagem rapidamente providenciada pela família para que ela pudesse se distrair e relaxar. Ao examinar máscaras e utensílios expostos, seus olhos foram bater numa cuia usada numa cerimônia para aliviar o sofrimento. A cuia era mergulhada num grande recipiente com um líquido amargo e passada de mão em mão para que cada um dos integrantes da tribo sorvesse sua parte e a passasse adiante. “Saber que a dor que estava sentindo não iria durar para sempre me aliviou demais. Vi que era minha hora de beber da cuia, mas que, depois, ela seria passada à frente, para que outra pessoa pudesse experimentá-la”, conta Flávia. Quer dizer, de uma vez só e num curto passeio, a moça aprendeu algumas das grandes lições da vida: que o sofrimento nos torna iguais enquanto seres humanos, que todos passamos por ele e que exatamente por haver provado desse gosto é que podemos ser solidários com quem experimenta seu quinhão de amargor. A dor da perda pode sintetizar todas as dores. Ou seja, algo que se tinha como garantido simplesmente nos escorreu pelos dedos e não dá mais para recuperar. Acabou-se. Seja a perda de um amor, seja de um trabalho, da saúde, do prestígio ou da autoestima, enfim, de qualquer coisa que julguemos nossa, o fato é que nos encontramos diante da dor inexorável de quem perdeu. E esse sentimento pode nos afetar profundamente. A sabedoria, porém, está em saber que há diferentes maneiras de viver e reagir diante da perda, e ao doloroso período que a segue. É útil que conheçamos ao menos algumas delas. Porque, mais cedo ou mais tarde, vai nos chegar a hora da cuia.

Estádio vazio

As perdas permeiam o cotidiano. Desde as mínimas, as ínfimas, aquelas que a gente mal percebe e que incomodam como uma pedrinha no sapato. Ou também as médias, chatinhas, como o celular roubado ou o voo de avião perdido. São tantas que, se fossemos fazer as contas, teríamos uma boa dezena delas por dia. Muitas vezes elas causam um sofrimento não proporcional a seu tamanho: uma perda boba pode nos chacoalhar sem dó nem piedade, enquanto podemos passar batidos por algo que deveria nos derrubar no chão. Isto é, elas dependem não só delas mesmas, mas igualmente de nós. São também tão variados os sofrimentos causados pelas perdas que poderiam até gerar um dicionário. Nessa hipotética enciclopédia, o escritor uruguaio Eduardo Galeano incluiria, por exemplo, até a dor do torcedor causada pela derrota de seu time. Ele o imagina “no silêncio retumbante do estádio vazio, onde a noite cai e o derrotado continua sentado, sozinho, incapaz de se mexer, em imensas arquibancadas sem ninguém”. Tem maior expressão de desconsolo e solidão, diante de uma perda menor, que essa? E as dores parecem desproporcionais ao que acontece porque são frutos de uma soma incontável: não choramos por uma única perda, mas por várias que já nos ocorreram durante a vida. É um sofrimento cumulativo. Quando desabamos por nada, é porque a gota d’água transbordou. “A reação àquilo que perdemos depende muito do histórico anterior da cada um”, diz o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik ao analisar o sofrimento gerado por traumas e choques. Ele também diz que as pessoas que reagem bem às pequenas perdas (com um alto índice de resiliência, ou capacidade de voltar a seu estado normal) são as que mais bem se recuperam diante de um caso mais grave. Quem não admite perder nem em jogo de buraco obviamente vai ter muito mais dificuldade de superar uma dor intensa. Portanto, procurar elaborar as perdas menores do cotidiano pode nos preparar para acontecimentos mais difíceis. Outro grande fator de recuperação, segundo Boris Cyrulnik, é o apoio que as pessoas recebem num momento difícil. Quanto mais se sentem amparadas durante e imediatamente após a situação de dor, melhor será sua resposta. Ajuda também nesse processo ter experimentado vínculos afetivos anteriores satisfatórios, sejam da família, sejam de amigos ou de um grupo. “Nesse caso, o sofrimento pode ser bastante atenuado”, afirma Cyrulnik. “As recordações que temos das ligações afetivas com alguém que nos amou muito influem enormemente na recuperação, mesmo que elas venham da tenra infância”, diz ele. Quem foi muito amado costuma reagir melhor às perdas e traumas porque elas não parecem ser totais e absolutas. “Temos outras referências internas de amor e afeto em que nos apoiar”, diz. Existe um lastro afetivo que nos segreda que elas são possíveis de serem superadas. Em resumo, esta é uma das razões por que as reações emocionais diante do mesmo tipo de acontecimento variam de pessoa para pessoa: cada um vem com uma mochilinha diferente nesta vida, e dela fazem parte vivências anteriores.
Influem também características de personalidade e jeitos diversos de se expressar: as pessoas podem sentir profundamente sem se expressar na mesma proporção ou pouco sentir e fazer um escândalo. O coração alheio é terra que não se conhece e ninguém pode julgar ninguém. E quem não foi muito amado na vida ou não treinou o suficiente no cotidiano? Vai ter de contar com outros recursos, como procurar ajuda entre amigos e grupos de apoio ou fazer terapia quando a dor ocorrer. Como na vida, querer fazer tudo sozinho nesses casos é sempre mais complicado.

 

Vomitando a raiva

Falar sobre a própria dor, desabafar, é igualmente muito importante. “É o começo da recuperação”, afirma Cyrulnik. “Verbalizar torna a pessoa mais consciente do que aconteceu. Pela fala, ela se apropria do evento e pode começar a elaborá-lo psiquicamente. Nesse processo, pode compreender melhor a situação e ultrapassá-la.” Nesse momento, porém, podemos entrar em contato com uma raiva que escondemos até de nós mesmos. “Quando uma pessoa perde um companheiro de muitos anos, por exemplo, ela pode se sentir abandonada – e com raiva de quem partiu. O problema é que, em nossa sociedade, não se pode falar mal ou criticar quem já morreu”, afirma a psicóloga junguiana Mônica Giacomini. Essa raiva, não manifestada, passa então para o inconsciente. “Enquanto não a tocarmos e a elaborarmos, torna-se difícil iniciar um processo de recuperação”, diz Mônica, que fornece recursos durante a terapia para que o paciente possa entrar em contato com seus sentimentos mais agressivos.

Outra reação característica é a criação de fantasias, que podem ser essenciais num primeiro momento, mas que depois impedem o processo de volta à normalidade. A advogada paulista Regina Pontes manteve o banheiro do seu filho intocado por seis meses, com a escova de dentes sobre a pia, como se ele tivesse acabado de usá-la. Ela também não deu as roupas dele, que ficaram no armário, mantinha a cama feita e na secretária telefônica era a voz do garoto que ainda dava o recado. “Tinha a perfeita consciência de que mantinha uma fantasia, a de que meu filho ainda estava vivo de alguma maneira, mas simplesmente não tinha forças para desfazer tudo e assumir que ele nunca mais iria voltar”, conta Regina. A dor do “pedaço arrancado de mim”, do filho que morreu, é tão pungente que a pessoa pode ficar, como ela, um mês em estado de choque. Regina só conseguiu sair dessa situação com apoio de terapia – e do próprio tempo. E o período de luto não acontece só por uma pessoa que morreu, mas também por uma relação amorosa que acabou, por uma demissão que gerou uma profunda sensação de incapacidade e outras situações imponderáveis. “A perda da autoimagem e do amor, por exemplo, é capaz de gerar um luto tão intenso quanto a morte de uma pessoa querida”, diz Mônica, que trabalhou durante 17 anos no Hospital das Clínicas de São Paulo dando apoio psicológico a pacientes que tiveram braços ou pernas amputados. Ela assistiu muitas vezes ao sofrimento visceral por esse tipo de perda e às reações de luto por isso. São as mesmas de quem sofre a perda por morte, inclusive com as mesmas fantasias. “No caso de quem amputa uma perna e posteriormente recebe uma prótese, a pessoa pode reforçar a fantasia de que tudo voltou ao normal, pois geralmente ela não é percebida debaixo da roupa”, conta a psicóloga. Algumas mulheres voltam a querer seduzir – e conseguem –, mas param diante da possibilidade de um envolvimento profundo, que inclua relações mais íntimas que revelem a prótese. Como nos casos de morte, essa fantasia pode ajudar por algum tempo, mas depois pode se tornar um empecilho no enfrentamento da realidade. “Enquanto rejeitar a si mesmo e o que aconteceu, a pessoa vai projetar essa mesma rejeição nos outros. Para ela, ninguém será capaz de aceitar algo que ela mesma tem dificuldade de assimilar”, diz Mônica.

Outro luto profundo é o dos pais que têm filhos com problemas físicos ou mentais. “Eles vão ter de sacrificar a imagem da criança saudável e linda que acalentaram durante a vida. É também um luto, e muito dolorido, porque muitas vezes não é consciente, já que socialmente não se permite que o pai e, principalmente, a mãe tenham uma reação de rejeição com relação ao filho”, afirma Mônica. A recuperação de todos esses casos inclui utilizar recursos criativos que permitam assimilar a dor e, ao mesmo tempo, desenvolver maneiras de superá-la. Com isso, a moça que perdeu a perna será capaz de aceitar sua deficiência e saber que não precisa impedir sua expressão amorosa por causa de sua limitação e a mãe poderá acolher seu filho do jeito que ele é, porque terá abandonado a imagem de uma criança idealizada. Às vezes é mais fácil do que se pode imaginar.


A libertação

“As perdas mais comuns pertencem ao universo do ter, ao externo, ao que está lá fora, àquilo que eu penso que é meu: pessoas, inclusive”, diz o médico homeopata paulista Adair Zan. Esse sentimento pode se tornar muito possessivo e gerar uma enorme quantidade de sofrimento. “O primeiro passo é questionar se tenho direito a essa propriedade. Quem ama mesmo é capaz de soltar, de libertar. Não é sábio marcar a vida, ou o amor, em territórios delimitados. É uma ilusão pensar que somos capazes de mantê-los a qualquer custo.”

Segundo Zan, existe todo um arsenal dentro da homeopatia para que as pessoas enfrentem suas perdas da melhor forma possível. O período após a perda inclui várias fases, e cada um as vivencia do seu jeito. Ele pode incluir a raiva num primeiro momento, mas também um tempo em que o paciente se julga vítima. “É a fase da pena de si mesmo. A noção de que o destino, ou uma pessoa, foi muito injusto conosco agrava enormemente a sensação de dor e perda”, diz. É o caso, digamos, da traição ou de uma demissão arbitrária. “A diferença é que, no exemplo corporativo, a assimilação é mais fácil. O funcionário é que foi demitido, não a pessoa. Em se tratando da traição, a dor é pessoal, carregada de peso cultural.” No caso de uma demissão dolorosa, depois de algum tempo, e com ajuda externa, a sensação de inteireza e de autoestima pode voltar. “Se o ato foi injusto, chega-se à sensação de que quem perdeu mesmo foi a empresa. Ou de que a saída do emprego provocou um panorama profissional inesperadamente mais positivo”, afirma Zan.

“Já na traição amorosa, a sensação de ter sido ‘trocado’ por alguém nos atinge diretamente na pessoalidade”, diz ele. O médico acredita que, por meio de uma reflexão verdadeira – capaz de reconhecer, por exemplo, que a relação já apresentava sinais de desgaste que foram ignorados –, é possível chegar a um novo equilíbrio. A racionalidade justa pode contrapor um excesso de emocionalidade: pode-se perceber, por exemplo, que a insatisfação do parceiro não foi expressa por falta de diálogo. E essa carência de comunicação é capaz de ocorrer, ironicamente, até por receio de perder o parceiro e o relacionamento com ele. Enxergar sua parte, sua responsabilidade num processo de separação também é muito curativo. “O ideal é que o namorado ou o cônjuge pudesse um dia sentar e conversar com o ex-parceiro sobre isso, para chegar às verdadeiras causas do rompimento. Como é bem difícil isso acontecer, podemos traçar esse caminho com a ajuda de um terapeuta”, avalia o médico.

Essa compreensão chegou à publicitária Antônia Guedes alguns anos depois de ter rompido sua relação. Ela abandonou tudo – emprego, casa, pais idosos – para viver com o namorado na Alemanha. “Era tanta felicidade que parecia um conto de fadas, um sonho. Culpei durante muito tempo meu ex-companheiro por nossa relação não ter dado certo”, conta. Ela o acusava de tê-la iludido com seu charme e sedução. Depois de alguns anos, já livre da paixão, ela voltou a revê-lo. “E lá estava ele de novo com seu cativante sorriso de garoto. E vi o que meu ex-namorado realmente era – um ser imaturo, irresponsável, algo que não consegui ver anteriormente.” Ao enxergá-lo sob esse novo prisma, reconheceu que era ela quem tinha projetado seus sonhos em cima dele e que o havia transformado num príncipe. E entender sua própria projeção fez muito bem. “A mágoa e o ressentimento se dissolveram na hora, ao compreender que ele jamais poderia me dar o que eu esperava”, diz. Prova de que algumas vezes a dor e a raiva também podem ser provocadas por nós mesmos, por nossa imaginação, e não apenas pelo outro.

Pensamento mágico
A escritora americana Joan Didion narra o dolorido período de 12 meses em que enfrentou a morte súbita do marido e acompanhou a doença da filha (que também acabaria morrendo) no livro O Ano do Pensamento Mágico. Como ela, muitos de nós experimentamos dias que amanhecem como qualquer um e dão uma guinada, abalando nossas estruturas. “A vida muda rápido, a vida muda num instante, você se senta para jantar e a vida que você conhecia antes acaba de repente”, escreve Joan em seu relato pungente, cru e realista. A dor advinda de um choque inesperado é muito mais brutal que um processo que se arrasta por meses. No processo, chamado de “ending” (ou finalização) pelo psicólogo americano Stanley Keleman, há um tempo para a assimilação da perda. No choque, não. “Toda mudança precisa de um tempo de maturação, seja ela o nascimento de uma flor, seja o culminar de uma idade, seja uma transformação no modo de viver. É muito difícil viver o fim prematuro e inesperado de um ciclo”, diz a psicoterapeuta Sandra Taiar.

Quando uma situação ou um ciclo acaba – ou seja, quando aquilo que era estável já não pode prosseguir ou não faz mais sentido –, é preciso reconhecer que algo mudou definitivamente e que a vida não será a mesma. “Precisamos de um tempo para voltar a pulsar de maneira plena, com energia suficiente para fazer frutificar novos movimentos, ideias ou formas de se relacionar. Quando deixamos um ciclo de fato se encerrar, sem pressa, conseguimos voltar à vida mais íntegros”, afirma Sandra.

Essa pausa faz surgir novos hábitos, encontros, jeitos de fazer as coisas, interesses, necessidades. É extremamente importante ter essa pausa para cultivar e experimentar outras formas de viver antes de iniciar um novo ciclo. “Devemos ter paciência conosco e não desistir do novo que se apresenta”, diz a terapeuta, que desenvolve um trabalho, inclusive corporal, para que isso não ocorra. Ao conseguir empreender essa tarefa, estaremos prontos para superar a dor mais aguda e para juntar forças a fim de encarar as inevitáveis mudanças geradas pela perda. Nesse ponto de reconciliação com a vida, os danos gerados por ela já serão mais administráveis. E a compreensão de que realmente há uma maneira mais sábia e saudável de passar pelo sofrimento pode nos ajudar muito.

 

 

 

COMENTÁRIOS

  • Maria Helena

    Que lindo esse texto! Nos da repensar em várias coisas!

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  • Roberta

    Texto excepcional sobre a dor. Vocês conseguiram de forma acolhedora e realista falar de algo tão comum e tão surreal ao mesmo tempo. Parabéns e obrigada por tanta sobriedade!

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  • Anaí

    Belo texto! Parabéns à autora.

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  • Beth

    Bom dia.
    O texto foi muito oportuno num momento de perdas, bem elaborado, e esclarecedor.
    Obrigads

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