Como fazer a melhor escolha?

  • TEXTO Eleonora Nacif
  • DATA: 22/01/2020

Fazer um curso de pós-graduação ou gastar as economias em uma viagem incrível? Colocar a calça azul ou a preta? A vida é feita de decisões, com maior ou menor impacto, todos os dias. E fazê-las de maneira clara e madura é um exercício de sabedoria sobre quem você é de verdade

 

De manhã à noite, a vida é cheia de decisões. No instante em que abrimos os olhos, tomamos a primeira delas. Levanto agora ou fico mais cinco minutinhos? Será muito cedo para mandar uma mensagem? Qual roupa devo vestir hoje? Entro nessa relação? É interessante quando percebemos a quantidade de microdecisões que acontecem o  tempo todo, e são as nossas escolhas que constroem quase tudo o que está à nossa volta: a profissão, as amizades, o bairro onde vivemos, o Deus no qual acreditamos (ou não). E existem, ainda, os dilemas, aquelas decisões extremamente difíceis que temos que enfrentar em alguns momentos da vida e que podem levar anos para se dissolverem.

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As linhas que você lê aqui são fruto da decisão que tomei quando aceitei o convite para escrevê-las. Da mesma forma, você escolheu comprar a revista, dedicar um tempo para lê-la e, em meio a tantas matérias, decidiu se abrir para este tema. Mas, afinal, o que está envolvido nisso? Como fazer essas opções com sabedoria? Cada um desenvolve a sua maneira de enfrentar as questões que surgem ao longo do caminho, mas podemos destacar alguns aspectos capazes de ajudar ou atrapalhar as tomadas de decisão.

Por que é difícil

Uma das razões pelas quais consideramos que tomar decisões é algo difícil é simplesmente o fato de que temos muitas opções. Em parte, isso reflete a cultura consumista na qual estamos inseridos, com persistentes propagandas e uma indústria de marketing dedicada a influenciar nossas escolhas. A consequência disso é que frequentemente ficamos paralisados. Quando refletimos sobre o total de decisões que temos que tomar todos os dias (na esfera micro ou macro), ficamos esgotados. Assim, é importante reconhecer e respeitar a quantidade de energia gasta para isso.

Uma iniciativa interessante em relação a esse esgotamento é tentar trazer para a rotina algumas decisões. Explico: ao reduzir o número de escolhas da nossa extensa lista, podemos diminuir a sobrecarga. Steve Jobs e Barack Obama, por exemplo, faziam isso com a roupa usada no dia a dia. Jobs podia ser visto, diariamente, com uma camiseta manga longa de gola alta preta, calça jeans e tênis; enquanto Obama tem como assinatura pessoal ternos pretos ou azuis. Indagado sobre por que vestir sempre ternos pretos ou azuis, o ex-presidente americano respondeu: “Porque eu tenho muitas outras decisões a tomar”. Talvez você considere uma atitude extrema fazer isso com o próprio vestuário. Porém, vale a pena questionar se a resistência é interna (eu não quero ficar entediada, gosto de usar roupas diferentes) ou externa (eu não quero que os outros pensem que eu sou um tédio).

Número de escolhas

Outro aspecto que nos deixa paralisados é ter um número tão grande de escolhas e não saber o que fazer em primeiro lugar. A partir disso, especialistas em gestão de tempo criaram a chamada “Matriz Eisenhower”, inspirados na máxima de Dwight Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos, conhecido, entre outras coisas, pela frase “O que é urgente raramente é importante e o que é importante raramente é urgente”. Ele, que foi general do Exército americano durante a Segunda Guerra, teve que tomar decisões com enormes riscos e consequências em curtos períodos de tempo.

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Então imagine que você tenha milhares de e-mails não respondidos, precise preparar uma apresentação no trabalho, seu bebê esteja chorando de fome e ainda tenha uma pilha de roupa suja à sua espera. O que priorizar? A Matriz de Eisenhower nos encoraja a “riscar da lista” as tarefas não importantes e não urgentes, “delegar” as não importantes, porém urgentes, “planejar” as importantes e não urgentes e, por fim, “fazer agora mesmo” as tarefas urgentes e importantes. Parece simples, mas nem por isso é fácil.

Na realidade, todos temos nossos próprios métodos para seguir por este ou aquele caminho. Alguns decidem rapidamente, outros levam mais tempo. Alguns racionalizam, outros seguem a intuição. Uns pedem conselhos e ajuda, enquanto outros decidem sozinhos. De alguma forma, pedimos conselhos imaginando que o outro tenha as respostas para nossas perguntas sobre a vida, como se um olhar estrangeiro fosse capaz de perceber com clareza o que está realmente acontecendo. Fazer escolhas envolve muita confusão, e escutar-se pode ser um exercício difícil. É interessante quando nos damos conta de uma tendência interna a buscar a ajuda de pessoas que confirmam o que já queremos acreditar ou fazer, como se o outro apenas carimbasse uma escolha que no fundo já fizemos.

Emoção no comando

O filósofo escocês David Hume não acreditava que a razão determinasse o comportamento na hora de fazer escolhas, mas sim a emoção. Para ele, “a razão ajuda a julgar, mas o que nos motiva a agir são os nossos desejos e as nossas emoções. Podemos pensar que somos racionais, mas no fundo a razão é só uma conselheira, não é ela quem toma a decisão”.

Obviamente, nem sempre temos que acertar tudo, mas encarar esse processo com abertura, honestidade e curiosidade é fundamental. Talvez permanecer em um estado de não saber, de não decisão, quando nos permitimos passar um tempo com a questão, também seja um desafio. O estado de não saber é desconfortável. No entanto, ao pensar que sabemos tudo, não sobra espaço na mente para novas perspectivas. Queremos maquininhas para tomar decisões e resolver problemas.

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Porém, se conhecermos cada vez mais quem somos, vamos tomar nossas decisões a partir daí. Em Sempre Zen (Saraiva), Charlotte Joko Beck exemplifica esse ponto: “Imaginemos que se diga a Madre Teresa [de Calcutá]: ‘Bem, Madre, por que não considerar a possibilidade de viver em São Francisco, em vez de Calcutá? Aqui a vida noturna é melhor. Há lugares mais bonitos para sair e jantar. O clima é mais ameno’. Todavia, como ela toma sua decisão? Como chega à decisão de ficar naquela parte infernal de Calcutá onde trabalha? De onde brotou essa decisão? Depois de anos consigo mesma, ela vê que o lugar onde trabalha e o que faz não são um problema, são uma decisão tão somente”.

Decisões

Na The School of Life, gostamos de lembrar a frase de Sócrates, quando ele diz que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Uma vida examinada ou reflexiva, por outro lado, é plena de curiosidade e espanto. Dilemas são um convite para acessarmos questões íntimas sobre uma busca pessoal. Qualquer método que nos ajude a ficar mais conscientes em termos emocionais é válido. Quando sei quem sou e estou seguro da minha direção, tenho menos dificuldades para saber qual decisão tomar, ou não tomar.

 

Eleonora Nacif é advogada criminalista, professora e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Dá aulas regulares na The School of Life, em São Paulo, sobre “Como discordar”, “Como tomar melhores decisões” e, ainda, “Como aproveitar seu tempo sozinho”.


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