Acolhimento materno no exterior

  • TEXTO Nara Siqueira
  • FOTOGRAFIA Sai de Silva | Unsplash
  • DATA: 19/09/2019

Depois do nascimento da primeira filha, Babi Palhano criou o Mães Expatriadas, projeto para amparar mulheres que vivem em outros países e lidam com a ausência de uma rede de apoio

Há quase seis anos, Babi Palhano, carioca, fotógrafa e mãe da Gigi, embarcou para os Estados Unidos para estudar teatro musical e participar de um espetáculo na Broadway. A estadia, que a princípio duraria doze meses, foi se estendendo até que, por um aplicativo de relacionamento, conheceu o futuro marido. Algum tempo depois, já morando junto com ele, começou a sentir os efeitos da distância de sua terra natal. 

“Existia uma vontade muito forte de reencontro com minhas raízes”, conta. “Meu marido nasceu em Nova York, mas a família é toda grega. Me vi em meio a culturas tão diferentes, e havia uma questão intensa da não pertença. Depois, percebi que isso é algo comum a grande parte das pessoas que deixam o Brasil, seja qual for o motivo”, diz. 

Logo depois, descobriu que estava grávida, embora não tivesse planejado. “Estava focada no meu momento profissional, havia juntado um dinheiro para abrir meu próprio estúdio de fotografia. Em certa medida, foi um choque”, compartilha.

Nos primeiros três  meses pós-parto, contou com a auxílio da mãe. Mas, passado esse período, a avó de Gigi retornou ao Brasil e a solidão materna bateu à porta de Babi. Longe de seu país, sem o suporte da família e dos amigos mais próximos, tendo que lidar com todas as mudanças ocasionadas pela chegada de um bebê e com um diagnóstico de depressão pós-parto, ela teve a ideia de buscar na internet por relatos de mães que estavam em situação semelhante.

Ao perceber a quantidade de mulheres precisando de suporte e, ao mesmo tempo, tamanha ausência de um espaço de escuta, criou o Mães Expatriadas. “Depois que temos filhos, aquele sentimento de deslocamento piora muito. A ideia foi gerar um lugar de troca, no qual mães compartilhassem seus anseios, as angústias e dificuldades de criar os filhos no exterior. A gente tende a achar que é tudo muito lindo, mas a solidão é real e dói”, afirma. 

A adesão ao projeto foi maior do que ela esperava. Na semana seguinte à criação do perfil, combinou de tomar sorvete com uma moça que morava a duas quadras de sua casa e que também acabara de parir. Aos poucos, foram surgindo pedidos de ajuda de mulheres em relacionamentos abusivos, vítimas de agressão, completamente vulneráveis porque não tinham para onde ir – além de estarem em terras estrangeiras, dependiam da renda dos companheiros.

Até que recebeu um caso extremo. Uma brasileira, cujo salário era o principal da casa, foi espancada pelo marido. Não conseguia contar para os parentes, porque tinha medo que fosse julgada por eles, e não podia sair de casa por conta dos filhos. Recorreu à Babi pedindo socorro.

“Acionei uma amiga, na tentativa de encontrar uma advogada que pudesse ajudá-la. Achamos, chamamos a polícia, o homem foi deportado e entramos com um pedido de refúgio para ela”, conta. “A partir daquele dia, percebi que eu tinha uma missão. Falamos muito de sororidade, de nos ajudarmos, mas nos calamos diante de tantas atrocidades. Isso não é normal. O discurso não pode ser maior que a ação”. 

É por isso que, agora, o projeto começa uma segunda fase. Para além dos relatos compartilhados nas redes sociais, Babi uniu um grupo mulheres expatriadas e criou um canal de acolhimento materno que já atua em 20 países.

“Antes, eu fazia tudo sozinha. Agora, conto com o suporte de voluntárias que recebem todas as mensagens que nos são enviadas, acolhem com palavras e afeto, sem julgamentos. Afinal, estamos todas no mesmo barco. Se for necessária alguma intervenção, também contamos com profissionais cadastrados que podem dar o devido encaminhamento”, diz. Qualquer mulher pode se voluntariar para fazer parte dessa grande rede de escuta e apoio, desde que resida fora do Brasil. 

Babi acredita que, ao compartilhar nossos incômodos e desafios, conseguimos ter a dimensão de que não somos as únicas pessoas no mundo passando por determinada situação. Daí, a importância de um coletivo unido e engajado. “Ver outra pessoas superando me faz ser mais forte nos meus momentos difíceis”, observa. 

Mães Expatriadas
maesexpatriadas.com

 

 

 

    


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