A literatura na luta antirracista

  • TEXTO Débora Zanelato
  • FOTOGRAFIA Sash Margrie Hunt | Unsplash
  • DATA: 30/11/2021

Para a mediadora de leitura Camilla Dias, os livros nos permitem enxergar o mundo a partir de outros olhares. Logo, a literatura negra precisa de caminhos abertos para que possa ser também instrumento dessa transformação

Sem conhecer nossa história e como chegamos até aqui, poucas são as chances de criar transformações profundas e verdadeiras. A luta antirracista, que em novembro tem seus debates intensificados, nos convoca a ouvir, a refletir e a desconstruir padrões que estão há séculos enraizados em nossa cultura. E a literatura pode ser um caminho muito valioso para que uma mudança aconteça.

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Literatura para uma cultura antirracista

Quem compartilha leituras e olhares capazes de desconstruir o atual pensamento que ainda impera na sociedade é Camilla Dias. Aos 39 anos, a Assistente Social, Mediadora de leitura e pós-graduada em Docência em Literatura e Humanidades compartilha sobre suas leituras no perfil literário @camillaeseuslivros, no Instagram. “Comecei em 2015, diante da necessidade de trocar experiências com outras pessoas sobre minhas leituras”, conta.

Camilla também é mediadora de leitura em um dos coletivos “Leia Mulheres” (Santo André/SP), do projeto “Livro Livre”, voltado para formação do leitor literário e também do projeto “Leituras Decoloniais”.

Nesta conversa, Camilla fala da importância da literatura na pauta antirracista, nos convoca à reflexão sobre a importância do Dia da Consciência Negra, e nos chama à ação. Por fim, indica leituras essenciais que nos apresentam o Brasil ainda pouco conhecido e debatido.

VIDA SIMPLES: Por que a literatura pode ser um ponto importante na luta antirracista?

Camilla Dias: A literatura é arte e, como tal, nos auxilia a enxergar o mundo com outras lentes. A literatura de autoria negro-brasileira traz impressa em narrativas as experiências vividas pela população negra. Somos nós contando nossa própria história e isso tem uma enorme importância.

A produção literária de autoria negra desconstrói rótulos impressos na população negra e quebra elementos ideológicos racistas que legitimam estereótipos, a vez que, precisamos enxergar a população negra com uma imagem positiva, sem representações de vítimas ou algozes.

Quando uma pessoa que não é negra se depara com essas narrativas, pode criar sentidos e significados sobre sua própria vida e sobre a vida de pessoas que estão ao seu entorno. Conhecer a história e a realidade dos negros é fundamental para pensarmos e construirmos uma sociedade antirracista.

VS: Como você enxerga a literatura atual? E por que falar sobre livros?

Camilla: Para mim, os livros têm importância fundamental na construção, formação e transformação dos sujeitos e da realidade que estão inseridos. Minha vida se relaciona com estes objetos a partir deste pressuposto. Entendo que os textos literários guardam significados, representatividade, empoderamento e resistência. Ler é um ato político, transformador e revolucionário. É por isso que me considero uma militante literária.

O não-lugar que a literatura negra ocupa no Brasil, não pode continuar existindo, nosso lugar de fala tem sido reivindicado, muitas pessoas abriram passagem para que hoje estivéssemos aqui e os livros são um caminho para continuarmos nos reconhecendo, existindo e resistindo.

VS: O que você gostaria de destacar de discussão para o dia da consciência negra e o novembro negro?

Camilla: Gostaria que a população brasileira refletisse sobre o Dia Nacional da Consciência Negra e por que esta data tem importância para a nossa diáspora. O 20 de novembro é uma retaliação ao 13 de maio, quando se comemora a falsa abolição da escravidão no Brasil. Ter este dia em novembro tornou-se uma data alternativa, com objetivo de chamar a atenção para a luta contra a escravatura e para fortalecer o Movimento Negro Unificado em Porto Alegre na década de 1970. Havia a necessidade de buscar figuras de referência para marcar o protagonismo negro contemporâneo – e vamos combinar que a Princesa Isabel não pode ser a nossa referência de liberdade. Então, Zumbi, o último líder do Quilombo de Palmares, foi homenageado.

A palavra consciência vem do latim “CONSIENTIA”, que quer dizer conhecimento de algo partilhado com alguém. Hoje, nossa luta busca compartilhar com nossos pares a consciência do que foi e o que é ser negro na sociedade brasileira. Ou seja, através da consciência, descobrir e reconhecer as realidades vividas pelo povo preto, e de diversas formas: através de questões de raça, classe e gênero, e em sentidos psicológico e epistemológico. Todos no papel de descolonizar, auxiliando para o conhecimento de si mesmo e da população negra.

VS: Por que esse dia e essa pauta diz respeito a toda a sociedade?

Camilla: O mito da democracia racial constituído para ignorar o racismo estrutural ainda está no imaginário de várias pessoas negras. O trabalho de conscientização não é fácil, mas quem está ativo na luta, seja em qual frente for, contribui para que um dia a consciência negra seja despertada em nossos irmãos e irmãs. Este dia é um chamamento também às pessoas brancas. E pode parecer rude dizer isso assim na lata, mas precisamos ter em mente que o racismo é um sistema violento que opera através das suas atitudes, pensamentos e linguagens. Então, nesse sentido, o racismo é um problema da branquitude que o perpetua, então, estejam atentos!

Nós estamos lendo, estudando e nos formando sujeitos de nossas próprias narrativas, ao contrário do que esperam de nós. Pretos e pretas sabidos representam perigo para uma sociedade racista, excludente e capitalista. Descobrimos nossas figuras heroicas, os nossos mais velhos chegaram antes e abriram caminho para nós, estamos nos aquilombando, gritando alto e forte. Nossa luta é coletiva e a tendência é levar cada vez mais pessoas pretas junto com a gente.

VS: Poderia indicar algumas obras que você considera valiosas para se aprofundar? E por quê?

Camilla: Enquanto literatura negro-brasileira, indico os livros Água de barrela, da escritora Eliana Alves Cruz, Um defeito de cor, da escritora Ana Maria Gonçalves e Olhos d’água, da escritora Conceição Evaristo.

Já em literatura não-ficção, minha indicação começa pelo Genocídio do negro brasileiro, do professor e ativista Abdias Nascimento. Também indico Por um feminismo afro-latino-americano, da filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez e Escritos de uma vida, da filósofa Sueli Carneiro.

Todas essas obras nos apresentam um Brasil construído pelos negros e evidenciam como o racismo vem se manifestando e operando através da violência, da desumanização e da exclusão desde a colonização do país. Não conseguiremos entender e transformar o futuro e o presente sem conhecer o passado.

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