Você sabe o que é férias?

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Istock

Tudo muda. E aceitamos que não pode ser de outra maneira porque também notamos a mudança em nós. O que satisfaz hoje, não serve para amanhã, o que incomodou ontem, pode ser confortável agora. Quando a mudança parte de nós, é mais fácil. Somos ativos e estamos no comando. Quando a mudança vem de fora, somos reativos e a aceitação/adaptação pode ser turbulenta.

Mas, o conflito pode ser muito maior quando não identificamos as mudanças: nem as nossas, nem as do mundo. Muitas vezes por uma questão semântica mesmo. Nem sempre as mudanças da vida vem com um nome novo, como os produtos comercializados no supermercado. Foi com essa estranheza que ultimamente tenho pensando sobre as férias. No sentido original e histórico, é chamado de férias, o período em que interrompemos o trabalho com o objetivo de descansar.

Inicialmente, essa pausa era ditada pela religião — afinal Deus descansou no sétimo dia. Mas hoje — tempo em que o trabalho avançou demasiado sobre o nosso corpo e mente — o descanso é mesmo uma questão de saúde. O descanso do trabalho não é um capricho, é vital para a produtividade — exigência de quem contrata — e imprescindível para a bem estar físico e mental do contratado. É um direito e uma obrigação, estabelecidos e garantidos por lei.

Porém,  é do ponto de vista biológico que mais notamos os efeitos das férias. Para além do bem-estar mental, são elas que equilibram os níveis de cortisol, hormônio que ajuda no controle do estresse, reduz inflamações, otimiza o sistema imunitário e mantém os níveis de açúcar no sangue, assim como a pressão arterial. O cortisol é como o colesterol: deve estar em equilíbrio. Baixo ou alto indicam problemas. Até aqui nada de novo: os benefícios das férias são consagrados.

O problema é que esse conceito original das férias está desaparecendo porque as pessoas estão perdendo a capacidade de descansar. Elas estão “tirando férias”, mas não estão de férias. Pode-se estar uma ou duas semanas em um paraíso tropical, em paisagens bucólicas ou a conhecer a cultura e a história de uma cidade; mas se não há descanso nem desconexão, não é férias. E na hiperconectada modernidade, desconectar é uma tarefa difícil e que exige muito tempo.

Já desconfiava que eram assim. Com uma rotina de profissional liberal, há anos que as minhas férias resume-se a quatro dias,  uma semana no máximo. E há anos que tenho a sensação de que nunca tive férias. A questão que se coloca é: quantos períodos de descanso são necessários e por quanto tempo? Segundo especialistas 70% das pessoas precisam de uma semana para conseguir “esquecer” sua rotina de trabalho; as outras 30% precisam de duas semanas ou mais para conseguir mudar o chip. Só após essa etapa, as férias se iniciam. Ainda de acordo com estudiosos, o tempo necessário para esquecer o trabalho varia de acordo com outros fatores como nível de educação e sexo. As mulheres, por exemplo, tem mais dificuldade em se desligar do trabalho do que os homens. Algumas confessam que só depois de duas semanas conseguem desconectar e mudar para o modo férias.

Há outro agravante que inviabiliza as férias: a recente febre mundial do turismo. Em outros tempos, viajar era uma questão de gosto e personalidade. Agora é quase uma obrigação social. É como ver séries. Se você não viaja, não conhece tal país, você está fora, não está integrado no mundo. E para a maioria das pessoas quando é possível ser turista? Nas férias. Então o período em que você, oficialmente,  deveria parar, descansar e desconectar, transformou-se na experiência de apanhar um avião para um país distante e andar de um lado para o outro. Fazer turismo não é férias. Se você reservou uma semana para andar feito um insano numa cidade longínqua, talvez você de desconecte, mas não descansará. Após o turismo, você vai precisar de mais uma semana para descansar antes de retomar o trabalho.

Férias é um período para parar, descansar e desconectar, portanto, o tempo é um ingrediente fundamental. Mas o desconectar continua a ser um desafio. Muitos quando reservam um hotel, o primeiro item das exigências é a conexão à internet. Todos festejam a maravilha das maravilhas proporcionadas pela tecnologia, como a possibilidade de trabalhar de qualquer parte do planeta. Mas, é nas férias, quando queremos relaxar e desconectar que o vantajoso “meu escritório é o mundo” mostra a sua fase negra. A tecnologia acorrentam-nos ao escritório. Em qualquer ponto do globo, o seu chefe vai localizá-lo, inviabilizando a desconexão necessária.

E por mais que amamos a tecnologia, não estamos completamente adaptados a ela. Aderimos a tecnologia como a possibilidade maravilhosa do trabalho à distância, mas continuamos presos ao padrão antigo, a cultura do presencialismo. O resultado é que estamos sobrecarregados porque incorporamos o novo modelo, mas não abandonamos o antigo.

Aliado a isso, temos mais agravantes modernos como um mercado de trabalho competitivo. Há um espécie de lei vigente de que ser bom profissional é ser workaholic. Se todo o seu tempo for dedicado à carreira, a ponto de você nunca tirar férias, você será considerado um profissional de topo. E para piorar, já assimilamos essa cultura. Muitos profissionais admitem ter vergonha de tirar férias, como se isso fosse um sinal de fraqueza ou de preguiça. Aqueles que são inseguros ou tem medo de perder o emprego, é ainda pior. Nunca tiram férias ou, quando vão, não relaxam.

E, por último, o estresse, outro responsável pela nossa incapacidade de descansar. Os novos tempos trouxeram um contingente gigantesco de estressados, pessoas habituadas a um ritmo de vida acelerado. Sem competência para abrandar, estão continuamente à procura de estados de alerta — daí a incapacidade de se separar-se do celular e dos e-mails. O estresse instalado, transforma-se em estilo de vida, uma forma de estar no mundo. O estressado vai de férias e sente uma incontrolável vontade de organizar tudo, de fazer planejamentos diários e estar sempre em atividade. Para esses, estacionar o carro e arrumar mesa no restaurante são considerados obstáculos e objetivos a vencer. Nessas condições, o estresse vai na bagagem, independentemente do destino, seja ele paradisíaco ou citadino.

Por todos esses entraves, tirar férias tornou-se um desafio que demanda muito tempo. Porém, não é necessário a fuga para um pais distante. Você pode ficar na sua cidade. Experimente mudar a sua rotina, suas atividades. Faça coisas novas, exponha-se a outros estilos de vida, tome o café da manhã na cama, passeie, pratique algum esporte, aprenda algo novo, leia um livro, dedique o seu tempo a família e amigos. E, sobretudo, esqueça o seu lado profissional — inclusive os problemas que o esperam no regresso.  Dê férias ao corpo e dê férias a mente.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

 


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COMENTÁRIOS

  • Sílvia Patrícia

    Texto maravilhoso! Obrigada, vida simples!

    Responder
  • Faby Kerche

    Fiquei 6 anos sem férias, mudei de cidade, e ainda não consigo desligar do antigo emprego, carrego nas redes sociais, meus clientes e sempre acabo trabalhando.
    Espero aprender com esse maravilhoso texto, que uma pessoa que ama muito me enviou, a aprender o que é férias.

    Responder

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