Você não é tão especial assim

  • Tiago Belotte

O mundo não está te avaliando o tempo todo. Você é protagonista da sua própria vida, mas nas histórias dos outros, é um coadjuvante ou um simples figurante

 

Certa vez, um amigo me contou que com alguma frequência precisava ter a mesma conversa com suas duas filhas. Naquele tempo elas tinhas 4 e 7 anos. Ele dizia, individualmente, pra elas: você não é especial. Aliás, você é, pra mim, para sua mãe e, talvez, para sua irmã, melhor perguntar pra ela. Mas para o resto do mundo, você é só mais uma pessoa. Confesso que num primeiro instante achei frio. Pensei, nossa que mensagem dura para uma criança. Entretanto, foi quando refleti sobre o motivo, que entendi o quanto elas são privilegiadas por ouvirem essa frase de uma pessoa que as ama tanto.

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A jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, em um dos seus livros, diz assim – “quando você se liberta da ilusão da própria importância, tudo dá menos medo”. Eu passei minha infância e boa parte da minha adolescência acreditando que as pessoas estavam sempre olhando pra mim e avaliando o que eu estava fazendo. Toda vez que eu entrava num supermercado com um dos meus primos, ele começava a rir e a gritar pelos corredores. Eu só queria me esconder atrás de qualquer prateleira, morto de vergonha. Na adolescência, meus amigos cantavam dentro do vagão do metrô e eu fingia que nem os conhecia, com medo do que os outros passageiros estavam pensando. Foi minha esposa, quando ainda éramos namorados que me deu a real: você acha mesmo que todo mundo está perdendo tempo prestando atenção em você?

Você é protagonista da sua vida

Passei os primeiros vinte anos da minha vida medindo ações, tendo como critério a pergunta que ecoava na minha cabeça. O que as pessoas vão pensar? Hoje eu sei a resposta. Elas não vão pensar nada. Para a maioria delas eu não sou tão especial assim. E por mais que elas pensem alguma coisa, isso mudaria o que na minha vida? Por outro lado, eu ficar preso na suposta opinião que elas tem de mim, me impediu de fazer muitas coisas. Consegui me livrar completamente desse fantasma? Ainda não, mas a voz fala cada vez mais baixo, de um jeito que, em vários momentos, nem escuto ela mais.

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O mundo não está te avaliando o tempo todo. Você é protagonista da sua própria vida, mas nas histórias dos outros, é um coadjuvante ou um simples figurante que passa no fundo da cena. E isso é maravilhoso. É libertador. O medo de tentar algo novo, de ser você mesmo ou de fazer seu próprio caminho, quando você se dá conta disso, fica mínimo. Bem pequeno. Menor que as filhas do meu amigo, que tiveram a sorte de ter durante a infância alguém sempre as lembrando, que elas não são tão especiais assim.

 

Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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