Você é uma pessoa ética?

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Brian A Jackson (IStock)

Sinônimo de fazer o que é certo. A ética vai além do fazer boas escolhas — para nós mesmos, para os outros e para o mundo — também constrói quem somos e o que queremos ser.

A ética é um assunto espinhoso dentro da filosofia. Há muitas teorias e pouco consenso. E também para nós. Primeiro porque, de forma geral, olhamos muito para a ética (ou a falta dela) nos outros, nunca a nossa. Segundo, porque poucos conseguem dizer numa frase o que é a tal da ética. Por agora, podemos ficar com a definição (muito básica) que diz que a ética são as regras que regem a melhor forma de conviver com os outros.

A ambição do homem de qualquer época era que existisse um conjunto de regras boas para todos — e escritas, para não deixar dúvidas. Não existe. O que é o paraíso para um, é o inferno para outro. O que ajuda um, prejudica outro. Então, e se nos guiássemos por regras já consagradas? Também não dá. O que foi bom no passado, pode ser totalmente contraindicado no presente. E, no meio disso tudo, tem os danos, as agressões, a chantagem, a coerção e — o cupim do mundo — a corrupção.

E a moral?

A confusão sobe de tom quando entra o conceito de moral. Para lançar um pouco de luz —simplificando muito um assunto complexo — podemos dizer que a moral são os bastidores da ética. É o que acontece na nossa cabeça antes de aceitar, definir e colocar em prática a “melhor decisão”.

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Brian A Jackson (IStock)

Claro. Para cada ação importante, há um embate dentro de nós. A filosofia chama a esse processo de pensar bem para decidir, “deliberar”. Afinal, encontrar uma única ação que seja boa para nós, para outro (ou outros) e para o mundo, é uma equação difícil. Infelizmente, esse é um exercício para poucos. A imensa maioria fica apenas no primeiro nível — a melhor escolha para si mesmo — e mesmo aqui há trabalho. Afinal, todas as escolhas trazem consequências. E na vida — como no xadrez — é preciso antecipar os próximos passos e se preparar para eles.

Certo e errado

A sabedoria convencional dá conta que na antessala das decisões éticas, há uma luta entre um “eu superior” e outro “eu desvairado”. O anjo e o demônio que habitam em nós. A psicologia fala em ego e id. O “verdadeiro eu” e o “falso eu”. Há o anseio da bondade do espírito e as demandas más do corpo. O racional que pensa e o inconsciente que olha para o abismo. A razão ciente do dever e o corpo desejante.

Quem nunca se perdeu nessa guerrilha interna? Afinal, o que é o certo e o errado? A filosofia que compreende o período entre Platão e Kant veio em nosso socorro dizer que o homem instintivamente sabe o que é certo. E mais, somos inclinados para o bem e para o dever. Quando ele tem dúvida é porque está fragmentado, em perigo. Portanto, ele deve expulsar ou silenciar a sua parte menos boa e cumprir o seu dever.

Ah! Mas e quando a decisão moralmente correta é também a que me faz infeliz. E, diz, Kant: “Não importa. O dever e o que é certo vêm primeiro, antes da sua felicidade”. E quem cumpre o seu dever é um ser moral e ético, da melhor qualidade? Depende, diz Kant. Você fez por convicção ou porque tem medo de ser descoberto? Vê como não é simples? Há quem faz o que deve ser feito — isto é, age eticamente — por medo da punição. Quem está nessa categoria tem o desprezo incondicional kantiano: é a pior da criaturas. Age com ética, mas não é moralmente correto.

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Twinster Photo (IStock)

Considere o outro

Você considera esse embate interno complicado? Espere. O tom sobe quando você tenta equacionar o interesse de outra pessoa. E pode subir ainda mais, se você considerar que a decisão também tem o poder de impactar muitos outros, a vida o futuro, o planeta — como os problemas éticos-ambientais, por exemplo. Se você sabe do que eu estou falando, a primeira coisa a fazer é comemorar. Há um contingente enorme de pessoas que não chega nesse nível de abstração. Para esses, a única variável é o seu próprio querer. Não se importam com o que os outros sentem ou o sofrimento que podem causar. Há adultos, analfabetos emocionais, que ainda permanecem no egocentrismo da fase infantil dos três anos. Não existe o outro. Menos ainda a responsabilidade pelo outro. O único norte das suas decisões é o seu querer, o seu bem-estar.

O prejuízo é seu

E onde está o problema? Ora, a forma como agimos com os outros, o relacionamento que temos com o mundo são o mesmo material que usamos para construir a pessoa que somos e a que queremos ser. E eis aqui a importância máxima do conflito entre o bem e o mal que habita em nós. As nossas escolhas fazem quem somos. Oscar Wilde mostra isso com muita clareza na sua obra-prima O Retrato de Dorian Grey. Cada atitude danosa faz parte — e contamina — a estrutura que suporta a construção de nós mesmos.

O exercício da ética é muito difícil — o do viver considerando o outro — mas é o único caminho. E não se trata apenas da nossa contribuição para um mundo melhor. Precisamos do outro para construir quem somos. E só nos compreendemos — quem somos e o que buscamos — através da consideração pelo outro. Veja a quantidade de crianças de três anos à nossa volta. Birrentos, frios, egocêntricos. São pessoas que estão na superfície da vida, nunca se entristecem ou se alegram demais. Nunca tem grandes desgostos, nem grandes amores. Há quem nunca chega a ser um adulto no sentido psicológico da palavra.

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Wild Pixel (IStock)

O outro sou eu

E como se faz isso de “enxergar o outro”? É através do diálogo, do ouvir o que o outro sente. É preciso considerar o outro. Há ajudas? Sim. Há fontes que aguçam essa competência, como a literatura. Nietzsche tinha Dostoiévski como o melhor dos psicólogos, justamente porque ele mostrava como trilhar esse caminho. Nas narrativas do grande escritor e filósofo russo há a descrição do drama interno do personagem A, com o mesmo rigor do drama interno do personagem B. E aqui temos o privilégio de ver a luta dos dois personagens de fora. Embora alguns personagens possam ser mais importantes do que outros, nenhum dos mundos de cada um tem a preferência.

Olhamos para cada um e olhamos para nós. E notamos que ambos são pertinentes e igualmente valorosos. Esse é um aprendizado riquíssimo para o exercício de considerar o outro. Quando você é a terceira pessoa, você se entende como um entre muitos. Alguém que está tentando se encaixar, encontrar o seu lugar. Quando você estiver no dilema de compreender o que é importante, valioso ou bom. Pense também em quem você está tentando ser?

E…

E aqui fechamos o ciclo, voltamos à moral, ao início, aos bastidores das decisões éticas. Muito bem, você espera de mim uma resposta concreta ou pelo menos a indicação de algum código de ética. Algo que aponte pelo menos uma direção a seguir. Não tenho. Ajudava muito se alguém respondesse a pergunta “O que é certo”? Infelizmente, a filosofia — e nenhum ramo do conhecimento — tem uma resposta. O amor ao dever de Kant? Nem sempre funciona. Quem não atende as próprias necessidades, não se gosta, não tem autoestima. É um autômato. Kant também afirma que o certo é aquilo que pode virar uma regra universal. Algo que sirva para todos. Ora, todos sabemos que não temos a mesma disponibilidade para ajudar estranhos quando estamos ocupados com nós mesmos e os nossos entes queridos. O altruísmo universal é para poucos.

Os filósofos que defendem a busca da felicidade como o bem maior, penso que defendem um caminho muito perigoso. Afinal, o serial killer mata porque quer ser feliz. O pedófilo que abusa de uma criança também quer ser feliz.

E os filósofos utilitaristas, como o inglês Stuart Mill, que defendem que a atitude certa é aquela que contempla o bem para o maior número de pessoas? Também não é a resposta. Agora imagine que alguém chega para um check-up de rotina e o médico constata que cinco de seus órgãos saudáveis ​​podem salvar a vida de cinco pessoas gravemente doentes naquele hospital. “É claro que ele deve ceder seus órgãos em favor de cinco vidas. Permitir que ele mantenha seus órgãos salvará apenas um mísero ser humano — ele mesmo”, diz um utilitarista.

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Tim Marshall (Unsplash)

Resposta ética

Nas demandas morais do “Eu sou feliz?”,  “Sou generoso?” e “Estou contribuindo para o mundo?”, a luta para responder “sim” exige muito mais do que aniquilar o mal em nós. As demandas éticas “o que devo fazer?” “Quem devo ser?” , “a quem estou em dívida?” não têm respostas prontas. Exigem o equilíbrio frágil e sempre mutante da nossa capacidade para cuidar de nós, a competência para lidar com o outro e sabedoria para lidar com um mundo que espera muito de nós.

Porém, não se pode perder de vista que a ação ética —relação com o outro e com os outros — reflete na nossa própria construção. Então, nesse momento, posso sugerir um pequeno farol. Quando você precisar agir sobre alguém, contra alguém ou com alguém, pergunte-se: como você agiria se amasse essa pessoa? E aqui você tem a resposta. Essa é a gênese da melhor e mais correta ação. Ser ético é imitar o comportamento daquele que ama.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e mestre em filosofia. Mora em Portugal há 18 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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