O efeito danoso das celebridades

  • Margot Cardoso

Uma das perdições da modernidade é substituir a vida boa por uma vida a ser invejada

Não há um único dia em que não pensemos sobre a vida: a nossa e a dos outros. O que é importante? O que é precioso para mim? O que quero para a minha vida? Quando se conhece alguém, a primeira pergunta contempla  “o que você faz da vida”. Quando se quer construir laços, busca-se saber que tipo de vida o outro leva. Quando se deseja caminhar com o outro, a questão central é sobre a vida que querem seguir.

Uma das maiores conquistas humanas é saber com clareza a resposta para a pergunta “o que é precioso para mim? O caminho dessa descoberta exige muita disciplina e paciência. Não conhecemos bem o terreno e vamos tateando, meio no escuro. Há armadilhas, limitações; a visibilidade é pouca e os enganos são frequentes. Muitas vezes, confundimos o que é precioso para nós com o que é precioso para os outros.

Imaturo, eu?

Além das dificuldades do percurso, temos outro oponente poderoso: as nossas próprias limitações. E quais são elas? Bem. Somos filhos de uma modernidade romântica e jovem, por isso somos imaturos. Nossos cérebros são pouco confiáveis. Não compreendemos os outros e nem a nós mesmos. A todo momento somos surpreendidos pelo nosso emocional que insiste em andar em  descompasso com um racional pouco imaginativo. E para agravar, somos otimistas incuráveis com expectativas demasiadas altas.

É claro que eu não vou aqui dar receitas (até porque elas não existem K). Esse é um caminho pessoal, que deve ser construído à medida de cada um. Porém, o que cabe aqui apontar são alguns obstáculos que comprometem a percepção do que é importante para nós. O primeiro (e o maior) é que vivemos numa sociedade dominada pelo público em detrimento ao privado. A parte mais visível é o interesse pela vida das celebridades.

Além das revistas especializadas, quase todos os veículos de comunicação têm uma seção “celebridades” e cerca de 50% do conteúdo das redes sociais aborda a vida privada de famosos. Há um grande interesse sobre como eles vivem, desde o clássico “jogador de futebol” até a estranha categoria “ex-BBB”. Este último, um ex participante do Big Brother Brasil — o exemplo mais exacerbado da vida “privada pública”.

Aliás, o que não me escapa é a grande imaginação dos criadores de reality shows. Ora, vejamos: na impossibilidade de adentrar na intimidade (na cama mesmo) de celebridades, decidiram “fabricar” celebridades que antecipadamente aceitem alinhar no jogo. Uma ideia de gênio, sucesso em todos os cantos do planeta..

Eu não!

Por mais difícil que seja admitir, são neles que a maioria busca os modelos de viver. As façanhas de famosos, youtubers, influencers etc — seja lá qual for o motivo da fama —  perpassam por toda a sociedade. Todos os dias, nos diversos formatos, somos bombardeados por informações sobre pessoas “interessantíssimas” que têm valores “interessantíssimos” e estilos de vida “interessantíssimos”. Aderimos massivamente a elas porque aguçam em nós um traço demasiado humano: a vaidade.

Considerada um exemplo de orgulho — um dos sete pecados capitais — a vaidade permeia todos os espaços, espalha-se por todas as classes sociais, corrompe e confunde o nosso modelo de viver, inclusive das novas gerações. Um fenômeno que não escapou ao radar de pensadores contemporâneos, como o filósofo Renato Janine Ribeiro, que lamenta a falta de estudos nesse campo.

Mas, afinal, qual é o perigo da vaidade? O primeiro nível do problema é que temos necessidade da aprovação dos outros. Com essa premissa, permitimos que a medida do nosso valor seja determinado pelo olhar que os outros têm sobre nós. Claro, se eu quero que o outro me aprove, o caminho mais curto é me tornar naquilo que ele aprova. O que dá errado? O foco no que é importante para os outros, inviabiliza a percepção do que é importante para nós e, consequentemente, do que desejamos.

Dito de outro modo: a vaidade impede o olhar sobre nós mesmos. E passamos a buscar e a desejar o que é importante para os outros. Os exemplos estão por toda parte. Há os que vivem infelizes no “casamento perfeito”, segundo os seus amigos. Outros escondem a namorada/o namorado, constrangidos pelo julgamento do seu círculo social. Outros adoecem em “vidas de sonho”.

Não é comigo

Não notamos que é assim porque a vaidade está camuflada, atua nos bastidores da nossa mente. Compromete a estrutura de dentro para fora. O vaidoso, além de estar à deriva na vida inautêntica, está destinado à frustração porque o olhar alheio é extremamente instável — muda de um momento para outro, ao sabor da moda e do último Big Brother. Finalmente, chega o momento em que o vaidoso não sabe mais o que quer, o que é importante e perde-se de si mesmo.

Esse é um problema tão comum na sociedade hoje que há um estilo de psicoterapia focado apenas em ajudar o paciente a identificar o seu desejo. A razão é simples: aquilo que desejamos — que vem do conhecimento daquilo que somos — pode estar soterrado por camadas e camadas do olhar dos outros.

É claro que caímos nessa armadilha de bom grado. Afinal dá muito menos trabalho aderir a um modelo pronto do que construir um. De um lado temos o caminho árduo do autoconhecimento: descobrir o que precisamos, definir um estilo de vida e partir para a construção de um caminho que não se sabe bem se vai dar certo. Do outro lado temos um modelo pronto, ideal e que já foi testado por outro. É muito mais fácil terceirizar a incerta descoberta de quem somos em detrimento a um modelo de sucesso.

Vida maravilhosa

Se alguém tiver uma réstia de dúvida, a sociedade dá o primeiro empurrão. E aqui entra a nossa imaturidade. Costumamos fantasiar a vida para suavizá-la para as crianças. Os mercados fazem o mesmo conosco. Na esteia de Walt Disney é dito que podemos ser o que quisermos, o céu é o limite. Porém, o que ninguém conta sobre a vida de Mark Zuckerberg é que ela é uma exceção, não a regra.

Se você observar os livros de autoajuda há uma número enorme de títulos que promete a vida extraordinária de prosperidade e abundância. “Fique rico em um dia!”. E restante dos títulos? Bem, eles são sobre como lidar com a baixa autoestima e a frustração de uma vida ordinária. Isto é: daqueles que não conseguem ficar rico em um dia. Todas as demandas são atendidas.

Apesar de 90% da população mundial ter uma vida comum, há um culto enorme à vida extraordinária e um desprezo absoluto pela vida ordinária. Somos doutrinados de que a vida comum não é boa o suficiente, pelo contrário, é quase uma humilhação. Apesar de ser uma crença absurda, ela segue comprometendo o gosto pela vida boa e materialmente comum.

Alain de Botton afirma que esse culto funciona como se colocássemos uma cobra no jardim que impede que desfrutemos do nosso paraíso conquistado. Precisamos eliminar os ruídos e declarar que a vida comum é uma vida boa. Uma vida que merece ser louvada, que merece ser amada.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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