Vamos falar de masculinidades?

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  • FOTOGRAFIA: Matheus Ferrero | Unsplash

Perceber toda a complexidade que existe no universo masculino e os desafios que os homens enfrentam é um primeiro passo para uma possível mudança cultural.

Conviver com os homens nunca foi difícil para mim. Nasci em uma família grande, com muitos tios e primos, a maioria homens. Sendo assim, tive muitas referências masculinas na minha vida. Eu me espelhava no meu pai, meus tios e nos meus primos mais velhos. Brincávamos de luta, de guerra, jogávamos futebol e videogame. Tudo natural e muito divertido para mim.

Na adolescência, comecei a escutar bandas de rock, tocar violão, ir a festas, estádios de futebol e a churrascos onde a cerveja sempre estava presente. Fazia o que os outros meninos também faziam e me sentia pertencente ao grupo. 

Depois, entrei na faculdade de administração, comecei uma carreira no mundo corporativo e tudo sempre foi fácil para mim. O futebol sempre me abriu muitas portas. Fazia amigos passando horas conversando sobre futebol e acredito que saber conversar sobre isso facilitou minha promoção a cargos mais altos dentro da empresa. Em outras palavras, sempre tive facilidade em transitar nos ambientes tidos como masculinos. Meu desafio nunca foi com os homens, mas com as mulheres.

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Crédito:Jonathan Borba | Unsplash

Simultaneamente, à medida que minha vida ia seguindo seu curso natural, uma inquietação interna começava a tomar conta de mim. Seria isso a vida? Ou será que existia algo a mais para mim? Entretanto, as semanas foram ficando mais longas e os finais de semana mais curtos. Minha ansiedade crescia junto com o consumo de bebidas alcóolicas. Essa inquietação foi crescendo ao ponto de eu decidir que precisava mudar de vida.

Novos caminhos

Nesse meio tempo, me dei conta de que as respostas que eu buscava encontravam eco nos livros de autoconhecimento e espiritualidade. Aos poucos, comecei uma transição de vida. Passei a dedicar mais tempo aos meus estudos, à minha meditação e às práticas que acalmavam as inquietações da minha alma. Foram alguns anos nesse processo.

Dessa forma, junto com o autoconhecimento, vieram questionamentos sobre quem eu sou. E o como posso viver de forma mais coerente com os valores que eu acredito. Lentamente, deixou de fazer sentido passar tantas horas assistindo futebol e conversando sobre os resultados dos jogos e os títulos dos times. Havia tanta coisa que me interessava mais! Conforme fui me aprofundando nos estudos que impulsionavam a mudança do meu estilo de vida. Fui conhecendo pessoas que também trilhavam esse mesmo caminho. Sentia que estava descobrindo uma realidade paralela que eu não sabia que existia.

Masculinidades e o Sagrado feminino

Em determinado momento, me dei conta de que muito havia mudado. Nas minhas relações havia muito mais presenças femininas. As mulheres passaram a ser, em verdade, minhas  principais relações. Ter mais contato com elas me ajudou a compreender melhor suas realidades e me trouxe ainda mais reflexões. Várias de minhas amigas participavam de encontros de círculos de mulheres, onde elas conversavam e aprendiam sobre ensinamentos  denominados sagrados, o sagrado feminino.

Foi assim que começaram a nascer em mim, os primeiros questionamentos sobre o masculino. Foi quando me vi homem. E vi que não havia aprendido nada sobre ser homem. Notei que eu apenas cresci e me desenvolvi replicando o que via outros homens fazendo. Logo depois, essas reflexões se tornaram mais profundas quando, numa relação que tive, minha companheira à época me disse que eu tinha muitas atitudes machistas. Minha resposta imediata àqueles comentários eram de rejeição e indignação. Mas, na busca por me defender, precisei entender melhor de onde vinham aquelas “acusações”.

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Crédito: Jens Lindner | Unsplash

Quando me dei conta que sim, eram verdadeiras e que eu era sim, machista, precisei olhar para tudo que tinha aprendido até então.

Um chamado para reunir homens

Foi nesse contexto que senti o chamado para começar a me reunir com homens e conversar sobre tudo isso que eu vinha questionando. Numa conversa com um amigo que também vinha refletindo sobre essas questões, decidimos organizar um encontro de homens. Inspirado no que minhas amigas já vinham fazendo há um bom tempo.

Reunir-me com outros homens e conversar sobre temáticas relacionadas ao universo masculino me abriu uma caixa enorme. Eu não tinha noção do quanto minha relação com outros homens era tóxica. E de quantos comportamentos eu precisava rever. Ao mesmo tempo, ter contato com histórias de homens e escutar suas angústias e anseios acalmava meu coração. E também me apresentava uma nova forma de homens se relacionarem. Conversas profundas, vulneráveis, escuta atenta e sem bullying ou julgamento criaram novas sinapses no meu cérebro. Fui compreendendo o poder dessas novas referências.

A partir disso, nasceu o Brotherhood, um movimento para trazer consciência no universo masculino e provocar uma mudança na cultura de masculinidades.

Uma nova cultura de masculinidades

Dessa forma, acredito que é fundamental uma mudança cultural nas relações que os homens mantêm entre si e com as demais pessoas. Precisamos deixar  de considerar normais atos danosos e ampliarmos o leque de possibilidades benéficas que podemos experimentar. Primeiramente, porque falar de masculinidades é abrir espaço para compreender os principais problemas que existem na nossa sociedade. E, finalmente, por meio da compreensão do comportamento masculino tóxico, podemos entender melhor por que é que existe tanta desigualdade no mundo e tanta violência.

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Crédito: Vinicius Amnx-amano | Unsplash

Por fim, o comportamento dos homens de maneira geral alimenta a misoginia, o racismo, a homofobia, a competição e a destruição da natureza. Uma vez que os homens são a imensa maioria das vítimas de homicídio e suicídio. Os que mais sofrem de alcoolismo e depressão. E os que mais se encontram em presídios e em situação de rua. 

Por outro lado, sabemos que as mulheres são as que mais sofrem com esta cultura instalada. Afinal, sofrem de violência física, verbal e emocional causada por eles. E também têm o acesso limitado a oportunidades e espaços de poder. No entanto, também temos consciência de que os homens sofrem e que todas as pessoas — até mesmo todos os seres vivos — são influenciadas por uma cultura que não faz bem a ninguém.

Brotherhood

Assim, ao longo dos últimos quatro anos de Brotherhood, escutamos muitas histórias dos mais de mil homens que já passaram pelos nossos encontros. E também de algumas centenas de mulheres. Este texto inaugura um espaço aqui na Vida Simples onde vamos explorar esse misterioso e silencioso universo masculino. Vamos compartilhar aqui textos e histórias do que os homens sentem, de como enxergam o mundo e do que podemos fazer para mudar esse contexto.

Acima de tudo, pretendemos fazer isso com uma escrita honesta e vulnerável que apresente novas referências de masculinidades, para que possamos construir uma nova sociedade.

Vamos caminhando…


GUSTAVO TANAKA, escritor e fundador do Brotherhood. Escreve mensalmente numa coluna da Revista Vida Simples e agora vai compartilhar histórias de masculinidade junto com os amigos de caminhada nesses estudos sobre masculinidades.  


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