Estendeu-nos a mão no metropolitano

  • Didier Ferreira
  • FOTOGRAFIA: Jorg Karg | Unsplash

Ignoramos a pessoa que nos pede esmola sem sequer olharmos para ela. São incômodas. Melhor seria não existirem. Mas o sem-abrigo continua a ser pessoa, talvez a rir-se por dentro.

O pedinte aproxima-se.

— Uma moedinha, por favor, p’ra comprar uma sopa.

Ainda está longe. Mas a voz já incomoda, o cheiro repulsa, a existência confronta.

— Pai, cheira mal.

Assim, em silêncio, penso numa explicação para o Gabriel. Não digas isso, me ocorre responder. No entanto, travo as palavras na ponta da língua. Repenso. Não. Por que não encarar a verdade e assumir perante o adolescente que cheira mal, que aquela pessoa fede? Por que esconder a realidade assim escancarada à criança, mentindo-lhe sobre as razões de haver no mundo quem não tenha onde se lavar, ou condições condignas para o fazer? Hesito no que dizer. Dessa forma, questiono a mim mesmo a razão de não me virar para a criança e a confrontar com a verdade. Pois é, meu querido, olha bem para esse homem, vês como parece mal? Como cheira horrivelmente mal? Pois bem, isso é um ser humano.

Mas eu, que me tenho como humanista, receio provocar com tais palavras a repulsa do meu filho sobre outro ser humano tão digno como nós, embora em circunstâncias difíceis. Por isso respondo à apreciação do Gabriel com expressões bondosas. Assim, deturpo a realidade dura como ela é, suavizando-a. Digo qualquer coisa como não ligues, deixa estar, já passa. Palavras vãs.

Há pessoas que são uma afronta

O metropolitano é insensível ao que nele vai dentro. Ainda que incomode, ninguém fala. Poucos se atrevem a alterar a expressão dos seus rostos, menos ainda a encarar de frente o obstáculo. A multidão indiferente no interior das carruagens do metrô não quer saber de quem chora, de quem ri, porque uns e outros incomodam a rotina estanque da semana. É a nossa vida na grande metrópole.  Penso nisto, visualizando o indigente dentro da carruagem. Não consegue mais do que desprezo. Então, uns viram a cara. Outros baixam-na propositadamente. Todos fingem não o ver. Porquê, se a mão estendida denuncia vida — uma existência suja, é certo, mas ainda assim vida. O mendigo parece uma afronta aos demais, que se lavam rotineiramente e ganham dinheiro honesto.

Ele pede, com secura,

— uma moedinha, por favor, p’ra comprar uma sopa.

Contudo, pergunta como se já soubesse a resposta. Persiste, de mão estendida, desacreditado. E as pessoas às quais ainda não chegou padecem antecipadamente com o cheiro e a certeza de que também a elas caberá o desconforto de fingir não ver quem se lhes põe bem de frente. É um atrevido, este pedinte, ouço de alguém ao meu lado. Assim, a idosa olha para mim, convicta da minha concordância, e acrescenta mais palavras ao ouvido do homem ao lado. Com o ruído da locomotiva nos carris, ouvi apenas poderia ao menos tomar um banho e mudar a roupa do corpo.

Crédito: Daniel Vandenberg | Unsplash

Toda a gente tem um nome

— Pai?

O simples questionamento do Gabriel faz-me perceber que não é só o cheiro que o incomoda. É o próprio pedinte. Homem alto, muito curvado. Cara enegrecida, macilenta. Cabeleira desgrenhada, preta. Roupa escura, encardida, nojenta. Alguns dedos dos pés de fora do sapato velho, roto.

O Gabriel estremece de medo quando o estranho para diante de nós e, para meu espanto, lhe estende a mão. O desgraçado pede uma moedinha a esta criança de dez anos de idade que se estreita ao meu braço. De seguida, dá dois passos para o lado e repete o gesto e o pedido, agora a mim. Continuo com a cabeça erguida. Olho-o firme nos olhos. Atrai-me uma luz estranha neles refletida — será isso a vida? Descaio o olhar para a mão escura de sujidade, as unhas nojentas, a trepidação.

Pergunto-lhe o nome. André. Explico-lhe que não tenho como ajudar, nem moeda nem comida comigo, ficaria para uma próxima oportunidade. Então o André sorri com dentes estragados. 

— Obrigado por me ter respondido — diz alto.

Quem nega ajuda merece ser ajudada?

Sentada diante de mim, por detrás do André, uma mulher vestida de calça preta e camisa branca interpela-o. Tem com ela alguns sacos de plástico pousados no chão, entre as pernas. Separa um deles. Estende-o com a mão direita ao André, dizendo no seu português do Brasil,

— Moço, toma aqui estes pães que eu trouxe do trabalho.

Na rotação do corpo, o André liberta um cheiro nauseabundo. Os passageiros na proximidade reagem imediatamente cobrindo as narinas com os dedos, a mão, alguma peça de roupa ou outros objetos. Tomei consciência dos movimentos de vómito iminente do Gabriel, que comia uma maçã quando o André entrou na carruagem. A fruta mudava a cor. Amarelava. Estragava. E o André respondia à brasileira, numa voz calma e indiferente:

— Minha senhora, o pão eu já tenho em casa, precisava mesmo era de dinheiro p’ra comprar uma sopa para acompanhar.

Sorrio. A mulher tem o rosto pálido, perplexo. Neste momento questiono-me se o André não merecia voltar a ser o mendigo, o pedinte, o indigente. Só que a brutalidade da sua resposta me fez o admirar. Tivesse eu a mesma serenidade e teria dito ao Gabriel, é alguém que se aproveita de nós para saciar o seu vício e não tem tempo para cuidar de si.

O Gabriel perdeu o apetite.


DIDIER FERREIRA  é escritor, professor de Língua e Literatura Portuguesa, doutorando em Estudos de Literatura na Universidade Nova de Lisboa (Portugal), fundador do movimento Jovens Poetas Vadios, autor de O Diário Poético de um Empregado de Balcão (Esfera do Caos) e neste seu dia de estreia, escreve convicto de que dias melhores virão. 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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