Um oceano de possibilidades, onde um Atlântico pode ser pacífico.

  • Beto Pandiani
  • FOTOGRAFIA: Crédito: Markos Mant | Unsplash

A nossa tendência é sempre procurarmos proteção, como se um barco procurasse ficar atracado para sempre. Porém, a natureza dele é navegar, assim como a nossa é viver. 

Entre Capetown, e Ilhabela existe um oceano de possibilidades. Durante os nossos 37 dias no Atlântico Sul, o Igor Bely, e eu nos relacionamos com um mar temperamental, pacífico, chuvoso, azul, cinza, e com todas as cores possíveis. O mar de fora definia como ficava o mar de dentro. O mar de dentro sempre foi um convite para entender como eu posso aprofundar o meu entendimento sobre a longa viagem que todos nós fazemos. As viagens que fazemos em nosso planeta nos trazem inspiração para observarmos o nosso comportamento expostos aos elementos. A natureza não é uma ameaça, e ficar exposto não é se arriscar.

Por ironia, nesta viagem pelo Atlântico os dias mais difíceis foram os dias de calmaria. A calmaria virou uma tempestade dentro de mim. A nossa tendência é sempre procurarmos proteção, como se um barco procurasse ficar atracado para sempre. Porém, a natureza dele é navegar, assim como a nossa é viver.  Nos expormos é um ato de confiança no Divino, pois são nestes momentos que expressamos o nosso melhor.

Porto de abrigo

O cais é a utopia de um barco? Não creio. Procurar um abrigo permanente, ou entender que precisamos de proteção revela a nossa falta de confiança. A segurança é a contradição da vida, pois toda a construção se baseia na confiança.

Logo que comecei a realizar minhas viagens percebi que não poderia viver o meu sonho se não confiasse em mim, no plano, e em meus companheiros. O sonho não seria a realização que um coração visualiza indicando que o caminho será permeado pelo ideal, o entusiasmo e o propósito? Se, de fato, é isso o que justifica uma pessoa marcar um encontro com a frustração, e nunca ter dado uma chance para a prosperidade?

oceano

Crédito: Evan Smogor | Unsplash

Viver uma vida inteira evitando o fluxo de abundância que está sendo oferecido pelo destino é como viver em um ninho de espinhos. Qualquer movimento que se faça gerará muita dor.
Mas este é o preço para quem não confia em si. Sempre me questiono sobre esta decisão de optar pelo medo.

Zona de conforto

Dizem que precisamos de uma crise para sairmos da zona de conforto, mas não vejo assim. O correto seria, zona de desconforto, pois quando deixei de seguir o caminho da prosperidade, convivi com a angústia de saber que estava resistindo. Isso não pode ser confortável. Noites e noites de lixo mental me deixaram a deriva.

Olhando a vida por este prisma, nada como uma vida na zona de desconforto, onde tudo é incerto. Os planos mudam todo o tempo nos obrigando a sermos flexíveis, humildes e perseverantes. A vida de verdade acontece dentro deste jogo de poucas certezas, e muitas variáveis.

Mas o que me motiva a ter confiança na incerteza? Como um viajante eu sei que é importante chegar, mas também sei que carrego dentro de mim um antagonismo ao sentir que esta jornada não tem fim. Sendo assim tenho que considerar que um viajante tem que viver o presente em sua plenitude e entender que o futuro incerto é o estímulo para ele procurar a confiança, a fé e a esperança dentro da sua jornada interna.


BETO PANDIANI  é velejador, palestrante e escritor. Velejou da Antártica à Groenlândia, cruzou dois oceanos (Pacífico e Atlântico), sempre em pequenos veleiros sem cabine. Tem sete livros publicados.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

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