“Um dia, seremos também velhos”, um conto de Didier Ferreira

  • Didier Ferreira
  • FOTOGRAFIA: Unsplash

Sempre que lemos seus contos, pensamos: “parece tão real”. Revela-nos Didier Ferreira que a situação, em si, nunca existiu. Entretanto, esse conto foi resultado de  “pequenas cenas que vejo no dia dia nos transportes públicos, mas também nos supermercados”, diz. A verossimilhança de suas histórias acontece porque o autor português pratica sempre “uma mistura entre o real e o imaginário”.


 

 

A mulher entra na carruagem. Olha para este lado. Olha para o outro. Dá alguns passos em frente porque a confusão à entrada assim o obriga. Parece hesitante na entrada. Dá mais alguns passos. Segura o varão diante da porta. Encolhe-se. Deixa-se estar parada, em pé. O comboio avança no seu percurso.

Mantenho os meus olhos postos na mulher. Fraca. Pequenina. Sumida. Os cabelos brancos curtinhos não escondem já uma cabeça brilhante. E a pele enrugada do rosto indicia oitenta ou mais anos. As mãos tremem ligeiramente. Faltam-lhe forças de Hércules. Falta-lhe um corpo robusto para encarar em pé uma viagem que pondero se curta, se longa. A mulher parece indiferente aos que a rodeiam. A carruagem vai cheia.

Penso-vos velhos

— Próxima paragem, Barcarena.

“Sente-se aqui”, ninguém o disse. Por isso a velha aguenta-se em pé. E assim, pesando-lhe o corpo sobre as pernas e a sacola sobre o ombro, faz a sua viagem, serena, como se a cena que me incomoda nada lhe dissesse.

“Alguém pode dar lugar a esta senhora?”, apetece-me dizer. Mas, pondero. Questiono a minha própria autoridade enquanto passageiro indignado com a indiferença dos outros em face da pessoa idosa. Todos compraram um bilhete ou passe mensal. Aqui dentro, todos valemos o mesmo. Então, por que razão pedirei àquele homem para se erguer do lugar que ocupa?

Passo os olhos pelos passageiros e a verdade é que vejo contribuintes usufruindo do seu direito ao descanso. Estamos em hora de ponta. Adivinho-lhes o cansaço do dia. A exaustão. A vontade de simplesmente chegar em casa o mais rapidamente possível. E, cada um assim, no seu egoísmo justificado, vão-se quebrando algumas boas normas da ética.

Sinto que todos os passageiros que ignoram a mulher idosa ignoram-se a si mesmos, velhos, apelando silenciosamente ao bom senso.

Pequenas cedências

— Próxima paragem, Monte Abraão.

Aproximamo-nos da terceira estação. Observo como a velha se prepara para mais uma investida conforme o comboio vai diminuindo o seu ritmo na aproximação ao apeadeiro. Vagam dois lugares perto da porta de lá. A mulher aperta o varão com a sua mãe trémula, como que se preparando para o largar num movimento rápido. Vaga mais um lugar, agora sensivelmente a meio do corredor. Ninguém os ocupa. Porém, a carruagem cheia não lhe permite chegar aos assentos disponíveis. Aguarda, sempre com o mesmo ar sereno nos olhos e no rosto. A boca inamovível. O corpo tenso. Parou? O comboio para e começa imediatamente a azáfama de saídas e entradas, corpos entrechocando-se, gente apressada que ocupa rapidamente os lugares livres.

A velha continua em pé.

Empatia

E agora a mulher grávida. Entrou. Parou junto da primeira fila de assentos onde do lado direito há uma placa azul sobre a janela de vidro dizendo reservado a acompanhantes de crianças de colo, deficientes e grávidas. As quatro pessoas sentadas nesses lugares não a veem. Ou fingem. Situação que me indigna de tal forma que saio de onde estou, aproximo-me, quero dizer “não veem que a senhora está grávida?”, mas sou obstruído pela velha que se põe no meu caminho, se me antecipa, tem a mão trémula pousada sobre o braço esquerdo da jovem grávida, diz, com grande serenidade,

— alguém pode ceder lugar a esta menina?

Uma, duas, três. As quatro pessoas levantam-se subitamente. Dos assentos do outro lado levanta-se outro tanto. Estranho. Nos assentos adiante, mais um, dois passageiros disponibilizam-se para dar o seu lugar. E a mulher velha, sorrindo para a mulher grávida, vê-a tomar assento sem agradecer a esta que, agora em pé, regressa ao telemóvel, continuando a sua partida de cartas. A futura mãe diz

— obrigada

à idosa, que se deixa ficar onde está. Eu, tomando-lhe a lição, inspiro, expiro, copio com a melhor gentileza na voz que me é possível neste momento,

— alguém pode ceder lugar a esta senhora?

 

Continue com Didier: “Não és bem vegetariano”


Alguns sinônimos para ampliar a sua compreensão do português de Portugal:

carruagem: vagão

varão: apoio de mão

comboio: trem

hora de ponta: hora do rush, horário de pico

apeadeiro: parada da estação

azáfama: confusão, aglomeração

telemóvel: smartphone, celular

 

 

Leia todos os textos da coluna de Didier Ferreira em Vida Simples


DIDIER FERREIRA (@didier.ferreira) é escritor, professor de Língua e Literatura Portuguesa, doutorando em Estudos de Literatura na Universidade Nova de Lisboa (Portugal), fundador do movimento Jovens Poetas Vadios e autor de Nada Faz Sentido (Associação Poetas Almadenses) e O Diário Poético de um Empregado de Balcão (Esfera do Caos).

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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