Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson

  • Suzana Vidigal

O filme conta uma história de amor com pano de fundo da moda, numa maison de alta costura londrina nos anos 1950

 

O que vestimos conta muito sobre quem somos e o que consumimos. Ou as duas coisas juntas. Nesses tempos de reclusão, em que se vestir para fora tornou-se algo descabido, pensar como nos vestimos por dentro parece fazer mais sentido. Não cabe nos perguntarmos com que roupa vamos, mas sim com que roupa ficamos. Pensar na moda no seu sentido mais amplo, remete à sua essência como algo que deveria nos vestir por fora e por dentro, agregar ao que somos, nos representar.

Os especialistas em moda que me corrijam. Mas cobrir o corpo tinha uma função utilitária no começo dos tempos – proteger-se do frio ou do calor, evitar machucar-se, oferecer conforto. Uma decisão calcada única e exclusivamente na função sobrevivência, era um complemento à nossa frágil existência diante das intempéries da vida.

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Com o tempo, aliou-se o útil ao agradável, as peles, os turbantes, os colares, os vestidos, as bengalas e cartolas foram resignificados, dando ao nosso figurino o status de personagem – e, muitas vezes, de protagonista. Além disso, há a informação óbvia de qualidade da modelagem, do tecido, da originalidade, da beleza (o que é relativo), uma simples peça de roupa carrega subentendidas as noções de estilo, grife, importância social, condição financeira. E ainda, tem a capacidade de rotular seu usuário nos respectivos padrões de cada época, dizendo ser elegante ou brega, chique ou despojado, original ou cópia. Tudo criação da mente humana mergulhada nas relações sociais, que precisam, desesperadamente, de balizas para determinar poder, hierarquia, posse e sobrevivência.

Roupas e a proteção de sentimentos

Tudo isso pra dizer que, em tempos de quarentena, surge uma outra perspectiva de quebra desse ciclo vicioso. Com que roupa ficamos – não só dentro de casa, mas dentro de nós? Nos cobrimos de uma roupa que realmente nos protege e nos aconchega, que ressalta nossas reais qualidades, que faz sentido? Internamente funciona da mesma maneira: cobrimos nossos sentimentos, vontades, habilidades com panos que atendem às expectativas da sociedade ou estamos realmente “consumindo” aquilo que tem a nossa cara?

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O filme Trama Fantasma, do britânico Paul Thomas Anderson, conta uma história de amor com pano de fundo da moda, numa maison de alta costura londrina nos anos 1950. Vaidoso e sedutor, o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) detém, na ponta da agulha, o objeto de desejo da alta sociedade. Então, sente-se protegido pela couraça da elegância e do glamour, que abafa suas inseguranças e sua imensa solidão. Até que a jovem e espontânea Alma (Vicky Krieps) surge transbordando seus sentimentos, com um figurino simples que deixa transparecer quem realmente é. Com naturalidade de quem olha a vida fora dos rótulos sociais, Alma desnuda Sir Wookcock com palavras, gestos e olhares, revelando o seu lado mais vulnerável por trás do esconderijo do glamour.

Uma linda e instigante história de amor, estampada numa interessante reflexão sobre a moda – a de dentro e a de fora.

Onde assistir Trama Fantasma

Amazon Prime, Google Play, iTunes, Looke

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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