A tecnologia nos conecta, mas estamos cada vez mais isolados

  • Diogo Rodriguez

Faça uma pesquisa breve na internet a respeito da depressão. Minha aposta é que você irá encontrar milhares de materiais a respeito do transtorno, a grande maioria ruim, alguns bons. Temos aí um problema, é óbvio.

Mas, se você tiver tempo e paciência de consultar as leituras de qualidade, encontrará algumas explicações típicas, como a que as causas da doença estão em certos “defeitos” que o cérebro humano tem.

De acordo com o jornalista Johann Hari, essa explicação pode ser resumida assim: a depressão é causada por por um problema no funcionamento do cérebro, causada por falta de serotonina ou outro problema no “hardware” mental; esse transtorno pode ser resolvido com remédios, que consertam a química do cérebro. Simples, não?

Algo não parecia certo para o autor inglês. Por que, ele se pergunta no livro Lost Connections (a ser lançado no Brasil), há tanta gente se sentindo deprimida e ansiosa? E por que ele, apesar de se tratar com antidepressivos há mais de uma década, não conseguia se desvencilhar do problema? De tais dúvidas, Hari se perguntou se não havia algo mais que pudesse estar causando ansiedade e depressão em todas essas pessoas.

Depressão é limitada?

A verdade é que, embora correta até um certo ponto, a explicação mais aceita a respeito da depressão e da ansiedade é limitada. Hari não sugere que remédios sejam enganação, mas eles lidam apenas com uma parte do problema. “Depressão e ansiedade, eu iria descobrir, são apenas as pontas mais afiadas de uma lança que foi atirada em quase todo mundo em nossa cultura”, diz ele.

Admito que quando comecei a ler Lost Connections fiquei um pouco perplexo com a mensagem principal do livro. “A causa primária do aumento da depressão e da ansiedade não está em nossas cabeças. Está, eu descobri, principalmente no mundo, e na maneira como vivemos. Descobri que existem pelo menos nove causas provadas para depressão e ansiedade (…), e muitas delas estão aumentando –fazendo com que nos sintamos radicalmente pior.”

O que ele propõe é uma maneira de enxergar esses transtornos da mente, uma expansão de uma explicação focada apenas nos aspectos biológicos e fisiológicos para uma que leve em conta coisas como: conexões sociais, se temos um trabalho significativo, se somos guiados por valores, se temos uma perspectiva de futuro.

Como o próprio título do livro sugere, o foco está nas conexões. Não pense que Hari está apenas inventando uma maneira de enquadrar esse problema. Ele se baseia em ciência séria e feita há décadas para mostrar uma faceta que não conhecíamos. Um das principais fontes do livro é o Professor Irving Kirsch, da escola de medicina da Universidade de Harvard.

Pesquisas com antidepressivos

Nas conversas com Kirsch, Hari aprendeu que as empresas farmacêuticas têm sido seletivas ao publicar resultados de pesquisas feitas com antidepressivos. Com David Healy, britânico, obteve a informação de que nem mesmo a história que ouvimos sobre a depressão ser causada por níveis baixos de serotonina no cérebro é consensual entre os cientistas. Mais do que isso, Hari diz, “a ideia de que nos sentimos horríveis por conta de um ‘desequilíbrio químico’ foi construída numa série de enganos e erros”.

Existe também uma questão pouco discutida na imprensa e quase nunca vista nos manuais, cartilhas e materiais informativos. Não há um consenso científico quando se trata de dizer que antidepressivos funcionam de fato. Uma parte concorda com Kirsch; outra prefere os argumentos de outro pesquisador, chamado Peter Kramer, que defende as medicações (embora recomende seu uso por um período que vai de seis a vinte semanas).

Johann Hari não está tentando dizer que antidepressivos não devem ser usados. Sabe-se que para uma minoria de pessoas, as drogas têm um efeito, embora ainda não se saiba exatamente como isso funciona. É importante, todavia, sabermos que há um debate em andamento no mundo científico e que outras explicações estão sendo estudadas.

Que explicações são essas?, você vai me perguntar. Já enumerei algumas neste texto. O que elas têm em comum, o jornalista explica, é o olhar para a vida do paciente, não apenas para seus mecanismos biológicos e fisiológicos. Diversas pesquisas mostram que ansiedade e depressão são respostas a situações de estresse, como pobreza, falta de perspectiva, violência doméstica. Um estudo feito em Londres mostrou que o ambiente em que uma pessoa vive pode ter tanta influência na diminuição da depressão quanto o tratamento das causas físicas.

O debate de Hari sobre o tema

Minha ideia não é fazer um resumo do livro aqui, mas compartilhar o fascinante e provocativo debate que Johann Hari traz à tona. A essência de Lost Connections é mostrar ao mundo que não apenas há algo errado com as cabeças das pessoas deprimidas e ansiosas. Vivemos em uma cultura que está isolando os seres humanos, diminuindo seu contato social, o contato com a natureza, fazendo-os não ver o resultado de seus trabalhos, deixando-os mais individualistas, focados em recompensas instantâneas.

O livro me fez pensar na minha própria depressão, claro, e como ela começou a dar seus sinais. Foi justamente quando me tornei freelancer, depois de me demitir de um emprego aterrorizante. Trabalhando sozinho, pouco vejo pessoas no meu dia a dia se não fizer esforço. A grande maioria dos contatos feitos com clientes é por e-mail ou WhatsApp, meios frios.

Mais conexão e tecnologia, mais isolamento

Em casa e sozinho, passei a ficar mais nas redes sociais, gastando tempo em conexões mais fracas que as reais. Sendo autônomo, não tenho certeza de quanto dinheiro vou ganhar ou se terei o suficiente para pagar o aluguel no fim do mês. O futuro se torna incerto. Tenho certeza de que esse cenário contribuiu muito para que minha ansiedade ficasse fora do controle e a depressão aparecesse.

Concorde ou não com ele, o livro levanta uma discussão essencial. Vejo que cada vez mais pessoas, de diversas áreas profissionais, se tornam autônomas. Muitas acabam montando seus escritórios em casa. Outras tantas se voltam a aplicativos para garantir renda no fim do mês. Não tenho fobia a tecnologia, mas é inegável que as novas ferramentas estão desequilibrando a balança para o lado da desconexão, do isolamento, do individualismo. Por isso, prevejo um aumento contínuo no número de pessoas com depressão e ansiedade.

O que podemos fazer para minimizar esses efeitos negativos? Como reconectar ao vivo uma sociedade hiperconectada no mundo virtual? São questões essenciais de saúde pública para as próximas décadas.

Assista à palestra de Johann Hari no TED:

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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