Sonhos devem ser perseguidos, mesmo sendo quase impossíveis

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: Jason Hogan (Unsplash)

Você tem ou já teve alguns daqueles sonhos que parecem inatingíveis? Por exemplo, pensou que um dia poderia ser jogador de futebol, escritor, bailarina, cantor, atriz, piloto de fórmula 1? E aí, realizou esses devaneios, chegou perto, ou nem tentou? Se não conseguiu, o que faltou? Não teve oportunidade, competência, obstinação, sorte?

Há certas aspirações que chegam a bater na trave. Por um ou outro detalhe os anseios não se concretizam. Em alguns casos, até chegamos a pisar no palco, mas descobrimos que embora tenhamos matado a vontade, aquele espaço não era bem a nossa praia. Às vezes, descobrimos sozinhos, às vezes descobrem por nós. Sempre fui meio obstinado na realização das minhas vontades. Não fui lá um jogador de futebol brilhante, mas consegui ser campeão amador pelo melhor time da época, lá em Araraquara, minha cidade natal, e onde vivi por mais de vinte anos, o Estrela Futebol Clube. Tenho a faixa guardada até hoje.

Há pouco tempo em uma visita que fiz a essa mesma cidade, fui até o quartel do Tiro de Guerra. Pedi permissão para entrar e ver a sala de troféus. Para minha alegria, depois de 50 anos, ainda estava lá o troféu que ganhei como campeão de salto triplo, defendendo as cores do exército. Compensava as minhas enormes limitações com muito exercício e treinamento. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair das pistas de atletismo.

sonhos devem ser perseguidos

Anton Maksimov (Unsplash)

Também me determinei a ser um bom vendedor, e guardo com orgulho as medalhas que conquistei como campeão de vendas. Quando todos os vendedores paravam, eu insistia por mais uma hora com algumas visitas extras. Elas faziam toda a diferença. Sempre desejei ter um livro nas listas dos mais vendidos. Neste caso, como o resultado não dependia tanto de mim, tive de contar com a ajuda dos anjos, que foram benevolentes demais comigo. Consegui pôr seis das minhas obras nesta seleta relação.

Olhando os limites

Algumas aspirações foram abortadas por falta absoluta de competência. Embora gostasse muito de jogar basquete, a minha estatura mediana não permitia nem que eu tentasse. Da mesma forma não tinha perfil para o voleibol, natação e outros esportes. Houve, entretanto, um tento que marquei, mas com certo gosto de derrota. As minhas aptidões musicais são para lá de sofríveis. Desafinado para cantar e sem talento para tocar nenhum instrumento. Mas quem disse que mesmo sem competência eu não cheguei a tentar?

Havia em Araraquara uma banda musical de extraordinária qualidade – a banda do Colégio São Bento. Essa turma ganhava quase todas as competições das quais participava. Um garoto que fizesse parte desse grupo era admirado, desejado pelas meninas e convidado para participar de praticamente todas as festinhas. Nem preciso dizer que esse era o sonho de consumo de quase todos os meninos. Para tocar ali era preciso ser craque. Eu não era, mas a vontade de pertencer a esse time era tão grande que não medi esforços para conseguir um lugar ao sol.

Cena musical

Em uma noite, quando eles estavam ensaiando, fui falar com o maestro Ariosto, responsável pela banda. Falei da minha vontade de tocar algum instrumento. Ele me perguntou o que sabia tocar. Diante do meu silêncio, o maestro foi muito simpático comigo e tentou me ajudar dizendo: não precisa ser nada excepcional, basta ter conhecimentos básicos, pois poderá aprimorar suas habilidades nos nossos ensaios. Pois é, mas eu não tocava pífaro, nem flauta escocesa, nem pistom. Na verdade, não tocava nenhum instrumento. Ariosto achou engraçada aquela minha iniciativa. Como alguém pode querer tocar nesta banda se não sabe nem pegar num instrumento musical?!

Depois de coçar a cabeça e rir do que estava acontecendo, me disse o seguinte: vou ajudá-lo, menino, você vai tocar pratos. É fácil de aprender, e não exige nenhuma habilidade musical muito profunda. Faz o seguinte, o Aristides é o nosso melhor tocador de pratos. Fique ao lado dele nos ensaios e procure imitá-lo. Em pouco tempo você vai aprender. Topei o desafio, e até me belisquei para verificar se era mesmo verdade. Eu havia conseguido entrar para a banda. Os meus amigos, que me conheciam bem, ficaram estarrecidos. Mas como você está na banda se não sabe tocar nem sino de igreja? Eu respondia brincando que possuía dotes secretos que eles nem imaginavam.

Treino, sempre

Os ensaios começaram, e não me pareceu ser tão simples assim. Uma semana depois e eu ainda apanhava muito daqueles instrumentos. Ficava observando atentamente o Aristides para ver como ele fazia os movimentos. Assim que ele levantava o braço, eu o acompanhava. Falhava vez ou outra, mas estava me animando. Senti que devagarinho iria pegar o jeito.

sonhos devem ser perseguidosSó que dei azar. Menos de dez dias depois de iniciar os ensaios, a banda foi convidada a tocar na inauguração de um importante viaduto. A cidade em peso estava presente naquela solenidade. Eu não queria fazer feio, por isso fiquei ainda mais atento aos movimentos do Aristides. Eu prestava atenção e acompanhava a música, mas a minha preocupação em não errar era tão grande que os meus braços subiam e desciam como se fossem parte do corpo do meu companheiro.

No momento em que estávamos em frente ao palanque montado para as autoridades, ele levantou o braço, e, como se fosse uma sombra, acompanhei o seu movimento. Só que para a minha surpresa, e desespero, o Aristides levantara o braço apenas para coçar a cabeça. O silêncio foi quebrado pelo barulho ensurdecedor dos meus pratos. Em seguida só se ouvia a gargalhada dos meus colegas de banda, das autoridades e dos convidados. Entretanto, houve uma pessoa que não achou graça: o maestro Ariosto. E foi assim que aquele meu sonho tão acalentado de tocar na banda do Colégio São Bento de Araraquara se desvaneceu.

Acredito que por mais impossível que pareça ser a realização de um sonho, sempre devemos tentar. Como disse Mário Quintana em “Das utopias”:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Nós não temos consciência do que somos capazes de fazer quando nos empenhamos com dedicação na busca de uma meta. Temos competências e habilidades que só esperam a oportunidade certa para aflorar. Vale a pena dar essa chance a nós mesmos. Se não der certo, pelo menos ficaremos felizes por termos tentado.


Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente éOs Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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