Somos reféns ou criadores do futuro?

  • Tiago Belotte
  • FOTOGRAFIA: alphaspirit | iStock

Deveríamos enxergar o futuro como o lugar de possibilidades; imaginar, criar e inovar nos conduzem em busca de novas respostas aos nossos desejos

 

Outro dia eu estava estudando um pouco de história para uma das minhas aulas. Sim, apesar de falar sobre criatividade, tendências e inovação, gasto uma parte do meu tempo olhando para o passado. Aprendi que dessa forma é mais fácil compreender o contexto, enxergar padrões e reconhecer que mesmo falando tanto em disrupção, a vida é continuidade. Foi então, nesse momento de estudo, que comecei a investigar como as pessoas no passado encaravam o futuro.

Três mil anos antes de Cristo, os reis da antiga Mesopotâmia tentavam prever o futuro. No entanto, eles faziam isso utilizando fígado de ovelhas e a posição das estrelas. Não me pergunte como, minha pesquisa tinha um limite. Posteriormente e na Grécia, especificamente em Delfos, um oráculo atraiu personalidades de todos os cantos, em busca de conselhos para tomar decisões melhores em relação ao futuro. 

Então vem Jesus, o calendário vira, e 500 anos depois da passagem do Cristo, as religiões ocidentais fazem as pessoas concentrarem suas atenções na vida após a morte. Porque durante a vida, elas passariam a lidar apenas com um tipo de futuro: o inevitável. Se seu avô era camponês e seu pai também, não havia chance de você se tornar outra coisa. Camponês você também seria. Bem-vindo à Idade Média.

Vem o Renascimento, e com ele ressurge a ideia de que os seres humanos tem controle sobre a própria vida e sobre seu destino. Finalmente, no século dezoito, o Iluminismo reformula o conceito de futuro, como algo aberto que pode ser moldado pra melhor. Em uma palavra, o futuro poderia significar progresso.

Depois dessa viagem ao passado, você deve estar se perguntando qual é o ponto. A questão é que apesar de já termos vivido tudo isso, ainda nos comportamos como reféns de uma única forma de futuro: o provável. Muito conhecido no mundo corporativo como “business as usual”. 

O que significa apenas seguir adiante, executando e funcionando como de costume. Assim, tudo se torna mais previsível, pois o futuro é uma simples extensão do hoje. Entretanto, e se não for isso que queremos? Se a realidade do presente é exatamente o oposto do que queremos para amanhã? As respostas e o jeito de fazer do passado não nos levarão a um cenário diferente.

Então, ao invés de olharmos para o futuro como uma linha, deveríamos enxergá-lo como um cone, com sua parte mais estreita ligada ao agora. Assim, para além do futuro provável, vamos encontrar o plausível e o possível, ou seja, outros cenários que também tem algum potencial de se tornarem realidade. 

E, diante de todos esses cenários, temos o futuro que mais importa: o desejável. Qual realidade nos interessa, como indivíduos, como sociedade e como planeta? Imaginar, criar e inovar são ações que deveriam sempre buscar por essa resposta. Elas deveriam ser investimentos no futuro que você quer criar. Por que não?

 

Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna quinzenalmente, aos sábados.

 


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