Solidão: abrace a aventura de ser sozinho   

  • Margot Cardoso

O mito de que é possível viver sem solidão (leia-se também sofrimento) tem arrastado multidões. E todos os dias surgem métodos novos. Dentre os mais populares estão os sem esforços, como os antidepressivos; e os cômodos, sem sair de casa, via tecnologia e suas redes sociais. Viemos de uma tradição cultural que ensina que a solidão é fera devoradora, um chamamento para o abismo. Quando uma criança se comporta mal, o castigo é permanecer numa cadeira sozinha para “pensar na vida”. No nosso sistema legal, os faltosos são punidos com o isolamento e se não se comportam bem na reclusão, são punidos com mais solidão, a “solitária”.

Foi-nos ensinado que o “estar só” traz angústia, depois a depressão, seguido do suicídio. E, finalmente, é do senso comum que os solitários são vistos como desajustados, portadores de uma espécie de loucura.

Não é sem razão que as pessoas não suportam o espelho e fazem de tudo para não estar diante dele. O rádio e a televisão estão sempre ligados, permanecem horas a fio na internet, buscam a anestesia do álcool. Correm de um lado para o outro e optam por qualquer atividade que simule algum tipo de companhia e ajude na fuga dos seus próprios sentimentos e percepções.

Porém, a verdade desta condição precisa ser restabelecida. A solidão é o nome do primeiro e mais verdadeiro encontro que podemos experimentar na vida: a relação com o outro que habita em nós. É um estado de soberania, onde você olha para si mesmo na condição de estranho. Vem antes da relação com os outros. Se é importante por que é rejeitado a todo o custo? Porque é nesse espaço onde também se dá o encontro com o nosso pior, um “eu” que rejeitamos, que gostaríamos que não existisse. Contudo, é também nesse espaço aonde estamos frente a frente com o nosso melhor. É daqui onde se vê claramente o que nos move, alegra, dá prazer, engajamento e significado. Arthur Schopenhauer, conhecedor exímio do seu interior, escreveu que cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois é na solidão que o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez e o grande espírito, toda a sua grandeza, pois cada um sente o que é. E apesar das dificuldades, a dor e a delícia de sermos quem somos precisam ser conhecidos. Não há boa vida sem autoconhecimento.

Vença o muro das construções sociais plasmadas nas canções que sentenciam que “sem você eu não sou ninguém” e ignore a pressão infernal da mídia que age como se todos estivessem caminhando para a arca de Nóe, isto é, aos pares. Abrace a solidão! É o único espaço (e por isso, precioso) em que você pode estar com você mesmo em plenitude. E num mundo com excessos de conexões, escutar o que precisamos dizer a nós mesmos não deveria ser representado como um cenário negativo. O filósofo alemão Martin Heidegger afirmava que a solidão é a pulsão para, em toda parte, estar em casa. Apesar do paradoxo, é a chance de fazer do mundo uma morada habitável e acolhedora, a única que vale a pena.

Ok. Você sempre fugiu a sete pés da solidão e não sabe como fazer? Comece com pequenas doses de si mesmo, apenas alguns minutos. Escreva o que você sente, analise o seu comportamento e os atos que aprecia, os impróprios. Leia-os alguns dias depois, escute a sua própria voz. E se nesse exercício você se entristecer com um pedaço desfavorável de si mesmo… é normal. Essa peregrinação em direção ao íntimo perturba apenas aqueles que não estão habituados a sua prática. Com o tempo melhora. É preciso também saber desejar o que se precisa. Seja generoso. Você está no seu elemento, com acesso direto às fontes que dão significado a tua vida. Se o caminho se revelar muito árduo, procure a ajuda de um amigo, um mentor, um profissional… Há muitas estradas para ser-se senhor da própria casa. Põe-te a caminho.

MARGOT CARDOSO (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, contará histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

 

 

 

 


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COMENTÁRIOS

  • Alessandra Moreira

    Olá…

    Parabéns pelo maravilhoso texto. Uma narrativa que te provocae a olhar para dentro e entender que tudo o hoje o mais importante é ter o pleno equilibrio emocional para lidar com as questões que fazem parte da nossa condição enquanto ser humano ” Nascimento, doença, envelhecimento e morte”. Amei o texto.
    Vamos nos ouvir…

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