Sobre os pequenos rituais que fazem a vida

  • Margot Cardoso

Mais do que intensificar o sagrado, os rituais dão significado ao cotidiano, concretizam propósitos, dão profundidade aos sentimentos e põe em relevo a nossa conexão com os outros

 

Estúdios de yoga, retiros de meditação, vulcões e a natureza exuberante de Bali atraem visitantes do mundo inteiro. Mas, o que realmente encanta nessa ilha da Indonésia é o cotidiano extremamente ritualizado dos seus habitantes. E são tantos que os templos não são suficientes. Hotéis, lojas, praias, calçadas, portas — até mesmo carros e bicicletas —  são transformados em santuário para receber as oferendas. Pequenos cestos feitos de folha de palmeira com frutas, arroz, incenso e flores — hibisco, hortênsia, calêndula, frangipani — estão por toda parte e fazem parte do dia a dia balinês. Acompanhados de uma oração, os rituais contemplam desde o apaziguar de espíritos maus até pedidos de proteção para uma viagem.

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A fascinação por Bali vem da crença de que a modernidade eliminou a dimensão simbólica da vida. O que não é verdade. Antes de tudo, nenhuma cultura vive sem rituais. Olhe a sua volta. Para além dos rituais em igrejas, templos e sinagogas — batizado, casamento e funeral — há o Natal, a Páscoa, a formatura, inaugurações e os marcos temporais, como os aniversários. E mesmo que alguns possam estar sujeitos a comercialização e ao cinismo — como o Natal — eles ainda assim conservam o seu poder coletivo, sua grandeza compartilhada para além do indivíduo.

É humano!

Mas, não são apenas os eventos marcados pela cultura. O nosso dia a dia está cheio de rituais. É o “muito obrigada” que aumenta a gratidão; os nossos mantras para atrair felicidade, o desejar “boa sorte” a alguém. Em Portugal, as pessoas despedem-se ainda com o “adeus” (redução de “encomendo-te a Deus”). E sabemos tanto da força deles que buscamos transformar hábitos em rituais diários. E como fazemos isso? Embelezamos um hábito, damos uma leve estilizada, um toque sagrado a algumas rotinas que apreciamos. A saber: quem é que não tem um ritual quando acorda? Há o despertar consciente, o banho (ritual de purificação?), um tipo de refeição, uma bebida que conforta.

Os apreciadores do chá tem essa experiência. Há a escolha da erva, a espera do tempo da infusão, o aroma do vapor que carrega os óleos essenciais da planta, o prazer confortante do sabor… Não existe exemplo maior de um ritual de autocuidado e busca de harmonia do que a “hora do chá”.

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Um conforto no hábito

Pequenos hábitos são como uma oração improvisada à ordem doméstica, um aceno para o divino entrar por um momento no nosso dia. Uma balinesa é questionada sobre o que aconteceria se ela eliminasse a cesta de oferenda do seu início de dia? “Eu me sentiria um pouco perdida, sombria. Sentiria que o meu passo não é firme”. Quem elimina um ritual de começo de dia, provavelmente, sentirá o mesmo incômodo descrito pela balinesa. E eles não trazem apenas conforto e segurança, estudos mostram que os rituais também são capazes de aliviar a dor, reduzir a ansiedade e aumentar a autoconfiança. E mais: como são uma espécie de protocolo de comportamentos que exige autodisciplina, eles também ajudam no autocontrole.

Mesmo não lançando mão de todo o arsenal dos balineses — invocar elementos da natureza como a terra (flores), o fogo (velas), a água (a benta) e o ar (incenso) — não deixamos de utilizar os mesmos artifícios. Acendemos velas nas igrejas; esperamos no aeroporto — com uma maço de flores  — quem amamos. Buscamos a nossa própria essência na meditação e em retiros. Queimamos incensos e, na falta da purificação do mergulho no mar, tomamos banho de sal grosso. Os rituais, independentemente de crenças, fazem parte da nossa humanidade, inegavelmente. “Somos seres transcendentes”, diz o filósofo Martin Heidegger. Temos uma abertura para o sagrado. A nossa floresta tem uma clareira. Pode-se dar alguns passos em direção a ela, fazer todo o percurso, apenas olhar para ela. Mas a clareira está sempre lá. É a abertura para o divino… A nossa capacidade para o extraordinário.

Não vejo a clareira, é agora?

Mesmo quem tem os dois pés no materialismo não está livre dos rituais. Eles não são apenas a ponte para o sagrado, são também parte inseparável da vida em carne e osso. E mais do que isso: algumas etapas da vida só se concretizam — só existem — se vieram transportadas dentro de uma cesta de oferenda. Passo a explicar: já foi falado aqui que a felicidade e a saúde estão diretamente ligadas aos relacionamentos com qualidade. O encontro com o outro é o grande motor da vida.

Escalar a montanha das relações é tarefa pesada, e a dos bons e íntimos relacionamentos, equivale a subir o Everest. Mas se você colocar a lupa num relacionamento ruim, vai notar uma pobreza enorme de rituais. E pior: muitas vezes, não há ritual nenhum. Recebo inúmeras questões sobre relacionamentos e quando verifico, vejo essa falha fundamental. “Como assim? Eu vim aqui falar sobre o meu relacionamento e afinal eu não tenho um relacionamento”. Ora, se não há ritual, não há relação. E isso vale para relações entre cônjuges, melhores amigos, irmãos etc.

Um retrato possível de uma relação pode ser captado em quatro grandes momentos. Há o “envolvimento”(1): etapa onde são identificados e cruzados interesses mútuos; o “ficar” (2): fase em que o casal convive e faz atividades a dois; o “namoro” (3): a relação com compromisso acordado e considerado; e o “casamento” (4): um espécie de confirmação da fase anterior – o namoro – mas de uma forma mais ostensiva e, geralmente, pública e com testemunhas.

Só isso?

Todos os relacionamentos tem esses estágios? Não. E o drama reside exatamente aí. Essas fases só são concretizadas com rituais específicos. Há relacionamentos que nunca passam da fase do “ficar”. E aqui não estou falando da fase, muito comum entre adolescentes. Há imaturos de todas as idades que não conseguem passar do nível 2. Mesmo aqueles que coabitam ainda podem estar nessa fase. Pessoas com 40, 50 anos que nunca namoraram é muito mais comum do que se imagina. Ok. Há pessoas que não querem um compromisso formal. E cada um está no seu direito.

O problema é quando o casal — ou um deles —  pretende ir para a fase seguinte, mas não consegue porque desconhece como se faz. Eles não sabem quais são os rituais para avançar para a fase seguinte. E quais são? Depende. Pode ser muita coisa. Mas só vale como ritual se o outro reconhecer como tal, daí a importação da comunicação e da afinidade entre o casal.

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E antes um aviso: muitos casais desprezam essas rituais porque consideram banais e sem importância — um erro gigante. Vamos a alguns exemplos clássicos. Um ritual muito utilizado para fazer o upgrade da fase do “ficar” para o “namoro”, é um pedido formal, o clássico “quer namorar comigo?”. Aqui há um momento específico, uma escolha de data, local apropriado e… as palavras. É preciso verbalizar os sentimentos e as intenções — de onde você acha que vem o poder da oração? E, claro, os mais românticos podem ir além do simples pedido de namoro, Shakespeare aconselha: “quando o teu amor fores confessar, não use de palavras rebuscadas para que ela não te julgues reservado, diz simplesmente que muito a ama e faz a ela a oferenda de ti mesmo”.

Mais ritual?

A relação pode caminhar para a fase seguinte? Pode, mas também só vai se acompanhada de um ritual associado que seja superior ao anterior. Pode ter uma mudança na geografia e pode vir acompanhado de um símbolo, um anel, por exemplo. A fase do casamento, devido ao seu caráter público, é a que há mais exemplos de rituais. É mais fácil, basta o casal escolher um. Contudo, os que pensam que o casamento formal é careta e está fora de moda, não tem desculpa. Há opções para o estágio seguinte: os ritos de casamento contemplam desde a crença mais primitiva — com um pajé do Xingu — até o casamento protocolar.

Mas, é preciso reforçar que os rituais nunca acabam. Os relacionamentos são construídos com rituais e também morrem sem eles. E como nada é garantido e o mundo é mudança, o ideal é que esses rituais sejam renovados de tempos em tempos. De vez em quando, é preciso fazer um ponto de situação, confirmar que continua o interesse, que há disposição para permanecer na relação. A convivência de duas pessoas sem rituais é um encontro sem identidade, acontece no exílio, em espaço estrangeiro, sem compromisso, sem necessidade de passaportes.

Entretanto, mais do que intensificar o sagrado, os rituais dão significado ao cotidiano, concretizam propósitos, dão profundidade aos sentimentos, põe em relevo a nossa conexão com os outros. Acima de tudo, eles abrem portas para o futuro, constroem, protegem relacionamentos. Olhe para a sua vida e faça as suas escolhas, mas faça também os rituais para acompanha-las… E, apesar de tudo, não esqueça das flores.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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