Sobre consequências

  • Eugenio Mussak

A verdadeira maturidade vem quando se assume a responsabilidade pelo resultado de suas escolhas, atos e omissões

 

Alguns dias na praia são sempre um bom programa. Relaxam, alegram, enchem os olhos de beleza. Os pés na areia parecem estabelecer uma conexão do corpo com o planeta, criando uma linha direta com alguma fonte infindável de energia. Se a praia é Jurerê, ao norte de Florianópolis, ainda há a certeza de que o paraíso existe.

Conversas que importam

Foi lá que tive uma conversa interessante com um garoto de apenas 4 anos, que, por acaso, é meu filho e meu grande amigo. O tema era prosaico e necessário: a importância do filtro solar, que as crianças resistem em aplicar como se deve.

– Temos que nos proteger do Sol.
– Mas você disse que o Sol é bom…
– Sim, mas ele também pode ser malvado.
– Como o Bento, que faz carinho e às vezes arranha?
– Exato! – Bento é nosso gato, que se comporta exatamente como o Erik descreveu.

Eu não faria uma comparação melhor.

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A conversa fluiu leve, enquanto desenhávamos o Sol em uma folha de papel. Ele já sabe que o Sol ilumina. Que, ao aparecer, o dia começa e, ao se pôr, chega a noite.

– Agora ficou dia no Japão, né, pai? – ele adora o “né, pai?”.

– Sim – digo, acostumado com as surpresas do diálogo com a criaturinha fantástica.

E então voltamos ao filtro solar, à importância de aplicar várias vezes, ao uso do boné, da camiseta…

Foi quando ele, que é muito branquinho, disse algo diferente:

– Quando a pele fica vermelha é porque o Sol ficou grudado na gente, né, pai? E o pai ficou pensando que, sim, é isso. A pele vermelha significa que o Sol não foi embora. Ficou grudado nela, de alguma forma. Por meio de seu efeito, nesse caso, deletério. Minha amiga dermatologista, a doutora Isabela, certa vez me explicou que, se a pele bronzeia, é porque não foi bem protegida, e se fica vermelha é porque já houve lesão. “O Sol ficou grudado na pele.”

Uma força que não pode ser ignorada

Na noite daquele dia ensolarado, não pude deixar de me lembrar dos conceitos filosóficos da causalidade. Esse é um assunto que começou a ser explorado por Aristóteles e ainda fornece combustível para discussões acaloradas.

Causalidade nada mais é do que a relação entre dois eventos, a causa e o efeito, sendo que o segundo deriva do primeiro. Tão óbvio e tão ignorado por tantas pessoas. Fazem parte do estudo das causalidades as suas variantes, como o efeito dominó, borboleta, os ciclos viciosos ou virtuosos, o feedback, e outros. Entre esses outros, a ideia de que a causalidade pode ocorrer “segundo o ser” ou “segundo o vir a ser”.

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Na causalidade “segundo o ser”, o efeito desaparece quando cessa a causa. No “vir a ser”, ele persiste. Nesse caso, o efeito sobrevive à causa e se transforma em consequência, que às vezes é tão grande, pela intensidade ou pela duração, que parece desproporcional à causa.

Foi o que o Erik quis dizer, com sua maravilhosa e singela percepção infantil. Quando o Sol se põe, desaparecem, ao mesmo tempo, a causa e seu efeito mais evidente: a luz. Já quando não cuidamos da pele exposta na praia, o efeito do Sol permanece mesmo após sua partida. E não é um efeito bom. É uma consequência negativa.

A consequência, para mim, é uma espécie de força que não pode ser ignorada. Aliás, em minha humilde opinião, as três maiores forças existentes são: a gravidade, a natureza e a consequência. Vejamos.

Nada é por acaso

Newton explicou a força da gravidade, que nos prende ao planeta. Darwin descreveu a força da natureza, que inclui tudo o que se refere à vida e à morte. Mas há a terceira, a força da consequência, muitas vezes não percebida, tantas outras desrespeitada, e quase sempre implacável. E Aristóteles viveu muito antes de Newton e Darwin…

Este não é um assunto menor. É tratado pela filosofia e pela ciência, e, com frequência, é lembrado pela psicologia e pela gestão. A psicologia nos explica que a verdadeira maturidade não é definida por quantos anos a pessoa tem, mas por sua capacidade de assumir responsabilidade pelas consequências de suas escolhas, atos ou omissões. Conheço jovens de 13 anos que são assim e homens de 40 que não.

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Já no campo da gestão, o conceito da estratégia trata principalmente disso. Lucro ou falência são consequências da gestão. O mesmo vale para a saúde, para as carreiras, a vida financeira, os casamentos, para ter e criar filhos, para as amizades. Vivemos em uma espiral de relações causais que pode nos elevar ou derrubar. É preciso assumir as responsabilidades.

Quando alguém diz que “nada é por acaso”, alguns interpretam como ordens místicas. Eu vejo que, se nada é por acaso, tudo é consequência. Negar as causas das consequências é desrespeitar a ordem natural da vida. Acolhê-las, e manter com elas uma relação harmoniosa, de análise, aprendizado, recuperação e responsabilidade, é o que, verdadeiramente, nos faz grandes.

 

Eugenio Mussak já escreveu aqui sobre muitos dos seus atos e suas consequências. @eugeniomussak


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