Slow content: por um conteúdo desacelerado

  • Tiago Belotte

A pressa entrou por uma porta e o prazer saiu pela outra. Não há tempo para elaborar, nem para usufruir verdadeiramente

 

Tempos atrás, o trabalho me levou a realizar uma reunião em um grupo funerário. O motivo da reunião era a necessidade da empresa se reposicionar e atender às novas expectativas do cliente. Durante a conversa, vários dados, números e indicadores, mas só uma informação me impactou. As pessoas queriam enterrar seus mortos mais rápido. Nossa interlocutora explicava – os velórios, como antigamente, já não cabiam em suas agendas apertadas e cheias de compromisso. Ouvir isso me causou um desconforto. Em que momento o relógio passou a ser o juiz das nossas escolhas?

Outro dia, num desenho, que eu via junto com minha filha, um menino queria saber da sua mãe o porque de usarmos relógios. Ela disse: porque o tempo é valioso e precisamos aproveitar cada momento. Verdade. Mas como medir o valor do tempo que podemos despender para homenagear uma vida que se vai?

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Não é culpa de ninguém. A vida vai nos convidando diariamente à aceleração. Os meios de transportes ficaram mais rápidos, os meios de comunicação também. Você mal precisa esperar o ônibus ou táxi, como antigamente. A conexão é medida em megas ou gigas e o smartphone te torna alcançável em qualquer tempo e lugar. Não precisamos esperar, não queremos esperar, detestamos esperar. E assim a vida vai se tornando mais ágil, com hora marcada, ou melhor, on demand. Pra ver o filme, ouvir o novo álbum ou aprender um novo idioma, basta dar play.

Vamos com calma…

Se tudo ao nosso redor corre, por que nós poderíamos nos dar o luxo de sermos mais lentos? Começamos a correr com a ilusão de que chegaríamos mais longe e faríamos mais coisas. Viver muitas vidas em uma. Cumprir todas as tarefas do trabalho, dar conta de todos os afazeres domésticos, manter a leitura, o corpo e a mente em dia. Cuidar dos relacionamentos, dos sonhos e dos hobbies. Lutamos para não nos tornarmos obsoletos, como dispositivos descartados que já não conseguem avançar com a mesma velocidade de antes.

Em 1986, o ano em que nasci, Carlo Petrini nos deu, a partir da alimentação, o que pode ser uma luz para um dos nossos maiores dramas nos dias de hoje. Ele criou na Itália o movimento slow food, que só poderia mesmo ter nascido lá. Porque os italianos sempre foram apreciadores da comida. Eles reverenciam o momento da refeição como algo sagrado, em que nosso corpo entra em comunhão com o que a terra nos oferece para sustentar nossas vidas. E a partilha do alimento com os outros é como um símbolo da partilha do que nos é mais caro e essencial. Preparar e ofertar comida a alguém não é tarefa mecânica e trivial, é um profundo gesto de amor. Mas se já era assim, qual o motivo da criação de um movimento? O ritual estava indo embora.

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Por muito tempo, todos respeitavam a “chiusura pomeridiana” ou em bom português, o fechamento vespertino. Tudo fechava entre 2 e 4 horas, para o almoço e para o descanso da tarde. Mas a chegada de lojas de marcas globais e um novo estilo de vida, em que os jovens queriam aproveitar a hora do almoço para resolver suas tarefas, fez pressão sobre um costume secular. Por que só almoçar se você pode fazer umas compras e pagar as contas?

Conteúdo também precisa de calma

A pressa entrou por uma porta e o prazer saiu pela outra. Não há tempo para elaborar, nem para usufruir verdadeiramente. Usufruir, palavra linda, de origem latina que nasce da combinação de desfrutar e uso. Pela necessidade de sermos rápidos, na maioria das vezes, apenas usamos e deixamos de desfrutar, tirar real proveito. A velocidade mata o que valorizamos na essência.

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Tudo isso também diz respeito à produção de conteúdo. As receitas que dizem o quanto você deve publicar por dia, a multiplicação dos posts, as regras impostas por algoritmos não podem ser maiores que o seu prazer de criar e de partilhar. Como quem prepara um almoço de domingo, sabendo que não é sobre o horário que a comida estará na mesa e sim sobre sua felicidade em prepará-la e a oportunidade de oferecê-la às pessoas que se reúnem ao redor dela. Faça no seu tempo e apenas garanta que o que você produz está alinhado com o que você quer realmente fazer e oferecer. Importa menos a velocidade e mais a direção.

O tempo é valioso, desde que ele seja seu e não você dele

Esse texto encerra um ciclo e abre outro. Concluímos a Jornada do Conteúdo com Propósito e Impacto. Foram 10 vídeos que você pode conferir no meu perfil do Instagram e alguns textos públicos aqui neste espaço. Se você acompanhou, espero que tenha gostado. Se não estava sabendo e se interessou, pode iniciar a jornada no seu tempo, está tudo registrado. Por falar em registro, queria deixar meu muito obrigado por vir até aqui. Seguimos com novos temas a partir das próximas semanas. Até já.

 

Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna quinzenalmente, aos sábados.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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