Simplicidade doce

  • Ana Holanda

Às vezes, é preciso relembrar o jeito básico e cheio de essência de fazer as coisas, na cozinha e na vida

O simples pode ser bem gostoso, quando feito com o coração. Eu acredito muito nisso. Dias desses, meus pais apareceram em casa com uma abóbora linda, colhida no sítio deles. Ou seja, nada de agrotóxicos. E me deram um pedaço generoso. Decidi transformá-la em doce. Mas eu gosto mesmo daqueles doces em pedaço, que formam uma camada muito fina e, quando você morde, sente o doce pastoso no interior daquele cubo açucarado. Quando era criança, meu pai ganhava muitos doces – como ele era médico, algumas pessoas o presenteavam com comida em troca da consulta.

Comida como presente

Acho lindo quem presenteia o outro com comida, seja um doce caseiro, seja um leitão. E no interior de São Paulo as pessoas tinham (ou tem) esse hábito – assim como em outras pequenas localidades Brasil afora. A pessoa ia fazer uma visitar e chegava com um pote de doce de mamão ou abóbora, uma goiabada cascão, doce de leite, laranjas em compota. Eu ficava fascinada com aqueles vidros enormes recheados de tamanha gostosura. Adorava provar, descobrir novos sabores, perceber as diferenças.

Uma vez, meus pais foram até a casa de uma doceira conhecida na cidade. Era uma senhora muito idosa, que tinha um quintal enorme com caldeirões de cobre, de ferro, tudo fumegante. O doce era feito nessas panelas enormes, no fogão a lenha. As colheres usadas para mexer os doces também eram gigantes – para mim, eram gigantes, mas é preciso levar em conta que eu era uma criança e tudo, aos meus olhos, parecia realmente enorme.

Daquele quintal saia doce de goiaba, abóbora, abóbora com coco, leite, leite com ameixa, mamão, figo, laranja. Os vidros de doces eram vendidos dentro da casa, de pé direito alto e janelas abertas para a rua. Casa antiga, comprida, de chão de madeira, fresca como tinha que ser. Aquelas prateleiras cheias de doces de frutas me deixavam tonta. Eu queria um de cada sabor. E, já naquele tempo – uns trinta a quarenta anos atrás – essas doceiras eram vistas como pessoas únicas. Seus filhos não estavam lá muito interessados naquele saber tão antigo, tão manual, tão fundo de quintal. Melhor ser vendedor em loja do que fazer doce.

Doce em compota

Quando ganhei aquela abóbora do meu pai, lembrei dessa senhora doceira, a qual, infelizmente, não me recordo o nome. Adoraria bater papo com ela agora e lhe perguntar mais sobre a maneira como preparava suas gostosuras e sobre a vida. Entre o açúcar, o ponto da calda e a escolha da fruta, havia mais conhecimento sobre o tempo e a vida do que somos capazes de supor.

A saber, a tal da abóbora que ganhei de presente virou uma compota em pedaços. Fiz do jeito que minha mãe sugeriu. Cortei em pedaços graúdos e deixei uma noite inteira cobertos com açúcar (uso o orgânico). No outro dia, acrescentei um pouquinho de água e deixei cozinhar em fogo bem baixo. É preciso paciência para chegar no ponto certo – então, nada de tentar acelerar o processo aumentando a temperatura do fogo. Ficou bom e acabou no mesmo dia. É incrível como com tão pouco a gente consegue tanto. Para mim, neste dia, só bastou abóbora e açúcar.


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