Silêncio, por favor

  • Margot Cardoso

No meio da tempestade de ruídos, ainda temos o silêncio como o nosso último abrigo. Ele cura, conforta e nos protege do vazio existencial 

O ambiente é tenso. Há muitas vozes, sons artificiais, timbres monótonos, ruídos irritantes. Há barulhos e alertas. Também há o estrondo das redes sociais. Estamos imersos no caos sonoro. E mesmo quando procuramos lugares “silenciosos”, levamos o barulho conosco. Aliás, quem hoje sai de casa sem celular? Quem caminha no parque sem fones de ouvido?

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Se acaso você se entristeceu com esse cenário, você pode estar pouco acompanhado. Há um contingente enorme de pessoas que prefere assim. Para esses o silêncio não é fácil. Precisam da confusão e do barulho, precisam falar e ouvir permanentemente, são prisioneiros do ruído físico e mental. E quem não aprecia esse cenário, está na contramão. Tudo evolui no sentido contrário ao silêncio. Como se não bastasse o acesso fácil a todas as músicas do mundo, agora há os podcasts. A introspecção e a quietude necessária para ler um livro está perdendo terreno para os audiobooks. Hoje o silêncio é cada vez mais raro, uma espécie de luxo.

Casa no campo

É verdade que o gosto pelo ruído vem da nossa capacidade de adaptação. Afinal, a paz da vida no campo ou de uma casa isolada de vizinhos por um grande jardim é um privilégio para poucos. Porém, a outra razão — mais profunda —  é que o silêncio assusta. O apelo poético para o encontro consigo mesmo, só acontece no silêncio. A quietude exibe a realidade como ela é e, pior, dá abertura para o encontro temido. Há quem deliberadamente fuja dele. O silêncio revela os nossos vazios e medos, expõe-nos ao desconforto e à dor. E, finalmente, há o medo de sermos sugados pelo nosso próprio buraco negro.

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Se o silêncio faz com que venham à tona frustrações e tristezas, dúvidas e angústias, qual é a saída: a fuga. Quando estamos num evento desagradável — festa, jantar ou congresso — evadir-se é uma saída estratégica muito inteligente. Porém, a fuga de nós mesmos é uma suspensão da vida. Foge-se daquilo que nos esmaga, mas também da oportunidade de lidar com eles e — não menos pior — foge-se também da nossa fonte de poder. Quando renunciamos ao encontro interior, não fugimos apenas dos nossos medos e fracassos. Fugimos também do contato com a nossa história, nosso projeto interno, com o que nos realiza como pessoas, com o que nos encanta. Foge-se também dos nossos refinadíssimos dons humanos, como o conhecimento intuitivo — às vezes, mais eficiente do que o nosso próprio conhecimento racional.

Esqueça o positivo

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Eu não me canso de alertar para os males do excesso do pensamento positivo — e vou fazê-lo mais uma vez, certamente. Essa fuga é muito estimulada pela crença de que a vida tem que ser um eterno carrossel de momentos felizes. Há uma fuga em massa para qualquer desconforto e, pior, qualquer sinal de desconforto. O desconforto dos nossos embates internos mais do que necessários, são parte do que somos, nos constitui. É a partir deles que vem o aprendizado de quem somos. E note: não é aprender a apreciar a vida apesar das dificuldades. A grande lição é interiorizar que elas são parte da vida. Não existe vida sem dificuldades.

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O aprendizado da vida só é consolidado no silêncio das nossos encontros interiores. É por isso que os tempos de overdose de informação e estímulos, são também tempos de vazio existencial. Somos solicitados a ação, mas o nosso modo de vida não dá o tempo e o espaço que precisamos para analisar as nossas emoções e fazer as necessárias pontes de sentido com o nosso projeto interno. Precisamos do exercício de pensar os sentimentos e sentir os pensamentos. É no silêncio que aprendemos a modular emoções como a alegria, medo, tristeza, raiva.

Danos para a saúde

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Porém, os seus males não ficam apenas ao nível psíquico. Estudos indicam que uma exposição continuada a níveis sonoros entre os 50 e os 55 decibéis – o equivalente ao barulho do trânsito – pode acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a produção de cortisol (a hormona do stress) e afetar a tensão arterial. Ambiente com muitas pessoas falando ao mesmo tempo faz o nível de estresse subir em flecha. O silêncio, na contramão, reduz a ansiedade, fortalece a memória, a saúde cardiovascular, melhora a qualidade do sono. Os neurocientistas confirmam a função terapêutica do silêncio. Ele pode ser um antídoto contra a doença de Alzheimer e a depressão, por exemplo.

A cura

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Se você percebeu a necessidade e quer recuperar o tempo perdido, pode fazer uma terapia de choque, com os “retiros de silêncio”. A proposta é vivenciar o silêncio do corpo e da mente, devidamente guiado por profissionais. Mas se você considera assustador o mergulho em apneia de um retiro, pode iniciar hoje mesmo uma desintoxicação do barulho, introduzindo aos poucos momentos de silêncio no seu dia a dia.

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Cinco minutos de silêncio

Mesmo para os não iniciados na prática da meditação, é possível se beneficiar de cinco minutos de quietude por dia. Assim que acordar — mas antes de ligar o celular —  sente-se num canto da sua casa, respire lentamente e concentra-se na percepção do seu corpo.

Cultive-se!

Depois de se habituar aos cinco minutos diários, pelo menos uma vez por semana, reserve um período para atividades silenciosas, como arrumar gavetas, por exemplo. Deixe o seu pensamento livre. Você pode se concentrar nas peças que manuseia, no espaço ao redor ou simplesmente observe os ruídos a sua volta. A ideia é a entrega silenciosa à tarefa.

Silêncio à mesa

Incorpore o silêncio em pelo menos algumas refeições. A ideia é desfrutar da experiência em família, trocar a conversa pelo silêncio partilhado. Às vezes,  na dispersão, alguns nem sequer percebem os sabores que tinham no prato. O monge beneditino Anselm Grun, autor do livro Falar e Silenciar, afirma que nos seus seminários de silêncio, os participantes sentem um grande alívio por não terem que falar durante as refeições. Percebem que, muitas vezes, falam apenas para evitar o silêncio e a atmosfera incômoda. No fim do evento, os participantes sentem um vínculo muito mais íntimo do que se tivessem conversado o tempo inteiro.

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Proteja-se com silêncio

Não podemos eliminar os barulhos. Mas podemos minimizá-los ou reduzir o tempo de exposição a eles. Não precisamos ter sempre o rádio ou a televisão ligados, podemos abandonar ambientes muito ruidosos. Os barulhos, mesmo que você tenha se habituado a eles, são danosos. Tornam-nos reativos e agressivos e fragilizam o nosso sistema imunitário.

Escuta atenciosa

Experimente caminhar no parque ou fazer exercícios sem música. A ideia é escutar a vida, um exercício de atenção plena. Preste atenção ao som dos pássaros, do vento, dos seus passos, do seu batimento cardíaco.

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E os benefícios não ficam por aqui. O silêncio faz uma limpeza na alma. Varre o pó que as preocupações e os problemas do dia a dia depositam sobre ela. Impulsionador do autoconhecimento, ele cura hábitos compulsivos e manias. É por isso que o filósofo Kierkegaard recomenda “banha tua alma no silêncio”. E mais do que proporcionar um encontro com nós mesmos, mais do que estender o  corpo no aqui-agora, o silêncio é um intensificador da vida. Porque é a partir dele que emerge o nosso eu verdadeiro; as palavras mais importantes são aquelas que nascem do mais profundo silêncio.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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