Sete propostas para encarar 2021 de frente

  • Margot Cardoso

O espírito de renovação, típico do mês de janeiro, ainda não veio. O que esperar de 2021 ainda é uma questão em aberto. Nesse cenário, os tradicionais planos para o ano novo precisam ser revistos.

Todos os anos, chega o mês de dezembro e o ritual se repete: faz-se um balanço do ano que acaba e planos para o que começa. Acreditamos que o mês de janeiro tem uma espécie de magia que faz com que tudo recomece do ponto zero. Ano novo, vida nova. Esse exercício além de organizador da vida prática, tem um efeito positivo sobre a nossa psique. Pensar sobre o que queremos — ou o que nos faz falta — traz bem-estar, esperança e um otimismo que empurra tudo para a frente. Ocorre que hoje, nesse exercício, damo-nos conta de uma anomalia inédita. A sensação é a de que o ano de 2020 não terminará. Diante de estatísticas, prognósticos e teorias contraditórias, confesso que fiquei tentada a fazer planos para 2022!

A estranheza acontece por três razões. Primeiro porque muito do que foi planejado para 2020 não foi concretizado. Ficaram demasiados assuntos pendentes, adiamentos, cancelamentos. Ficamos com a ideia de que os planos já foram feitos em 2019 e, como foram travados pela crise, continuam valendo para 2021. Basta agora resgatá-los. A segunda razão deve-se às incertezas que envolvem 2021. Avistamos terra, mas quando chegaremos lá? Como será? Haverá vacinas para todos?

O terceiro motivo tem o peso do mundo. Especialistas afirmam que a mudança é tão estrutural que já consideram a pandemia como o marco simbólico que dita o fim do século XX. A exemplo do historiador britânico Eric Hobsbawm que afirmou que o século XIX só terminou depois da primeira guerra mundial (1914-1918). Nós usamos as datas, mas é a experiência humana que constrói o tempo. Como uma ironia hegeliana, o século XX, caracterizado por um grande desenvolvimento tecnológico, teve como fecho um vírus. Uma prova dos limites da ação humana.

Não tenho certeza

O ano de 2021 comporta tantos pontos de interrogação que nos solicita mais essa mudança. Não dá para agir como em outro ano qualquer. O povo português tem um grande orgulho da sua gênese de destemidos navegadores. A nação de marinheiros tem o seu reflexo na cultura, na arquitetura, nos hábitos alimentares e também nos provérbios. E há um que considero de imensa sabedoria: “Quem vai ao mar, avia-se em terra”. Na navegação — assim como na vida —  não há certezas.

O mar apresenta perigos a cada instante. Há tempestades, ventos imprevisíveis que mudam a rota. A embarcação danifica-se e exige reparos. Há ataques piratas. O tempo perde o sentido na impossibilidade de garantir o dia da chegada. Com tantas incertezas, o que fazem os homens do mar? Fazem um cuidadoso preparo em terra. É essa a minha proposta. Escolha provisões com qualidade; prepare o material, renove as velas; exercite o corpo; fortaleça o espírito. Seguem sete sugestões — como ponto de partida ou inspiração — para o novo devir.

 1. Leve só o que você pode carregar

Finalmente chegou a oportunidade de exercitar o real minimalismo. Se você — como eu — fazia planos para a esfera pessoal, profissional, familiar, amorosa etc. Selecione apenas dois ou três, os essenciais. Uma dica? Escolha os que fazem ligação direta com o seu propósito. Não é pouco e nem é ser menos ambicioso. Tudo está mais complexo com as restrições impostas pela pandemia  — lembre-se que elas ainda continuarão em vigor em 2021. Quanto menos projetos, mais foco e mais chances de sucesso. É o mote do minimalismo, menos quantidade, mais qualidade. Com menos projetos, você terá mais tempo para monitorar — e mimar — cada etapa. Mensurar cada fase aumenta a motivação e traz a sensação de que a vida está caminhando.

2. Coluna ereta e coração sereno

A pandemia abriu a porta para as doenças mentais. Os relatórios apontam um aumento de insônias, depressão, ansiedade e stress pós-traumático. Os razões apontadas são os efeitos colaterais do Covid-19: A quarentena, o distanciamento físico, o medo do contágio, a preocupação com familiares e amigos. E tudo isso acompanhado de problemas financeiros. Afinal, a crise não é apenas sanitária, também é econômica. Cuide da sua mente. Estabeleça rotinas de autocuidado e agende-as como compromissos inadiáveis. Essas rotinas funcionam como uma espécie de blindagem para o que está ruim lá fora. Exemplos? Reservar tempo para conversar com amigos, aventurar-se em caminhadas “higienizantes” (caminhar/ relaxar), descansar, ler. Qualquer atividade de lazer conta.

3. Não separe o corpo da cabeça

A saúde psíquica tem um aliado fundamental: o corpo. É do senso comum que o mente comanda o corpo. Porém, o corpo também atua sobre a mente. Uma postura altiva tem a capacidade de alterar estados mentais negativos. No confinamento, o seu corpo passou a sentir um amor adicto pela geladeira? Discipline-o. Inclua na sua rotina atividade física. Seja ao ar livre ou nas dezenas de opções virtuais. Selecione o dia e hora e não falhe. Importante: estabeleça prazos. Assuma o  compromisso de três meses de prática de yoga, por exemplo. Depois faça um balanço dos efeitos e dos ganhos. O balanço foi satisfatório? Continue. Não. Procure outra atividade e recomece o processo. O corpo e a mente funcionam melhor juntos.

4. Celebre pequenas conquistas

Mesmo em tempos instáveis, de sobressaltos e apreensões, não se deve perder o hábito — nem o gosto — pelas comemorações. Mesmo que as conquistas sejam ínfimas ou até invisíveis para quem observa. Festejar traz para o palco o sentido de realização e vitória. Não deixe que nenhuma conquista, por menor que seja, passe em branco. Para facilitar, tenha sempre um espumante na geladeira.

5. Incorpore o espírito do seu tempo

Grande parte do estresse do confinamento — principalmente no teletrabalho e na educação à distância — veio pela falta de adaptação à nova realidade. Não há mais espaço para desconfianças e comportamentos lesivos-abusivos das relações empregado-patrão e aluno-professor. As queixas sobre desrespeito, abusos e excessos de tarefas foram inúmeras. Há que haver um pacto de confiança. O empregador precisa acreditar que o colaborador trabalha. O professor terá de acreditar na palavra do aluno.

6. Solte a mão com leveza

Com a nova realidade, o seu trabalho, projeto ou sonho não são mais viáveis? Solte a mão. Desiste sem drama. Somos ensinados desde a infância que o sucesso nasce da perseverança obstinada. Expressões como “cair sete vezes e levantar oito”, “Passos para trás, nem mesmo para pegar impulso” estão gravadas na nossa mente. O pensador canadense Jordan Peterson diz que é uma espécie de condenação ao recuo.

Há uma narrativa dominante que coloca a perseverança num pedestal. Sejam ideias ou projetos, somos nós que os possuímos, não o contrário. Podemos deixar que algumas ideias morram em nós. Então, nós, a parte essencial, os criadores das ideias, podemos seguir adiante. A psique humana é um campo de batalha. Queremos algo e julgamos que é melhor do que o que temos agora. Reduzimos o mundo às coisas que ajudam ou que impedem essa realização e consideramos todo o resto irrelevante.

Talvez por isso, ficamos fechados para a possibilidade de desistir ou mudar de rota. Há quem assuma o ônus de um grande fracasso porque simplesmente não cogitou mudar de plano. Por vezes, o apego é tão forte que a pessoa prefere morrer ao invés de desistir. O que é uma má decisão. Permita que a ideia morra, deixe de ser o seu avatar, mude os hábitos que o prendiam a ela e continue o seu caminho.

7. Apanhe o que te interessa

Nem tudo é mau. Muitos consideram o Covid-19 um acelerador de futuros. A pandemia acelerou processos que estavam em curso, como o teletrabalho, práticas de sustentabilidade, mudanças na área ambiental, consumo consciente e responsabilidade social. Além de valores necessários — e um pouco esquecidos — como a empatia e a solidariedade. Assim, ao invés de fazer planos a partir de você, pegue o caminho inverso.

Faça planos a partir do ano que está à sua frente. Adapte-se e harmonize-se com o que está por vir. A adaptabilidade é uma virtude com o mesmo peso da coragem. Questione os seus valores. Confronte as suas crenças. Faça perguntas a si mesmo. O que é essencial para a sua vida? Você ainda quer contribuir passivamente para uma sociedade baseada no consumo e no lucro a qualquer custo? Quer um mundo melhor e mais justo ou apenas preservar o seu estilo de vida? A vacina sinaliza essa nova realidade. Pesquisadores e laboratórios de todo o mundo uniram-se numa colaboração sem precedentes no mundo da ciência.

Esses são apenas alguns apontamentos, há muitos outros caminhos. E se na confusão geral você optar por simplesmente “experimentar” o ano que chega sem planos e sem expectativas, também é uma opção. De qualquer forma, o presente é sempre imperfeito e grande parte da felicidade é feita de esperança — mesmo ela emergindo do submundo da impotência (se esperamos é porque não podemos fazer acontecer), da ignorância (não sabemos se ela virá) e da falta (só se espera por aquilo que não se tem). Essa dimensão metafísica da esperança, verificada pelos gregos, indicia que talvez a felicidade esteja mesmo na subida e não na satisfação fugaz da chegada ao cume. Um conhecimento que todos temos disponíveis na alma, basta acessá-lo.

Feliz Ano Novo!


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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