Serendipidade: quando a magia acontece na nossa vida!

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Almos Bechtold | Unsplash

Alguma vez você já foi surpreendido por um acontecimento imensamente feliz, fruto de inúmeras coincidências e acasos raros em simultâneo? E na retrospectiva do acontecimento, você teve a sensação de que tudo foi finamente orquestrado, como se uma mão invisível, o destino, o universo, Deus tivessem unido forças para que tudo acontecesse? E arremate final: era exatamente aquilo que você desejava com todo o seu coração. Esse acontecimento maravilhoso, inusitado e desejado pode ser chamado de serendipity ou, para quem preferir a tradução, serendipidade.

Concordo. Não é uma palavra fácil e uma definição rápida é ainda mais difícil. Trata-se de um fenômeno amplo e multifacetado, onde o sinônimo mais imediato poderia ser “feliz acidente” ­— ou uma “descoberta fortuita e não planejada” ­— derivado da sorte, providência ou acaso. Ou ainda, um superencontro, devido à alta concentração de acontecimentos encadeados ou simultâneos. O termo, já muito conhecido na língua inglesa — nomeia sites, blogs, jogos —, surgiu pela primeira vez em 1754 pela pena do escritor inglês Horace Walpole (1717-1797) numa carta endereçada a um amigo. Nela, ele narra um conto persa sobre as descobertas maravilhosas de três príncipes viajantes da ilha de Serendip (atual Sri Lanka).

Contos a parte, a serendipidade caminha com o homem desde sempre. Ela está presente na maioria das grandes descobertas científicas; em muitas carreiras profissionais, na trajetória das empresas, nos sonhos realizados, nas viagens inesquecíveis e até mesmo nas pequenas histórias do nosso dia a dia.

Por razões óbvias, todos esperam pela serendipidade. E não pense que essa espera está restrita a esotéricos com os seus mantras e incensos. Até o árido mundo digital está nessa busca. O Google, as ferramentas do marketing digital e até os sites de relacionamentos buscam — no cruzamento de dados e interesses — proporcionar encontros desejados. E para os mais diversos objetivos, desde a simples transação entre o consumidor e um produto até na promoção de relações amorosas.

E aqui chegamos na parte prática da questão. Já que é algo que acontece e que ninguém sabe exatamente como e porquê, ficamos de braços cruzados e aceitamos que não há nada a fazer? Não. É possível cultivar o terreno para que a serendipidade aconteça. Porém, essa tarefa vai na contramão daquilo que aprendemos para alcançar objetivos. Qual é o primeiro mandamento de qualquer guru: foco. Se você tem um objetivo, dizem, concentre-se nele, não o perca de vista, trabalhe e pense nele 24 horas por dia. A serendipidade pede o oposto. Deixe o objetivo, a meta, o sonho no seu coração. Mas estude, trabalhe, viva a sua vida, relaxe e divirta-se. E a razão é simples: a alma livre não vive apenas no concreto, ela habita e explora outras dimensões da existência. Ela avista o que Heidegger chama de “clareira”, é como se fosse uma abertura na floresta onde o homem é convidado a percorrer. E essa clareira só se apresenta para o homem, é o seu diferencial, a abertura para o divino, para o transcendente. É na clareira que se dá a intuição, os insights e a comunicação com o universo.

Trabalhe e estude arduamente, mas reserve um tempo para observar o mundo e a sua presença nele. Mas cuide para que essa tarefa não seja confundida com alienação, com indiferença. É o contrário. É estar inteiro, com todas as células ativas, com significado, consciente do que você é e do que busca. Escute o barulho do mundo e contemple-o em seu largo espectro. Seja um especialista, mas abra-se para o plural, para todas as áreas do saber. Tudo está interligado e quanto mais conhecimento, mas capacidade você terá de ver essas ligações e, principalmente, ver as ligações que importam. Com o cenário apropriado, a serendipidade vai surgir bem diante dos seus olhos.

Desde grandes acontecimentos até pequenas magias que fazem a vida valer a pena. Como o que me aconteceu recentemente, na grande Praça de Espanha, em Lisboa. Ocasionalmente, próximo ao Teatro Aberto surgem alguns artistas que na breve mudança do semáforo apresentam a sua arte. Quase não paro ali e as vezes que aconteceu eu estava distraída demais com as notícias do rádio. Mas eis que em um dia de indolência, quando prestava atenção à minha pele, não me preocupava com o estado do país e ouvia uma música… O semáforo mostrou o vermelho e eu parei. Saltou à minha frente uma garota com um arco. Lindamente vestida, ela se movia num misto de acrobacia e dança. A artista sorria e os seus movimentos combinavam na perfeição com a música que eu estava ouvindo. Parecia que toda a sua coreografia tinha sido feita para aquela música.

Considerei aquelas coincidências: o semáforo fechado, a minha paragem, a presença da graciosa artista, a sintonia dos seus movimentos com uma música que ela não ouvia. Experimentei um momento de magia, o sublime do encontro com a arte, o êxtase daquele momento e, sentia-me completamente feliz. O semáforo abriu, dei-lhe um moeda e disse que ela era maravilhosa. Ela agradeceu, sorriu e partiu. Nunca mais vi a artista com o seu arco no semáforo. Aquele momento foi único e faz parte da minha coleção de memórias mágicas. Uma pequena amostra de serendipidade que, sempre que eu recordo, ilumina o meu dia.

 

MARGOT CARDOSO (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, contará histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores. 

 

 

 

 

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