Será que sou capaz de aguentar?

  • Margot Cardoso

Fracassos, perdas e tempos difíceis estão constantemente desafiando nossa capacidade de resiliência

Já ficou claro que estamos vivendo uma das maiores crises dos últimos 100 anos. E a previsão de quem está no terreno — e mapeia os efeitos sociais e econômicos — é que ainda vai piorar. Há um grande suspense no ar.

Queremos saber dos outros como estão “lidando com tudo isso”, inclusive questionamos a nós mesmos: “será que vou aguentar?” e se vou, “como?”.

Tentamos ser otimistas, olhamos para a frente e revisitamos todas as histórias de superação, vitória e heroísmo que conhecemos. Porém, a nossa visão periférica mostra histórias de fracasso e derrota. No ano passado, encontrei uma amiga que eu não via há muito tempo. Ela contou que sofria muito com o fim do seu grande amor.

Falou dos quatro anos da relação, do casamento marcado, a casa quase pronta e rompeu em lágrimas. Compreendi que o sofrimento ainda era muito recente e que ela precisava de tempo para ultrapassá-lo. Porém, paralisei quando ela me disse que o rompimento havia sido há dois anos.

O tempo cura?

As adversidades fazem parte da vida. Reações como ansiedade, decepção, estresse, tristeza, trauma, frustração e outros sentimentos desagradáveis são absolutamente normais. Mas porque razão alguns lidam com isso melhor do que outros? Por que alguns sucumbem, transformam experiências difíceis em traumas e outros as ultrapassam e tornam-se ainda melhores? Hoje, com a pandemia, essa é uma questão muito pertinente. O impacto econômico, as perdas humanas e o isolamento social são duramente sentidos.

Há quem tenha sucumbido à quarentena e já considera o pior ano da sua vida. Para outros foi uma libertação: finalmente teve uma boa desculpa para mudar de vida. Houve casais que não resistiram à quarentena, outros, o relacionamento subiu para o nível seguinte. Por que a mesma experiência é vivida por alguns como “difícil” e para outros “traumática”? O que está por trás disso? Os profissionais psis costumam chamar ao palco o conceito de “resiliência”.

Conatus ou resiliência

O termo resiliência foi emprestado da física, diz-se da capacidade de resistência dos materiais. Na filosofia, não há um consenso sobre o nome dessa “força”. Nietzsche chama de “vontade de potência”, Espinosa, “conatus”… As palavras muito banalizadas acabam esvaziando o seu significado, mas vamos seguir com a denominação  “resiliência” para facilitar. Afinal, independentemente de nomes, o que está aqui em causa são as respostas para questões como “qual é a melhor forma de enfrentar as dificuldades? Como lidar com as dores? Por que razão alguns resistem melhor ao estresse e à ansiedade? Por que uns controlam melhor suas emoções do que outros? Existe alguma forma de nos prepararmos?

Mais um degrau

Porém, o significado de resiliência vai além da capacidade de suportar e ultrapassar momentos difíceis. O resiliente usa os obstáculos para impulsionar novos e vigorosos saltos. Parece mesmo um superpoder. O detentor dessa competência encontra nas adversidades e desafios novos significados e propósitos. Cada experiência “não boa” é mais um degrau para a autoconsciência, para melhorar a sua força. O resiliente consegue — após a adversidade — saltos de qualidade na relação com ele mesmo, com os outros e com o mundo.

Ah! Tudo isso é a resiliência? É. Então você já percebeu a complexidade que essa palavra carrega. Na verdade, a resiliência não é uma única característica. Ela comporta um conjunto de habilidades — cognitivas e comportamentais. É verdade — como aponta Heidegger — que algumas dessas habilidades são estruturais, isto é, já nascemos com elas. Mas, grande parte delas podem ser aprendidas, treinadas e aprimoradas.

Posso tudo!

Entretanto, é injusto ver a resiliência apenas como uma competência pessoal. Somos também o resultado dos nossos contextos e eles pesam muito no nosso grau de resiliência. Recursos sociais, econômicos e genéticos também fazem parte. Você pode ter nascido com uma imensa força interior, mas se teve pais negligentes e viveu num ambiente instável, certamente terá um deficit de resiliência. Há quem tenha muita dificuldade em se recuperar de um evento negativo e pense que há algo de errado na sua essência. Não é verdade. Às vezes, simplesmente, ela não teve acesso aos recursos necessários.

Tenho o poder

Outro traço importante: a resiliência é semelhante a autoestima, é dinâmica. Varia de acordo com o tema e o tempo. Você pode lidar muito bem com fracassos amorosos, mas ser totalmente frágil em fracassos financeiros, por exemplo. Todos podemos ser mais resilientes em uma fase da vida, mas menos em outra. Além do peso do contexto — fases felizes ou infelizes — há também o efeito acumulativo. É muito comum a perda da resiliência para rompimentos. Chega uma altura que simplesmente as pessoas desistem das relações por receio de enfrentar mais um rompimento. O que se tem em mente é: “esgotei minha cota, não aguento outra dose”.

E, por fim, um dado importante: ser resiliente não significa que você é uma fortaleza impenetrável, sem feridas ou cicatrizes. Os  resilientes sentem dor e sofrem, mas se recuperam e se renovam. Resiliência não significa ser à prova de balas. Há estudos que mostram que pessoas que vivenciaram a morte do cônjuge, mesmo os identificados como os mais resilientes, exibiram um ou outro sintoma de luto.

Paradoxo

Aqui pode-se ficar com a ideia de que para o bem da resiliência, o melhor é permanecer na defesa, manter-se longe de desafios, manter-se positivo e minimizar os problemas. E aqui o paradoxo, a resiliência só é construída com o enfrentamento. Vale lembrar que o estresse só é tóxico se for de longa duração, em doses curtas ele é uma ferramenta para a construção da nossa força. Quanto menos dificuldade, menos capacidade de luta, menos resiliência.

Qual o objetivo desse retrato da resiliência? O que você já imaginava. Não existe uma fórmula mágica para nos tornarmos resilientes. Cada um de nós tem a sua própria maneira de lidar com a dor, seu próprio ritmo de recuperação e níveis de aprendizado. É normal se ferir, desatinar, sucumbir diante de um momento difícil. E é igualmente normal se acovardar com a perspectiva de reviver as mesmas angústias. Também é perfeitamente legítima uma recuperação lenta ou mesmo uma “meia recuperação”. Ninguém precisa ser resiliente o tempo todo. Todos temos direito aos nossos próprios traumas, eles também fazem parte do caminho.

Conte com o outro

Mas é possível melhorarmos a nossa resposta às adversidades. No fim de cada percalço faça um levantamento dos recursos de que você sentiu falta. Não espere uma nova batalha. Vá imediatamente atrás deles. Se na sua última luta você se sentiu num deserto, sem apoio, você provavelmente se isolou e não se permitiu ser ajudado. Pessoas que optam por se conectar com outras pessoas e cultivar  relacionamentos, ao invés de se isolar; tendem a se tornarem melhores em lidar com as adversidades e crescer com a experiência.

E já que entramos no assunto “outros”. Não espere que ocorra um desastre. Mantenha sempre ativa a sua rede afetiva. As relações alimentam e suportam a nosso amor próprio e a nossa necessidade de intimidade… E veja: essas duas necessidades são como vitaminas para  a resiliência. Ah! Eu disse que não tinha uma fórmula mágica. Mas, há uma provável “receita”. E tão fundamental que está presente em duas correntes filosóficas consagradas, aparentemente opostas.

O epicurismo e o estoicismo concordam em pelo menos um ponto: aceitar os acontecimentos e se concentrar apenas no que você pode controlar. Não se trata de conformismo ou de negação, mas de mudança de foco. É o olhar para dentro, o autocuidado. Reúna toda a sua força e direcione-a para o que você pode mudar… e mude! Aceitar o que não está no nosso controle — mais do que uma argamassa da resiliência — é o caminho para mantermos a sanidade nos tempos difíceis, nos desafios que julgamos além das nossas forças, nas dores que não sabíamos existirem, nas lutas que não podemos vencer.


Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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