Será que estamos em um relacionamento tóxico?

  • Myrna Coelho
  • FOTOGRAFIA: Mitch Lensink | Unsplash

Se pareceu violento para ti – uma palavra, um olhar – não duvide do que sentiu. Pode ser um relacionamento tóxico. Olhar para nós, saber o que machuca e estabelecer os próprios limites é primordial

 

Toda relação é complexa e exige delicadeza e profundidade para analisá-la. Então farei alguns apontamentos no sentido de abrir a discussão, mas nunca de fechar um “diagnóstico”: conceito comumente falido e improdutivo.

Vale lembrar que na sociedade machista as mulheres são violentadas e submetidas, portanto, estão mais sucetíveis a um relacionamento tóxico. É impressionante o quanto nós mulheres nos culpamos por tudo, inclusive pela violência alheia. Desse modo, despir-se da culpa é fundamental pra avançarmos na construção de uma sociedade mais harmoniosa.

Violência não tem justificativa, ponto. Assim, não devemos pestanejar sobre isso. Marido, namorado, chefe, Estado, país: ninguém está autorizado a agir de forma violenta. Se você vive isso, procure ajuda imediatamente e pule fora desse relacionamento tóxico.

Mas nem sempre a violência é fácil de ser identificada: quando ela vem disfarçada de cuidado, fica mais difícil argumentar. E, infelizmente, isso está mais na moda do que nunca no Brasil.

Consequentemente, tendemos a olhar para nós mesmos duvidando de nossas percepções, sensações e intuições. Isso é próprio do modo de educação para o mundo-capital.

Essa armadilha é a pior: desconectar a gente do mundo e substituir várias habilidades perceptivas por narrativas. E os saberes psi são muito responsáveis por isso. Desde sempre eles têm como jargão a “difamação” da autenticidade (isso tende a ser pior nos países colonizados, onde a normativa é não ser “si mesmo”).

No entanto, para as mulheres, esse é o modo de se relacionar com o mundo que se vende, em que suas intuições e percepções são desautorizadas. Muitos materiais já foram produzidos sobre esse tema e, se você está na dúvida, vale a pesquisa. 

De modo geral, podemos indicar que nosso projeto educacional e familiar aposta em nos acostumarmos a migalhas desde a infância. Claro, no fundo sabemos que migalha não sustenta. Mas, para isso funcionar, tendemos a acreditar que “estamos querendo demais” e, duvidando de nós mesmos, vamos abrindo espaços para vários tipos de vampirismo. Essa armadilha costuma ser a fundamental.

Em suma, ela é a base do mundo-capital. Por exemplo, sem essa armadilha as mulheres não sustentariam o capitalismo em suas muitas jornadas não remuneradas de trabalhos domésticos e carga mental. Portanto, vale o lembrete: não é necessário argumentar para caracterizar algo tóxico. Se pareceu violento para ti – uma palavra, um olhar, um silêncio – não duvide de si mesmo. 

Desse modo, podemos identificar a toxicidade de uma relação a partir do básico. O outro gostar de você, te cuidar, te respeitar, te pagar em dia… Isso não é argumento de permanência numa relação, é o mínimo para que uma relação aconteça. 

Por tudo isso, desconstruir essa idéia de egoísmo como algo ruim, é essencial! Nunca é egoísmo olharmos para nós mesmos, sabermos o que nos machuca e estabelecer nossos próprios limites. Nunca é egoísmo priorizarmos nos conhecermos melhor e mais profundamente.

E isso serve para romances, família, trabalho, amigos, situações…

 

Myrna Coelho é psicóloga clínica, professora e doutora pela USP. Decidiu recomeçar a vida do outro lado do oceano, onde segue atendendo seus pacientes e dando supervisão online. Por aqui, semanalmente, reflete sobre como podemos viver com mais liberdade de ser. Mande sua mensagem para: [email protected].

 

 


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