Ser bom o suficiente é tudo de bom

  • Keila Bis
  • FOTOGRAFIA: Andrey Popov | IStock

Os altos ideais de perfecionismo e rendimento causam medo, ansiedade e vergonha. Por isso, almejar uma nota média é tão libertador.

Existe um tipo de medo muito comum nos dias de hoje. É aquele temor de não tirar a nota dez, que faz com que as pessoas fiquem excessivamente preocupadas. E é uma preocupação com qualquer compromisso, até mesmo antes de encontrar amigos e familiares. Quem caiu nessa armadilha fantasiosa do perfeccionismo, sente uma forte pressão vinda de si mesma: a autocobrança.

Nas tarefas do trabalho, inclusive as mais simples, fica-se revisando, repensando, mudando mil vezes de ideia. Nada é excelente perante os olhos extremamente exigentes. No final, a pessoa está exausta e confusa. Aquilo que se ama fazer torna-se desprazeroso e se torna estressante. Sem contar as coisas que se deixa de produzir devido à um avassalador medo de errar, de não fazer incrivelmente bem feito.

Como viver se torna pesado e limitado!

Quem lida com esse medo é assombrado pelos altos ideais de inteligência, de beleza, de ser superinteressante, e por aí vai. Não que não possamos ter ideais, objetivos de querer ser ou fazer melhor, mais bonito – aquela saudável autocobrança. Não é isso. O problema surge quando aparecem os superlativos: os altíssimos ideais, a nota dez, o excelente, o máximo, o espetacular.

O que nos assusta

Por que? Porque, normalmente, essa máxima valorização assusta, oprime, gera inibição, tira a espontaneidade e a liberdade de realização.

Quando visamos somente o dez, entramos no jogo do eu sou o melhor ou eu sou nada; eu sou superior ou eu sou inferior. É só isso o que vale, que importa. O bom o bastante e o bom o suficiente não entram nesse jogo. As notas 5, 6, sabe? Quem aprende a desmantelar a idealização do dez, ganha muita paz. Isso ocorre porque a pessoa passa a compreender que, naquele momento, o que ela sabe e quem ela é, é bom o suficiente — seja para fazer um trabalho legal seja para se relacionar.

No trabalho, por exemplo, se há responsabilidade, um pouco de experiência e um entendimento razoável do que se trata, já está muito bom. Bom o suficiente para contribuir com opiniões, sugestões, ideias.

Não é preciso entender 100% do assunto para somente depois se expressar ou pleitear um cargo maior. E nem é necessário aprender a falar com a desenvoltura que o fulano tem para somente depois participar ativamente do círculo onde está envolvido.

O que se sabe é bom o bastante.

Menos, vai. Não é preciso tanto

homem desolado de costas voltadas

Com o perfeccionismo, o mal-estar cede lugar à tranquilidade e ao prazer em produzir. |  Crédito: Gabriel E. | Unsplash

Tem gente que desenvolve uma ansiedade imensa antes de sair de casa. Quando se vai a fundo no conhecimento dessa fantasia psíquica, normalmente, o que está por trás é o imperativo dos altos ideais. Falar coisas muito legais, ser muito interessante, muito bonito, se comportar muito bem, … Lembra do: ou eu sou o máximo ou eu não sou nada? Conclusão: os altos ideais se voltam contra a própria pessoa.

Nesse caso, se não perseguisse o dez, mas a nota cinco ou seis, muito provavelmente, a pessoa sairia de casa numa boa. Curtiria a turma em paz. De vez em quando falaria algo legal, depois seria a outra colega com uma boa sacada, depois o outro diria algo engraçado, depois a outra não diria nada. Cada um oferece o que tem, o que acaba por criar um encontro (ou um trabalho) interessante.

No decorrer da existência, aprende-se mais, transforma-se, acrescenta-se coisas novas, tira-se outras. Por isso o dez é uma ilusão. Não se chega ao dez nunca porque quando se termina um saber, descobrimos que existe mais. E vai ser sempre assim. A vida é de uma riqueza inesgotável.

Em paz consigo mesmo

No processo de autoconhecimento, quando essa instância psíquica tão julgadora, a ponto de ser cruel, passa a ser conhecida, questionada e elaborada, o que se vê é a entrada de ares mais leves no psiquismo. Por isso o trabalho de desconstrução dessa entidade que exige altos rendimentos pode e deve ser feito.

O mal-estar, a vergonha e o terror cedem lugar à tranquilidade e ao prazer em produzir. Isso porque as ideias não ficam mais rodando na cabeça. Quando se almeja ser bom o suficiente, sem o peso terrível da excelência na performance, naturalmente nos expomos, nos expressamos, criamos mais.

Entre erros, acertos e novos aprendizados, vamos nos sentindo mais completos e inteiros. As conexões e trocas também aumentam. Em vez de morrer de medo ou de vergonha por não ter dito algo superinteligente, por exemplo, vem uma vontade de falar o que se sabe. E quando não se pode dizer nada, escuta. E aprende. E a troca continua.

Ser bom o bastante é tudo de bom. Nas palavras poéticas de Manoel de Barros: “Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto”.


KEILA BIS é jornalista e psicanalista que adora compartilhar segredos do autoconhecimento para um viver sem neuras. Ficar em paz sendo bom o suficiente é um deles.

*Os conteúdos dos nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 238, dezembro de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*