Sem tempo para o pessimismo

  • Eugenio Mussak
  • FOTOGRAFIA: Randy Jacob | Unsplash

Houve um tempo em que sapatos com bico fino estavam na moda. Era chique quem usava um pisante com o qual podia até “matar uma barata na quina”. Ok, modas vêm e vão. Também houve aquela de sapatos com ponta rombuda, assim como já se usaram exemplares que combinavam as cores branca e azul para acompanhar um bom terno de linho branco. Passada a moda, ficamos pensando em como pudemos usar aquelas coisas que agora parecem ridículas. Mas, voltando para os sapatos de bico fino, eles acrescentavam mais um detalhe a seus vaidosos proprietários: eram extremamente desconfortáveis. Apertavam na ponta. Caminhar com um par deles era um exercício de autotortura, que talvez abreviasse o caminho para o céu, sei lá.

Mas este texto não é sobre moda. Nem sobre saudosismos. É sobre tempos bicudos, que é uma expressão que deriva exatamente disso, do fato de que o que é bicudo, é apertado, desconfortável. Tempos bicudos são tempos difíceis, que nos apertam a alma, em vez do pé. Tenho ouvido essa expressão por aí, acompanhada por palavras como preocupação, incerteza, apreensão; afinal, além de estarmos em tempos bicudos, o mar não está para peixe.

Bem, deixando as expressões idiomáticas e figuras de linguagem de lado, o fato é que há mais gente preocupada do que o normal. Isso é comum em épocas de mudança, de novos ventos políticos, de economia estagnada. Todos concordam que isso vai mudar, claro, ainda que alguns sejam da opinião que vai mudar, sim, só que para pior. A história nos mostra que crises vêm e vão como as ondas do mar, que se sucedem testando nossa paciência e força. E também nos ensina que os momentos difíceis são úteis à evolução das sociedades pelo aprimoramento necessário e pela seleção natural, o que não deixa de ter seu lado cruel, apesar de verdadeiro.

Recentemente foi criada (ou passou a ser usada de novo) a expressão humanismo evolucionário, capítulo da sociologia que estuda os fatores que promovem a evolução das sociedades. Entre eles, aparecem momentos difíceis, como desastres naturais, inclemências climáticas e, claro, as guerras. Londres ficou melhor depois do grande incêndio de 1666, provocado pelas fagulhas de uma padaria, e que destruiu mais de 13 mil casas, e deixou pelo menos 100 mil pessoas desabrigadas. Na época, a técnica para combater o fogo era derrubar a casa incendiada para impedir sua propagação, e a partir de então as novas construções foram feitas de pedra, e não mais de madeira.

A respeito das guerras, então, há coleções de relatos sobre o efeito fortalecedor que exercem sobre as sociedades. Há quem diga, com evidente exagero, que “aqui falta uma guerra para melhorar tudo”. Estudos foram feitos, livros escritos e filmes produzidos às dezenas sobre os heróis que surgiram dos horrores das guerras. Os livros do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, com seu relato sobre os campos de concentração, ainda estão entre os mais vendidos. E O Vento Levou, lançado em 1939, ainda ostenta o título da maior bilheteria da história do cinema. Preferência mórbida das pessoas por tragédias? Não. Necessidade humana de encontrar sentido no sofrimento. É famosa a carta do tenente inglês Henry Jones, de apenas 21 anos, para o irmão, relatando o que sentia no front ocidental durante a Primeira Guerra. “Aqui o egoísmo, o luxo e a mesquinhez, a existência comercial e vil dos tempos de paz, são substituídos por uma selvageria que, pelo menos, é mais explícita e honesta”, disse ele, em um exercício de exagerada objetividade, mostrando o quanto a guerra fortalece. Em um ponto de seu relato, ele se defronta com a possibilidade da morte, mas alega que, se isso acontecer, estará apenas antecipando o inevitável, com a vantagem de morrer com o sentimento de que estava lutando por seu país, e não apenas por seus interesses. Exagero do tenente? Maneira de consolar-se pelo inevitável? Pode ser. Mas sua carta se transformou em um relato sobre o efeito de tempos especialmente difíceis sobre o caráter das pessoas.

Os especialistas em gestão de empresas também são unânimes em dizer que as organizações não se dividem entre as que enfrentam crises e as que nunca as têm. Até porque todas, independentemente do tamanho e da área de atuação, enfrentam períodos difíceis em suas histórias. A diferença é a velocidade e a qualidade da reação das empresas às crises que enfrentam. Entre os líderes, duas qualidades são fundamentais durante as dificuldades: a opção pelo movimento e a visão positiva do futuro. De fato, o que não dá é para ficar parado “esperando a crise passar”, para então retomar as atividades. É preciso fazer algo, de preferência diferente do que se fazia até então, pois isso não evitou a crise, ou, quem sabe, foi o que a provocou. É preciso mudar, inovar, sacudir a poeira. E também não dá para abrir espaço para o pessimismo. Isso não significa fechar os olhos para as dificuldades e achar que está tudo bem, que os problemas são imaginários. Há dificuldades, sim, mas podemos enfrentá- -las, e o faremos. Sairemos melhores. Essa é a postura esperada de um líder, seja um personagem público, um gestor, um pai ou uma mãe, ou quem sabe, qualquer um de nós, que, antes de mais nada, lidera a si mesmo, e constrói o próprio destino.

Em um encontro entre empresários de um setor que luta para sobreviver em um mercado em transformação, ouvi a frase que originou o título deste texto. Enquanto outros falavam sobre o desânimo que se abatia sobre o setor, um homem disse que não tinha tempo para o pessimismo, pois tinha muito a fazer naquele dia. O efeito foi imediato, sobre o ânimo e sobre a atitude de seus interlocutores. A visão nietzschiana de que o que não mata fortalece deixa oculta a mensagem maior: a de que isso é, principalmente, uma opção pessoal.


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