Se você quer ser egoísta, pelo menos seja sábio

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Divulgação

Talvez as pessoas percebam que nós precisamos cuidar de quem está do outro lado do planeta, dos pobres, do ambiente, porque, no fim, tudo volta a nós mesmos. É o que o Dalai Lama chama de auto interesse iluminado

 

Muita gente profetizou o suposto mundo novo que nascerá desta terrível pandemia. As bolas de cristal antecipam mares de rosas perfumados, porém com fragrâncias tão reais quanto as de desodorizadores de banheiro. O andar da carruagem, especialmente no Brasil, não nos oferece um panorama animador.

Miles Neale, é psicoterapeuta e criador do Programa de Estudos Contemplativos. Foi ele quem cunhou o termo “McMindfulness”, uma crítica ao uso indiscriminado da meditação como solução para todos os problemas de saúde mental. Mas, Neale tem uma ponta de esperança de que o coronavírus vai nos ensinar algo.

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Mas, caso o leve otimismo se justifique, será preciso fazer a lição de casa. Será necessário, acredita ele, que realmente enxerguemos as maneiras pelas quais o mundo está interconectado, para que possamos agir.

Em uma entrevista por videochamada, perguntei a ele como a contemplação pode nos ajudar, sobre os impactos da pandemia na nossa saúde mental e se é necessário ser religioso para enxergar a interconexão entre países e pessoas.

Entrevista com Miles Neale

Por que precisamos de contemplação neste momento?

A resposta curta é: para não reagirmos aos impulsos que sentimos. Por exemplo, se você está decidindo que aspirador quer comprar em que ações quer investir, talvez você queira pausar por um instante e refletir. Voltar a atenção para dentro e ver quais são os seus valores, suas necessidades. A contemplação serve para avaliar as coisas. Isso é extremamente importante na medida em que o ritmo das nossas vidas aumenta de maneira tão exponencial. Na maior parte do tempo, estamos no piloto automático, reagindo aos estímulos externos. As escolhas que fazemos nessa situação pode ser, no longo prazo, prejudiciais.

Como encontrar tempo e espaço para a contemplação quando estamos vivendo em um mundo repleto de telas? E, especialmente agora durante a pandemia, que dependemos dos aparelhos para trabalhar, estudar, nos entreter e falar com as pessoas que amamos?

Ainda bem que você mencionou a pandemia porque ela está mostrando como o nosso estilo de vida era ridículo antes da quarentena. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos na mesma trajetória, em um mundo em que tudo é descartável –até as coisas não-materiais, como a nossa atenção. Sou pai, e estava observando meu próprio vício em mídia e ao telefone. Me vi tendo que fazer escolhas entre dar atenção aos meus filhos e usar os aparelhos. Com a pandemia, algumas de nossas escolhas foram retiradas de nós. Ainda temos tempo para usar telas, mas o nível de distração diminuiu de alguma forma. Aqui encontramos um dilema interessante: o impacto causado na saúde mental durante a quarentena porque as pessoas não sabem se relacionar com as próprias mentes

O que essa vida anterior estava causando em nossa saúde mental, em nossa concentração, em nossa habilidade de olhar para dentro e de nos relacionar com os outros? A relação com nós mesmos e com os outros estava em perigo. Claro que, na quarentena, ainda estamos acessando esses aparelhos, mas também há espaço suficiente para que avaliemos a nossa vida passada e questionemos se queremos voltar para aquilo. É possível que essa quarentena, de alguma maneira, ainda dure meses; isso seria o suficiente para que possamos estabelecer uma prática como a da meditação, por exemplo, algo que não podíamos fazer antes.

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Tempos de reavaliações

Em cidades grandes, as pessoas demoram horas para chegar ao escritório. Agora, elas têm essas horas de volta. Talvez não estejamos trabalhando a toda capacidade, talvez nossa renda diminua; os valores mudam. O que fazemos com nossa atenção? Há tempo para uma reavaliação, para que vejamos nossos desperdícios.

Pessoas que não têm uma prática espiritual podem estar confusas agora, mas quem pratica o budismo, meditação ou ioga, que têm uma história milenar, sabe o que fazer com o tempo extra, e sabem que podem fazer algo interno que vai ajudar sua saúde mental.

Qual é sua avaliação de como está a saúde mental e de como ela será a partir de agora?

Estamos passando por fases. Primeiro, tivemos as pessoas querendo fazer a coisa certo, exercendo a cidadania de maneira altruísta, fazendo concessões, ajudando a achatar a curva. Mas acho que há consequências inesperadas que estamos começando a ver agora.

A primeira coisa que digo nas minhas palestras é que o nosso sistema nervoso foi moldado pela evolução. Na quarentena, na pandemia, estamos mandando mensagens contraditórias aos nossos cérebros. Por um lado, estamos dizendo: “Houston, temos um problema”. Isso manda o sinal à nossa amígdala de que precisamos fugir ou lutar. Vemos as notícias na TV, estamos preocupados com nossa família, a mensagem é a de que estamos em perigo. Por outro lado, recebemos uma mensagem contraditória que diz: fique em casa.

A reação de fugir e lutar é útil em casos como incêndios, tiroteios, quando você recebe uma carga de adrenalina e precisa fugir. Mas estamos há várias semanas recebendo essa adrenalina, nos sentindo estressados, em perigo, em risco iminente. Além da pandemia, há o risco econômico. É como se você estivesse pisando no acelerador e no freio ao mesmo tempo. O que isso faz com o câmbio do seu carro? Desgasta. Estamos inundados pelas mensagens de lutar ou correr, e, ao mesmo tempo, nos dizem, em cidades grandes, para ficarmos parados em espaços muito apertados.

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Nas primeiras semanas, as pessoas estavam inquietas, talvez irritadas, checando as notícias; elas estavam fazendo faxina, limpando os armários, as gavetas. Seus sistemas nervosos estavam em alerta máximo e elas queriam subir pelas paredes. É aqui também que ocorre a violência doméstica, especialmente se você não tem recursos para lidar com a irritação e com a raiva. Mas, se você faz isso por muito tempo, você vai para o outro extremo.

Atenção à saúde mental

Agora, as pessoas têm dificuldade para sair da cama, estão exaustas, com fadiga, pararam de se exercitar. Depois, vem um mergulho e você começa a ver a depressão. Estou muito preocupado. Se você olhar os canais de notícias, eles não estão falando da pandemia de saúde mental. Por quanto tempo as pessoas aguentam ficar em quarentena, perdendo o emprego, vendo sua vida desmoronar? Em breve, as pessoas vão perder a cabeça. Não creio que uma pessoa comum tenha recursos suficientes para administrar sua saúde mental, ela está a mercê dos seus impulsos.

O que podemos fazer para lidar com essa situação?

Acho que a meditação é apenas uma das ferramentas. Também há nutrição, exercícios físicos, boas relações sociais, ser produtivo. Há muitas coisas que as pessoas podem fazer para manter sua saúde mental. É fácil demais fechar a porta e se isolar. As pessoas têm de fazer um esforço extra para se conectar e enriquecer suas mentes.

Você está dizendo, então, que as pessoas devem ter algumas ferramentas para, ao menos, saberem identificar possíveis problemas em suas mentes?

Sim, porque elas não podem depender apenas dos profissionais da saúde mental, porque eles não existem em número suficiente. A demanda vai aumentar muito. E não há dinheiro para que as pessoas usem esses serviços. Não estou dizendo que todo mundo agora é um profissional do trauma. Mas se em em sete horas uma pessoa comum pode aprender a fazer ressuscitação cardiopulmonar (RCP), por que não podemos fazer o mesmo com nossas mentes?

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Ensinar o mínimo necessário sobre autorregulação para que uma pessoa em dificuldades não fique violenta ou entre numa depressão profunda. Acho que isso é possível. E, mais uma vez, não acho que a meditação vá nos ajudar a lidar com a pandemia. Ela é apenas uma peça do quebra-cabeça.

Falando nisso, a meditação se tornou uma solução para qualquer coisa, na sua opinião?

Em 2010, eu inventei o termo “McMindfulness”. As pessoas me veem como um estraga-prazeres. Não acho que as pessoa entenderam o que eu estava dizendo. Com a pandemia, ficou mais óbvio. Minha tese é a seguinte: quando tiramos a meditação de seu contexto, perdemos algo. Nossa mentalidade industrialista quer apenas minerar os materiais úteis e deixar todo o resto para trás. Ficamos com uma pedrinha brilhante e esperamos ficar satisfeitos com isso. Damos poder demais a ela. Mas se trata de apenas um pedaço. O resto está nos escombros.

Durante a pandemia, ficou muito claro para mim. Precisamos mesmo é do que está nos escombros. E o que é isso? No budismo, temos três coisas que são como as pernas de uma cadeira e que precisam estar lá para que ela fique em pé. Uma é a meditação. Os outros são a visão e a ação. Desde os tempos do Buda, eles andam juntos. Nos últimos 50 anos, temos tirado a meditação desse contexto. A visão é o que está nos matando agora.

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Qual é nossa visão de mundo agora? É o materialismo, baseado na Era da Razão, do século 17. Jogamos a religião fora e nos tornamos incrivelmente científicos, não acreditamos em nada que não seja material. Depois disso, tivemos a Revolução Industrial e o niilismo, basicamente, vivemos como consumidores e produtores em um mundo finito, extraindo tudo sem ligar para o espírito, não acreditamos em consciência, não temos moral. Somos basicamente hedonistas, engolindo tudo o que pudermos. É isso o que está destruindo o planeta.

Uma revolução do mindfulness

O mundo antes da quarentena era louco. Corríamos consumindo, destruindo tudo. Se você pega a meditação, mas não muda a visão, está apenas ficando calmo por 20 minutos e depois você está destruindo o planeta, fodendo com seus concorrentes no mercado, só pensando em dinheiro, sem trabalhar seus preconceitos. Os jihadis fazem o que fazem por conta de sua visão de mundo. Sua perspectiva a respeito da vida permite a eles que matem outras pessoas e a eles próprios. Eles creem que vão ao céu e isso dá permissão para que faça coisas malucas.

Nossa visão como ocidentais, industrializados, seculares, temos uma visão e uma ação, e foi isso que nos fez destruir o planeta. Temos, então, a revolução do mindfulness. As pessoas estão meditando, relaxando, se sentindo melhores, mas não mudam sua visão e não necessariamente mudam sua ação. Era a respeito disso que eu tentava alertar as pessoas.

Esse modo de pensar funciona fora do contexto do budismo?

Cem porcento. Você pode usar a razão –o budismo é, na verdade, uma das religiões mais razoáveis. Ele não acredita em um deus que você não pode encontrar, acredita no poder da sua inteligência. Se você apenas olhar para as coisas com cuidado, o que vai descobrir é –e a pandemia está nos mostrando isso– o quanto estamos interconectados. Isso é um dos princípios mais importantes da visão. Isso é religião? Pertence ao judaísmo? A quem pertence? Não pertence a ninguém, é apenas a observação. Se você entende que está completamente conectado e o que acontece na China, nos EUA, no Himalaia, afeta a todos, talvez você mude sua maneira de agir.

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Talvez as pessoas percebam que nós precisamos cuidar de quem está do outro lado do planeta, dos pobres, do ambiente, porque, no fim, tudo volta a nós mesmos. É o que o Dalai Lama chama de auto interesse iluminado. Se você vai ser egoísta, pelo menos seja sábio. Faça as coisas pensando no longo prazo, não no curto. Quando estou falando desses princípios, não se trata de religião, se trata de senso comum.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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