Se faltar energia

  • Lu Gastal

Querido leitor, hoje não discorrerei sobre afeto, saudades ou assuntos referentes à pandemia e suas consequências emocionais; falarei sobre luz, permissões e encantamento.

Se você habita numa cidade de grande, médio ou pequeno porte, haverá de concordar comigo: noites sem energia elétrica são consideradas um verdadeiro evento, tipo uma festa na qual você nem gostaria de ter sido convidado! Eu sei, você sabe, todo mundo sabe, a gente se acostuma com o que é bom e facilita a vida; dessa maneira, se a luz da sala piscar três vezes, o coração já palpita, e cientes de que a quarta piscada poderá nem acontecer, nos vemos à beira de uma taquicardia.

Aí… bingo! – a energia elétrica desaparece como um sopro. Num primeiro momento, aquele suspiro de não saber pra onde correr; principalmente se o smartphone estiver com pouca bateria. Entre a culpa por não ter se programado e adivinhado que faltaria luz, ouve-se aquela própria resmungada, e na sequência abre-se quase todas as portas da cozinha a procura de uma mísera vela.

Mas se você acha que encontrar a vela é a solução do problema, engana-se; precisamos também encontrar o fósforo, e em tempos de fogões com ascendimento elétrico, essas caixinhas também se tornaram objetos escassos no nosso lar. Provas de paciência e persistência acontecem nesse momento.

A essa altura já não temos sinal de wifi, e de repente parece que o mundo caiu ali, bem aos nossos pés. Nem o telefone da companhia de energia a gente sabe, afinal, tudo, absolutamente tudo atualmente fazemos com ajuda do Google, e para esse acesso, precisamos de energia. O portão eletrônico da garagem não abrirá, chamar um carro de aplicativo também será uma missão impossível e, caso lembrar que na porta da geladeira costumamos guardar aqueles imãs com propaganda de pontos de táxi – faça uso deles. Tenha certeza, esse é o momento ideal pra pensar aquele trio de palavras frequentadoras assíduas das redes sociais: inspira, respira, não pira!

Opção melhor do que se jogar no sofá sem culpa não há! Se tiver um cálice de vinho ou uma caneca de chá, sinta-se privilegiado! Fato é, nos desacostumamos a viver desconectados, mas quando isso acontece,  corpo e a mente agradecem!

Já comentei noutras colunas, no início da pandemia mudei para a zona rural de uma cidade de interior, lugar onde, muito mais vezes do que gostaria, a energia elétrica desaparece sem aviso prévio. Alguns hábitos se tornam necessidade, como, por exemplo, um telefone celular com bateria cheia, caso role aquela vontade de ler um livro ou assistir algum seriado. Em noites de temporal e vento, as probabilidades triplicam, e dali até a previsão de retorno há um abismo, podendo demorar horas ou alguns dias.

Dessa maneira, recentemente acostumei-me a observar a chama das velas, que, por sinal, habitam em profusão pelos cantinhos do meu lar. Na hora da escuridão o vidro de azeitonas vazio vira redoma, o copo de requeijão se transforma em castiçal, e toda criatividade é bem-vinda, o que realmente importa é garantir o estoque de velas. De repente, o período que parecia ser um suplício vira tempo de qualidade; basta observar e entregar-se aos encantos daquele objeto cilíndrico feito em parafina, que brilha discretamente após aceso o pavio; que logo se torna protagonista dessa novela, no caso, sem atores coadjuvantes – aqui a vela reina só e absoluta! Chamas em tons alaranjados com nuances azuis magnetizam  nosso olhar.

A partir daí, esqueça o celular e tenha a certeza, no dia seguinte você entenderá que nem todas as suas urgências eram verdadeiramente válidas, porque a vida tá aí pra ensinar que há maneiras de se viver em equilíbrio, e que  nem sempre de pressas e conforto é feita a vida!

Beijos meus!


Lu Gastal trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro “Relicário de afetos” e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor. Seu instagram é @lugastal.


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