Como ajudar um companheiro com depressão?

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Fizkes | iStock

Quando criei esta coluna aqui em Vida Simples, me propus a falar não apenas do impacto que depressão, ansiedade e outras doenças mentais têm nas pessoas que sofrem com esses transtornos, mas também de como o entorno (amigos, familiares, cônjuges) é afetado. Na semana passada, expliquei como os amigos podem nos ajudar a lidar com nossa saúde mental.

Hoje, vou falar de namorados e namoradas, esposos e esposas, companheiros e companheiras. Muitas vezes, são eles e elas quem veem nosso sofrimento da janelinha e estão presentes nos piores momentos das crises de ansiedade e depressão. Sobre essas pessoas recai um peso e uma responsabilidade que, na maioria das vezes, não é justo.

Digo isso porque a proximidade cria erroneamente a ideia de que o (a) cônjuge tem que ser a principal linha de proteção entre quem sofre com a saúde mental e o mundo. Que essas pessoas têm uma obrigação extra de cuidar de nós justamente porque dividem a vida conosco e são, quase sempre, quem melhor nos conhece.

Estou num relacionamento com minha companheira há mais de nove anos. Já cometi o erro de achar que ela deveria ser responsável por não apenas me confortar, mas me dar uma segurança que eu sozinho não encontro. Ela, provavelmente influenciada pelo meu comportamento, também achou que era sua responsabilidade zelar por minha saúde mental e me manter a salvo de maiores estresses e chateações.

Embora possa parecer nobre que sua amada queira te proteger, isso é muito perigoso para o relacionamento. Confesso que me falta conhecimento acadêmico e científico a esse respeito. Vou usar minha experiência para dar alguns conselhos que me parecem bastante sensatos a respeito da convivência entre um(a) companheiro(a) e uma pessoa com depressão e/ou ansiedade.

Aliás, se você tiver alguma correção ou observação a fazer, não se avexe: mande um e-mail para mim ([email protected]). Sigamos então com meus aprendizados.

O primeiro passo é entender que a doença não é responsabilidade de nenhum dos dois. O cônjuge não deve achar que sua missão de vida é evitar que o amado entre em alguma crise ou sofra. Isso é impossível. Por isso, não se sinta culpado. Claro, para que isso não ocorra, é preciso aprender a não jogar essa carga nos ombros do outro – assim como eu tive de aprender a fazer.

Já fui agressivo e seco com minha companheira em momentos difíceis. Impaciente. Grosso. Aprendi a minimizar isso avisando a ela quando estou em um momento particularmente ruim. Isso gera dois resultados: ela fica um pouco mais compreensiva comigo e, se necessário, me deixa no meu canto. Tem hora em que não há nada que possa ser feito. É questão de esperar o tempo passar.

Outra lição importante: nem sempre haverá algo a se fazer. Isso é muito difícil de explicar para nossos amados e amadas. Aflitos, elas e eles acham que necessariamente precisam ajudar, mas não sabem como. Nós não sabemos pedir ajuda, eles não têm um manual de como devem proceder. E, na maioria das vezes, não há nada que possa ser feito de fato.

Devo dizer que estou partindo do pressuposto de pessoas que, como eu, estão sob acompanhamento psicológico e médico. Se você desconfia que seu amor esteja lidando com algum distúrbio mental sério, o melhor que você pode fazer é sugerir que peça ajuda e procure tratamento.

Você deve estar se perguntando: mas não há nada que eu possa fazer? É tão difícil assim ajudar uma pessoa com depressão e ansiedade? Há, sim. E muito. Às vezes, é só mostrar que você está ali, ao lado da sua companheira para o que der e vier. Que a aceita e a ama daquele jeito mesmo, com uma questão de saúde mental. Que respeita o ritmo dele ou dela e que não cobra para ela seja capaz de fazer coisas que não estão ao seu alcance.

Também dá para incentivar a pessoa a se cuidar melhor (sem exagerar na cobrança, claro), convidar para passear, para experimentar coisas novas. E saber apreciar a pessoa nos seus limites. Nós, que temos essas doenças, temos nosso naco de responsabilidade: não esperar dos amados e amadas que substituam nosso tratamento, que não sirvam de escape. Precisamos ter consciência de que não é apenas a nossa saúde mental que está em jogo.

Já aviso que esse é um aprendizado longo, que corre paralelamente a aprender o significado de compartilhar a vida com alguém. Minha companheira e eu já sofremos bastante com os desencontros normais da vida, imagine só os causados pela minha mente intempestiva. Aprendemos também o que significa de fato estar em um relacionamento e as responsabilidades envolvidas.

Numa vida a dois, as coisas só andam se a procura pelo equilíbrio for o mantra. E o equilíbrio não necessariamente é algo que se alcança um dia, mas um objetivo permanente, de responsabilidade dos dois.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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COMENTÁRIOS

  • Érica

    Diogo, o texto é muito bom para refletir sobre responsabilidade e a vontade de ajudar o outro e aliviar o peso que a doença deve ter. Acho que esforço na compreensão e na tentativa de engajar a pessoa a se cuidar são boas atitudes possíveis.
    Obrigada por compartilhar sua experiência.

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