Sabores das especiarias orientais na cultura ocidental

  • André Mafra
  • FOTOGRAFIA: Arquivo pessoal / André Mafra

O desejo pelas especiarias do Oriente moldaram a nossa cultura. Hoje, sabemos que boa parte do conhecimento ocidental e da construção da ciência moderna deve-se à interação da Europa com o mundo oriental.

 

Não é exagero dizer que a busca pelas especiarias do Oriente moldaram o mundo como o conhecemos hoje. As roupas que você veste, a religião que o circunda, a língua que você fala e até o que você coloca no prato para comer é em grande parte do resultado da busca pelos sabores e riquezas do Oriente no passado.

Foram muitos os momentos de forte relação entre da Europa com o Oriente, das quais as Cruzadas, em plena Idade Média é um dos que mais se destaca.

As Cruzadas marcaram o momento no qual a Europa ocidental, por meio dos seus cavaleiros cruzados, travou contato in loco com a cultura oriental. O movimento ocorreu entre os anos de 1096 e 1291 e, no início, teve como meta tomar os lugares que os cristãos consideravam sagrados, onde Jesus supostamente vivera: Belém, Nazaré e Jerusalém. Para tanto, multidões de peregrinos e soldados se deslocaram em direção à Palestina, resultando em intensas trocas culturais e comerciais que incitaram no Ocidente o desejo de conquistar as riquezas do Oriente. O efeito disso foi uma invasão de especiarias exóticas à mesa dos europeus.

Especiarias em mercado na cidade velha de Jerusalém em Israel (foto: André Mafra).

Novos sabores

Os cruzados contribuíram para despertar esse paladar mais apurado. Legumes, pães, doces, vinhos, carnes e peixes. Tudo parecia exageradamente condimentado quando preparado conforme os hábitos orientais, mas essa percepção também os fazia repensar que, talvez, a culinária ocidental fosse insossa no quesito sabor.

Magníficas fortificações foram deixadas pelos cruzados por onde passaram e levaram consigo o gosto pelos alimentos condimentados e o contato mais efetivo com as especiarias. Anos depois, iriam se lançar ao mar para buscar o monopólio comercial dessas riquezas.

Os integrantes das Cruzadas eram peregrinos acompanhados de um contingente armado que lutaria para recuperar lugares santos, mas que seria também responsável pelas aberturas de diversos entrepostos comerciais na região do Oriente Médio e Ásia Menor, pelos quais trocava-se lã, ferro e madeiras de construção por frutas e especiarias, como pimenta negra, noz moscada, cravos da índia, canela e cardamomo. No pós-cruzadas, o sabor do Oriente havia conquistado o europeu definitivamente.

Nesse processo, houve um grande fluxo de conhecimento, cultura e hábitos de leste a oeste, e vice-versa. Estava claro que aqueles soldados e peregrinos desejavam implementar em suas terras natais, ao voltarem para casa, os confortos de Outremer – nome francês dado às terras além-mar –, destaca Steven Runciman, grande historiador das Cruzadas.

“A era das cruzadas é uma das mais importantes da história da civilização ocidental. Quando começou, o oeste europeu mal emergira do longo período de invasões bárbara que denominamos de Idade das Trevas; quando terminou, o grande desabrochar que chamamos de Renascença acabara de ter início.”
Steven Runciman

Mais tempero

O padrão de vida no Ocidente foi, então, içado a novos patamares. Hoje, sabemos que boa parte do conhecimento ocidental e da construção da ciência moderna deve-se à interação da Europa com o mundo oriental.

Esses peregrinos seriam responsáveis, também pelas, aberturas de diversos entrepostos comerciais na região do Oriente Médio e da Ásia Menor, pelos quais trocavam-se lã, ferro e madeiras de construção por frutas e especiarias, como pimenta negra, noz moscada, cravo, canela e cardamomo . No período pós-cruzadas, o sabor do Oriente havia conquistado o europeu definitivamente.

Se você, leitor, já teve o prazer de viajar para países onde a comida é mais temperada, como Índia, Marrocos, Turquia, Irã, Israel, China e outros, possivelmente teve a mesma impressão vivenciada pelos antigos cruzados.

Mesmo já sendo um admirador das especiarias, fiquei surpreso, em minhas primeiras viagens, com a forma e a quantidade com que são usadas nesses locais. Meu paladar mudou para sempre.

 

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ANDRÉ MAFRA (@prof_andremafra) é autor do livro “Sabores e Destinos, uma viagem pela história das especiarias”. Na obra, faz uma imersão no universo dos condimentos, ervas e temperos – e, por consequência, nos primórdios da cultura e das próprias relações humanas.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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