Saber controlar e saber se entregar

  • Keila Bis

Para seguirmos com o fluxo da vida, é preciso aprender a viver na posição ativa e passiva. Espere a colheita com calma e se as coisas não saírem do jeito que queria, renda-se

 

Até mesmo nas férias, eles e elas ficavam tensos. Tudo tinha que sair como o planejado. Visitariam tais praias, tais museus, comeriam tal comida em tal restaurante. A cada passeio cumprido, já vinha a ansiedade para realizar o próximo. Claudias e Téos não tinham um minuto de paz. A prova do vestibular estava próxima, estudavam sem parar, mas um terror os invadia só de pensar que o exame poderia ser muito difícil com chances de serem reprovados.

Rodrigos e Adrianas se esmeravam para a incipiente relação com Marias e Pedros continuar dando certo. Mas a angústia surgia só de pensar que tudo poderia acabar. Corriam, então, a fazer coisas, que muitas vezes nem queriam.

Josianes e Gustavos desejavam crescer profissionalmente. Eram dedicados ao trabalho, se esforçavam, mas se sentiam intimidados e furiosos quando os colegas se sobressaíam. Incessantemente pensavam em como ser melhor do que o outro.

É natural que, vivendo numa sociedade de aparências, de demonstrações irreais de felicidade nas redes sociais em que o amor por si mesmo é medido pelo número de curtidas, de exigências de alta performance e rendimento constantes, prevaleça o uso excessivo do lado controlador, dominador e ativo que mora dentro dela, dele, de mim, de você, de nós.

Que saibamos estar nas duas posições: controlar e entregar

Não há nada de errado em querer dominar e controlar as situações, o dia a dia, as pessoas. Os sintomas patológicos surgem quando há um excesso e quando não se consegue estar na posição oposta, ou seja, a posição passiva, do ser dominado e controlado. E a vida nos pede a todo momento que saibamos estar nas duas posições. Programar-se para aproveitar as férias é sinal de responsabilidade e de querer o melhor para si. Essa é a posição ativa. Nas férias, vem a posição passiva, momento de relaxar, curtir o momento e de compreender que não dá para prever se tudo vai correr como o planejado. E se algo não saiu como o esperado, fazer o quê? Você fez o que esteve ao seu alcance.

Com relação ao estudar para a prova, é o mesmo. Roseles e Eduardos estudam, mas tem um limite, porque alguém vai fazer as questões e se não passarem, fazer o quê? Você fez o melhor que pôde e é isso o que sempre dá para fazer. Na relação afetiva e no trabalho, idem. É essencial cuidar com carinho do relacionamento, mas é como uma dança, você dá um passo (posição ativa) e espera para o outro dar o passo seguinte (posição passiva).

O estado de entrega surge quando realmente aceitamos que não conseguimos controlar tudo. Ficar na posição passiva, nos dias de hoje, pode significar para muita gente sinal de fraqueza. Daí surgem as disputas, o orgulho ferido, quando se perde de vista o seu viver e a sua paz.

Lá vai um segredinho: a única coisa que dá para fazer é se apropriar dos seus sonhos, responsabilizar-se por eles, se organizar para que sejam realizados. Depois, solta. Espere a colheita com calma e se as coisas não saírem do jeito que queria, renda-se. Use o humor para lidar com a frustração de um desejo não atendido, aceite e se trate com carinho para passar por esse momento. Porque a vida vai continuar funcionando nesses dois tempos: ativo-passivo, controlar-ser controlado, dominar-ser dominado, cuidar-ser cuidado, trabalhar-descansar, plantar-colher…

 

Keila Bis é jornalista de bem-estar, terapeuta floral e psicanalista. Há alguns anos vem se dedicando a estar mais próxima do seu mundo interior. Além disso, escreve na primeira terça-feira de cada mês aqui no Portal. Para entrar em contato, mande seu e-mail para: [email protected]

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