ROSA E MOMO, de Edoardo Ponti

  • Suzana Vidigal

Sobre a importância da família escolhida

Sobre o que é Rosa e Momo – o lindo filme italiano que trouxe a diva Sophia Loren de volta pra tela? Depois de tantos anos debruçada em filmes tão diversos, que me fazem embarcar de corpo e alma na contação de histórias que cada um deles propõe, costumo sempre me fazer essa pergunta. E dela, surgem outras, como: esse filme fala comigo? De que forma? Por quê? Me incomoda? Me emociona? Onde é que ele me pega?

Rosa e Momo, além de ser um belo filme, é um ótimo pra fazer esse exercício – que, afinal, é a proposta do Cine Garimpo: olhar pra vida com o cinema como pano de fundo. Vamos pensar no filme como camadas – costumo dizer nos grupos do Cine Garimpo Encontros, quando reúno cinéfilos pra discutir sobre filmes, suas temáticas e narrativas, que os filmes são como uma cebola que precisa ser descamada. Proponho fazer esse exercício com vocês aqui – vamos tirando uma camada após a outra, até chegar no coração do filme, naquilo que ele realmente quer dizer. É uma oportunidade de irmos mais a fundo, exercitarmos o olhar e enxergarmos o poder das narrativas.

As camadas

O filme adaptado do livro La vie devant soi, do francês Romain Gary, conta a história de uma senhora italiana judia sobrevivente do holocausto, que se prostituiu pra ganhar a vida e que, já idosa, abriga órfãos em troca de uma grana a mais. Ela mora em Bari, no sul da Itália, tem amigos de longa data e leva a vida assim. Até que um dia Momo, um garoto senegalês, rouba sua bolsa no mercado. A partir daí, a vida dos dois vai se cruzar e uma amizade improvável acontece, transformando todos pra sempre.

Esta é a história propriamente dita, a camada mais externa, mais aparente, que todo mundo que se propor a assistir ao filme verá. Mas a gente vai seguir em frente, vamos um pouco mais fundo, descascando a cebola. Podemos dizer que o filme, através dos eventos que contam a história da Rosa e do Momo, aborda outros temas, que ficam numa segunda instância. Podemos dizer, por exemplo, sem medo de errar, que ele fala da crise dos refugiados, que coloca milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade, sem pátria nem casa, fugindo de guerras, fome, miséria, perseguição política e religiosa. Pegando o gancho da religião, temos mais uma camada: da tolerância religiosa, já que Rosa é judia e os meninos que moram com ela, muçulmanos.

Rosa é amiga de Lola, que é transexual, cuida do filho e busca ser aceita pela família. Em tempos de tamanha violência contra a comunidade LGBT, vale lembrar que Lola é representada por uma atriz trans, o que mostra um cinema mais diverso, abrindo espaço pra artistas transexuais no elenco. Considerando que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, este é mais um elemento bem importante.

Outro ponto é a terceira idade. A começar pela Rosa, passando por Hamil e Coen, o filme dá protagonismo a essa fase da vida com muitos desafios, mas também com muita sabedoria, companheirismo e possibilidades. Inclusive na convivência com as gerações mais jovens, numa troca intensa e frutífera de experiências de vida.

E, claro, podemos dizer que se trata de um filme sobre a amizade – Rosa e Momo são opostos no começo da narrativa, vão encontrando um lugar comum, compartilhando afetos, selam um pacto pra sempre e serão inseparáveis. O cinema já falou muitas vezes de amigos improváveis e tomara que continue mesmo!

Direto no coração

Tudo isso pra dizer que tiramos muitas camadas, descobrimos outras narrativas paralelas que conversam intimamente com nossas vidas. Mas nenhuma delas é o tema universal do filme, nenhuma delas vai direto no nosso coração.

A essência de Rosa e Momo, dirigido por Edoardo Ponti, filho da Sophia Loren, é falar da importância da construção do afeto, da rede de apoio, da família sem laços de sangue, da família escolhida. Nossa história é composta por personagens solitários, todos refugiados dentro deles mesmos, desamparados no que diz respeito ao amor. Olhar com esses olhos desvia a atenção dos eventos da narrativa e nos coloca no lugar da empatia, da compaixão, do coração. Sabemos da importância fundamental na vida dessa teia de afeto, capaz de nos sustentar independente de qualquer coisa. Essa é a alma de Rosa e Momo – e, por isso, é universal.

Onde ver: Netflix


Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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