“Roma”: um filme sobre afeto e gratidão

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Divulgação

Há um ano fiz minha estreia como jornalista num festival internacional de cinema. O escolhido foi Veneza e cá estou novamente, tamanho foi meu fascínio por tudo que envolve essa celebração à arte cinematográfica. À medida que vão passando os dias e que vou entrando em contato com realidades e relações tão diversas e complexas, meus sentimentos vão ficando à flor da pele, os filmes vão mexendo comigo profundamente, confirmando que o cinema é o grande veículo de reflexão sobre as questões da humanidade.

Cada um me atinge de uma maneira diferente e este ano ainda não sei se teremos uma pérola como foi em 2018 com Roma. Quando começou a sessão do filme do diretor mexicano Alfonso Cuarón, algo me dizia que o Leão de Ouro já tinha dono. Algo como a fotografia em preto e branco, algo como a narrativa da família que se desfaz diante do casamento que vai à pique e da vida que precisa continuar apesar dos pesares. Depois da sessão terminada e das lágrimas enxugadas, eu já tinha a certeza de que o filme levaria pra casa o prêmio máximo de Veneza.

O próprio Cuarón contou que seu filme não é autobiográfico – pode até ser, mas se encaixa no gênero que chamamos de auto-ficção. É autoral, baseado nas memórias que o diretor tem da sua infância, quando ele e seus irmãos eram pequenos, seu pai foi embora com amante, o México estava em ebulição social, sua mãe perdeu o chão e a babá é quem manteve a rotina funcionando. É um filme sobre afeto e gratidão – num lindo movimento que o diretor faz de olhar para seu passado e ser grato pela mulher que tocou o barco na hora da tempestade.

De altíssima qualidade narrativa e cinematográfica, Roma é uma reflexão social também, claro – que conversa fortemente com a realidade de toda a América Latina. Mas o que pode passar despercebido é o fato de o filme ter uma estrutura mais picotada, como se fossem recortes de uma rotina. Olhe pra trás, pense no seu passado. À medida que os fatos vão ficando mais longe, lembramos de repentes, instantes, momentos. Nossa vida não é mais um filme, mas sim uma sequência de várias fotografias conectadas, com lapsos de tempo entre elas. Cuarón faz Roma assim, com recordações. Uma revisão de uma fase decisiva da sua vida, que certamente muito contribuiu para a pessoa que ele é hoje.

Revi o filme duas vezes depois de um tempo e o discuti nos grupos de cinema. Vesti a carapuça preparada pelo diretor e as memórias de gratidão e afeto que me veem no coração nesse exercício são muitas. Ser grata tem a ver também com o reconhecimento pela dedicação do outro, que tem a ver com admiração. Ajuda a se reconciliar com o passado. Assistir a Roma tendo isso em mente muda tudo. Vamos ver o que o Festival de Veneza nos reserva nos próximos dias, mas a memória desse bairro chamado Roma, na cidade do México, já me é inesquecível.

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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