Depressão: remédios ajudam, mas não são a solução

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: TanyaJoy | iStock

A medicação dá um empurrãozinho para que consigamos nos levantar depois de um período difícil. Mas é preciso, também, usar nossas próprias pernas 

 

Desde que comecei a escrever aqui, falei repetidas vezes sobre tratamentos e a necessidade de procurar ajuda. Esse é um conselho que se repete por quase todos os conteúdos a respeito de ansiedade e depressão. Pouco se fala, no entanto, sobre como lidar com os tratamentos e o que acontece em cada um deles. Tentei explicar um pouco a esse respeito no texto em que falo sobre terapia. Mas acho que precisamos conversar sobre mais assuntos e com mais profundidade. 

As consultas com psicólogos e psiquiatras são apenas o primeiro passo numa jornada que pode ser muito longa e bastante irregular. Não vejo muita gente explicando que os tratamentos demoram para fazer efeito e quase sempre precisam de ajustes. Por isso, acho importante falarmos sobre o tratamento com remédios. 

Já contei que eu tomo remédios para depressão e ansiedade há alguns anos. Eles se tornaram parte da minha rotina, assim como a terapia semanal e as consultas com o psiquiatra. Até por isso acabei me tornando uma espécie de “referência” para pessoas próximas que começam a fazer tratamentos. E foi justamente numa conversa recente dessas que decidi falar sobre minha experiência com remédios.

Antes de começar, devo dizer que o meu caso está longe de ser a regra. Aliás, cada pessoa reage de um jeito a cada medicação. Não existe um remédio perfeito que funcione para todo mundo. E o que funciona para um, pode não funcionar para outros. 

Antes de começar a tomar a medicação, li um pouco a respeito do assunto em livros e (bons) artigos na internet. A maioria das pessoas, os textos diziam, demora um tempo para sentir o efeito do remédio, de algumas semanas até alguns meses. 

No meu caso, a coisa foi imediata: no primeiro dia eu já conseguia perceber que algo estava diferente. Fiquei mais calmo, mas também mais devagar. Sentia uma moleza quase permanente e os músculos, relaxados. 

Sentir os efeitos logo de cara pode parecer uma vantagem, mas, no meu caso, não foi. Os efeitos colaterais vieram bastante rápido também: dores de cabeça, tontura, sensação de cansaço. 

Comecei tomando a dose mínima do medicamento para ver se me adaptava. Aos poucos, o médico recomendou que eu a aumentasse. O remédio me ajudou a diminuir a ansiedade; isso fez com que os problemas do dia a dia ficassem mais administráveis, menos assustadores. Um belo avanço.

Só que houve um outro efeito, esse menos empolgante: fiquei com uma dificuldade enorme de acordar na hora certa. Parecia que meu corpo não entendia que eu deveria levantar (e não importava o número de horas dormidas). Uma vez de pé, sentia a necessidade de me deitar para descansar algumas vezes ao dia. Não dava para ser assim.

O médico, então, recomendou que eu passasse a tomar mais um remédio, um que me deixaria mais alerta, mas mantendo o efeito de baixar a ansiedade. Demorou algumas semanas e a combinação funcionou. Sucesso.

Não demorou muito, o psiquiatra me disse que era hora de diminuir a dose daquela medicação que me deixava sonolento. Toda vez que há alterações da dose, no tipo do remédio ou no horário em que você toma o remédio, seu corpo vai ter de se adaptar de novo. Bom, pelo menos o meu passou por isso. Lá fui eu de novo sentir alterações no meu sono, na fome, na disposição.

Não nos esqueçamos que os remédios mexem com a química do nosso cérebro. Por isso, toda vez que algo muda, um pequeno caos se instala. É questão de costume. 

Claro, as vantagens têm de ser maiores do que os contratempos. E é muito raro a gente se acostumar com o primeiro remédio e a primeira dose que o médico receita. Muitas vezes, é preciso experimentar com algumas substâncias diferentes até encontrar aquela que se ajusta ao seu corpo. Precisamos ter paciência e persistência, além de manter o médico informado de quaisquer problemas. 

Não vou contar todos os detalhes da minha experiência com os remédios porque seria muito chato de ler. Conto que, neste momento, estou me adaptando a um remédio novo depois de quatro meses indo e voltando para me acostumar. Sei que, em breve, meu médico vai me orientar a diminuir a dose para que, lentamente, eu pare de tomá-lo.  E terei, de novo, de me adaptar. 

Remédio ajudam – e muito, apesar de não serem uma solução definitiva na maioria dos casos. Assim como a terapia, esse tratamento exige de nós que prestemos atenção à nossa mente, ao nosso corpo e ao dia a dia. Vejo muita gente frustrada com medicações nos grupos de ajuda que frequento na internet. As pessoas se decepcionam ou se desesperam porque não percebem os benefícios de imediato. 

Acho que fomos ensinados a olhar para medicações como se fossem varinhas mágicas: basta tomar uma pílula que tudo estará resolvido. E, para cada problema que temos, parece que a indústria farmacêutica tem uma solução. Aviso que não é bem assim, especialmente com antidepressivos. Embora sejam uma grande ajuda, eles não são a solução, e exigem de nós atenção e dedicação. 

O remédio está me ajudando a ficar menos ansioso, e isso deixa minha rotina mais estável. Mas não posso me descuidar. Aproveitei esse “fôlego” mental para fazer a lição de casa: arrumei minhas pendências financeiras, organizei minha agenda, voltei a ler, a encontrar com meus familiares, a meditar e a ir à academia. 

A medicação dá um empurrãozinho para que consigamos nos levantar depois de um período difícil. Porém, para ficarmos de pé novamente, teremos de usar nossas próprias pernas. 

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 


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