Relato de uma jornada de autoconhecimento

  • Mariana Nahas
  • FOTOGRAFIA: Oliver Pacas | Unsplash

“Você não acorda de repente e se transforma em uma borboleta – crescer é um processo”
(O que o sol faz com as flores, de Rupi Kaur).

Começo o texto com essa citação porque ela diz muito sobre o que eu acredito. O processo não precisa ser pesado, dolorido. Ele pode ser leve e divertido. Enquanto estivermos aqui nesse planeta Terra, reino da materialidade e da ilusão de separação, a maior escola de evolução espiritual de todos os tempos… Estamos aprendendo. Ninguém está a salvo de aprender, expandir.

Quando eu era pequena, havia um pôster do Snoopy que me chamava a atenção. E guardei ele no meu coração até hoje. Ele dizia: “A grama do vizinho sempre é mais verde… Até você descobrir que ela é artificial.”  Pois é isso. Julgamos o livro pela capa. Temos a tendência a acreditar que as pessoas são mais felizes que a gente, que são mais inteligentes, que elas têm menos problemas, seus casamentos são mais divertidos, que têm menos desafios que nós… Olhamos sempre a capa. E a verdade é que desconhecemos a grande história por trás das pessoas que nos cercam.

Acho engraçado, pois hoje as pessoas me veem dando aula sobre espiritualidade e autoconhecimento, fazendo palestras sobre bem-estar e equilíbrio, meditando… Ouvem minha voz  suave, com um ar doce e amoroso e acham que sou diferente delas. Que não tenho questões pessoais, que sou livre da raiva, do medo e imune aos desafios da vida. Ouço às vezes coisas como “evoluída”, “experiente”, “diferente de mim”, “você está anos-luz na minha frente”. Até meu marido caçoa de mim quando estou nervosa e irritada. Ele diz: “Cadê a guru tão espiritualizada? Não é você que ensina sobre consciência?”

Pois é, ensino mesmo. Todos ensinamos a todo momento, mas enquanto ensino eu também aprendo, muito, todo o tempo. Ainda tenho muito a aprender e tenho clareza disso. Estou em um constante processo de aprendizado, de liberar meu corpo físico de padrões e marcas profundas de um passado limitante, de críticas, rejeição, assim como me libertar de condicionamentos destrutivos de separação, insegurança e isolamento. Quem não tem marcas que levante a mão… Eu também as tenho.

E apesar de ter tido muita cura pelo caminho, ainda tenho muito chão pela frente. Embora mais suaves, ainda carrego e reproduzo nas minhas relações e em meus filhos vários padrões que achei que já haviam sido curados. Como é difícil liberar, né!?

Mas a vida é isso, e tudo bem. Esse eterno descascar, suavizar, sutilizando nosso corpo emocional de dor para que estejamos cada dia mais próximos da nossa alma.

Eu não sou uma mãe perfeita, não sou uma amiga perfeita, atenciosa, presente, não sou uma filha generosa, não sou a esposa dedicada… Longe disso. Ainda permaneço reservada, às vezes séria demais, me mantenho segura em meu mundo controlado, protegido e organizado por mim. Ainda tenho guardado lá no fundo o medo de sofrer novamente.

Ainda reluto em sair da minha zona de conforto, mas ao mesmo tempo é tão lindo de ver como aos pouco coloco os pés pra fora e sinto a grama. Dou uma espiada, estabeleço contato, sorrio mais… Confio cada dia mais e aos poucos vou me mostrando para o outro, permitindo o toque, me abrindo para o desconhecido, aprendo que “está tudo bem”, “que tudo vai dar certo”, “que já deu certo, se não deu é porque não acabou… pois não tem como dar errado”.

Ao perceber meu antigo condicionamento, meu piloto automático de proteção, sinto que o enfraqueço, o desarmo. Ao ensinar o que mais preciso aprender, eu realmente aprendo, me lembro, me libero aos poucos, me sinto mais forte, potente, capaz.

Hoje sei e compreendo que não é sobre sermos o pacote ideal. Afinal, como o ideal pode ser comum a todos? O que é ideal para mim pode não ser pra você, não é verdade? O que entendi é que a vida é sobre sermos luz, do jeito que der, do jeito que a gente dá conta. Tentar, dentro da sua natureza, ser um impacto positivo e não negativo aonde quer que você passe. Seja inspiração!

Consciência é também a clareza do processo, do seu processo pessoal de liberação do que te impede de ser luz internamente e na vida das pessoas. Consciência é olhar para o seu lado sombra e o seu lado luz, sabendo que eles são interdependentes, que eles são um, a perfeita sintonia. Em compaixão. Um não existe sem o outro. É você quem decide.

A sombra está a serviço da luz se assim o desejar. Assim como a luz pode estar a serviço da sombra se assim o permitir. Consciência é olhar a grande figura, o todo que existe fora e o todo que existe dentro de você e entender que ao colocar uma pitada de amor em tudo, você está colocando na verdade uma pitada de amor em si mesmo.

Acolha seu processo pessoal e a sua jornada com amor, tolerância, compaixão, paciência infinita com os outros mas, principalmente, com você. Tá tudo certo. Enjoy the ride. Viva a VIDA!


Mariana Nahas
é coach de vida, terapeuta integrativa, facilitadora de meditação e idealizadora do Programa de Desenvolvimento Pessoal Ser Humano. Acredita que o autoconhecimento e a autocompaixão são as chaves para despertar em nós o ser de infinitos recursos internos que somos enquanto seres conscientes. Escreve quinzenalmente no Portal Vida Simples. Seu instagram é @mariananahas_


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COMENTÁRIOS

  • Sarita

    Parabéns quase chorei lendo. Que texto lindo!

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