Recados de uma viagem no tempo

  • Juliana Reis
  • FOTOGRAFIA: Juliana Reis

Que mensagem você levaria para o seu eu do passado, se pudesse voltar ao período pré-pandemia?

Antes da pandemia de Covid aparecer, fiz uma longa viagem. Apesar do tempo e do território incomuns, não foi como uma dessas aventuras que estão na moda, sem data para voltar. Então, foi só mesmo uma viagem comprida e despretensiosa. Porém, ocasião na qual meu celular acabou por passar a maior parte do tempo desligado.

Finalmente, após atravessar várias semanas nos países bálticos, em paz, cruzando de bicicleta e de scooter planícies e florestas repletas de cogumelos, sentei-me num banco da rodoviária da pequena Marijampolė. Essa cidadezinha lituana faz uma confusa tríplice fronteira com a Polônia e o exclave russo de Kaliningrado. Sua linha limite se embola nas águas de um grande lago, o Vištytis. Usando a perna como apoio, rabisquei ali mesmo alguns pensamentos num caderno espiral.

viagem no tempo

Caixa de correio no jardim do Museu de Palanga (Lituânia)

Logo que meu ônibus estacionou na plataforma, destaquei a folha de papel e embarquei com meus pensamentos dobrados, guardados no bolso da calça jeans. Saltei no aeroporto Chopin, em Varsóvia, e voltei para casa, terminando a jornada.

Bilhete surpresa

Recentemente, mais de um ano após o primeiro lockdown, me deixei levar numa nova viagem. Porém, agora, sem bike, nem moto, ônibus ou avião. Ao colocar a mão no bolso de uma calça velha, tirei de lá — gasto, rasgado e parecendo mastigado — um ticket para o passado. E nele estava escrito assim:

“Enfim, chega este final de semana o momento de tomar o avião de volta para casa. Embora meu lar nos últimos anos tenha se dispersado por vários pontos num mapa, hoje sei onde fica meu porto seguro. E isso é bom. Volto plena de aprendizados. Estou ansiosa para sentar-me diante do computador e começar a contar histórias. Contrariando expectativas, nesta viagem não tive muita oportunidade para me ligar ao mundo exterior pela internet, nem para postar aquelas fotos do invejável cotidiano dos viajantes.

viagem no tempo

Ciclovia | Letônia

O que importa

E isso foi um aprendizado. Também uma libertação. Volto para o meu porto certa de perceber com mais clareza quais são as coisas que importam na vida. Por fim, volto entusiasmada ao trabalho e à vida pessoal. E espero colher frutos com as sementes que levo. Das lições que aprendi, algumas vão aqui anotadas para que, dentro de alguns meses, eu não as tenha esquecido:

  • O destino da viagem pode até se repetir, entretanto, a experiência sempre se renova porque é o que está dentro de você que conduz as situações.

  • Sim, o lugar onde você está é secundário em relação ao lugar onde o seu espírito está.

  • A importância das coisas muda de acordo com a perspectiva:

  • Quando queremos muito ir embora, o tempo até a hora da partida parece durar uma eternidade. Mas quando queremos ficar, o tempo parece curto demais para tudo o que gostaríamos de fazer. Talvez seja uma boa ideia simplesmente apreciar o momento presente.

  • Não é aquele siberiano folgado, que se hospedou na mesma pousada, que incomoda você. É o quanto você deixa que ele invada seus limites. E sua mente tem muito a ver com isso.

Mar Báltico

  • Hora de fazer é hora de fazer. Hora de planejar é hora de planejar. Troque as duas e você terá uma bela confusão para resolver.

  • Não planejar é abrir a porta para maravilhosos imprevistos e vivências fascinantes. Mas saber planejar tanto quanto saber soltar é equilíbrio. E o equilíbrio é um dos caminhos para uma existência plena.

  • Quando alguém da sua família amada se vai para sempre, você consegue mapear perfeitamente as preocupações estúpidas com as quais tem perdido tempo em vez de viver.

  • Quando estiver bem ocupado a ponto de não perceber o que se passa com um amigo próximo, pare e respire fundo.

  • A amizade é capaz de atravessar as fronteiras mais inusitadas e as culturas mais distintas. Se for capaz de sobreviver a elas, aí é uma amizade verdadeiramente valiosa.

  • Finais felizes existem após períodos sombrios, mas dependem bastante do nosso estado de espírito. Os países bálticos sofreram sob um regime opressor por mais de 50 anos, mas sua acolhida é tão amistosa que deu sumiço no ressentimento.

Mar Báltico

  • Levar presentes, às vezes, significa mais para o viajante do que para quem recebe. A prenda que transportamos com tanto carinho, talvez acabe no fundo de alguma gaveta.

  • As respostas que procuramos nem sempre estão guardadas numa viagem para longe — ou naquele oráculo habitual. Talvez seja uma boa ideia procurá-las também dentro de nós mesmos.

  • É grandioso o sentimento que nos invade quando uma pessoa para quem nossa existência não faz a menor diferença nos vê e nos trata pelo nome e com sincera consideração. Faça isso com alguém e note a mágica acontecendo.

  • A primeira ação para fazer dar certo aquele seu plano de trabalhar num projeto que vai mudar o mundo é começar a mudar você primeiro.

  • Dependemos de tantas coisas não essenciais… Estou há mais de um mês sem usar condicionador. Agora sei como ficará minha aparência quando o apocalipse chegar.“


    JULIANA REIS é uma jornalista e contadora de histórias inquieta,  apaixonada por mapas e que se realiza fazendo da estrada uma oportunidade para o autoconhecimento. 


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