Que história nos conta o Oscar 2020?

  • Suzana Vidigal

O mundo está fragmentado, polarizado, como dizem por aí. Parece a Guerra Fria, mas ficando mais quente com o aquecimento global, que diz respeito a todos nós

 

Passados alguns dias da premiação de cinema mais famosa do planeta, o Oscar, sentei pra escrever esta coluna. Pensei no ponto de vista, não só dos filmes, mas da representação de tudo aquilo no mundo de hoje. Passado o frisson do momento – totalmente justificável – olho para as escolhas descortinadas naquela noite com a certeza absoluta que temos no cinema um tesouro capaz de transformar o mundo.

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Meu frisson pessoal começou no Festival de Veneza do ano passado. Isso ocorreu quando Coringa levou o Leão de Ouro, o prêmio máximo do festival mais antigo do planeta, que sempre prestigiou o cinema chamado de “arte”, sofisticado, europeu, que não mira no grande público, mas sim nos amantes de festivais. Venceu um filme americano, de um grande estúdio, de super-herói, sobre um personagem nascido dos quadrinhos, feito para as massas. Veneza reconheceu a grandeza do filme, a profundidade da sua proposta, o talento de Joaquin Phoenix. Quebrou paradigma, pensou fora da caixa, mostrou que é preciso olhar sem preconceito, observar as histórias relevantes no momento presente e o que os cineastas estão nos falando sobre o mundo em que vivemos. Mas aquilo era Veneza, festival de vanguarda. Hollywood é diferente.

A surpresa da noite

E me incluo nesse ceticismo. A indústria americana mais poderosa não se curvaria aos encantos do cinema feito do outro lado do mundo, num idioma com o qual não tem qualquer familiaridade, com uma história que vai da ironia ao horror. Que embora seja pra lá de universal, cutuca a ferida da sociedade como a conhecemos. Mas se curvou. Deu à Parasita, do carismático Bong Joon-ho, o Oscar de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. E a Coreia do Sul virou assunto.

Parasita já tinha levado a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro na categoria filme estrangeiro. Mas o Oscar fez mais. Além de fazer a alegria do elenco, dos produtores e da simpática e alegre tradutora, deu o recado de que a vida não gira mais em volta do umbigo americano, que é preciso olhar para o lado e ouvir, com atenção, o que o cinema anda dizendo por aí – afinal, arte imita a vida e vice-versa. Não precisa ir longe: ano passado a Academia de Hollywood, cujos membros são os próprios atores, diretores, produtores, ou seja, pessoas que fazem a máquina da indústria do cinema funcionar, premiou o filme Green Book – O Guia, de Peter Farrelly – agradável, porém previsível e higienizado no quesito preconceito, num formato fácil de cair nas graças do grande público.

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Coroar Parasita foi uma decisão de sair da zona de conforto; de virar o mapa-múndi de ponta cabeça e mudar o ponto de referência e a visão de mundo. Nesse raciocínio, também entra o neozelandês Taika Waititi, com o Oscar de melhor roteiro adaptado por Jojo Rabbit, que critica com uma comédia escrachada absolutamente deliciosa de ver; e Hildur Gudnodóttir, com a trilha sonora de Coringa – vinda de um país inédito, a Islândia, num chamado lindo à voz das mulheres.

A quebra de paradigmas

O mundo está fragmentado, polarizado, como dizem por aí. Parece a Guerra Fria, mas ficando mais quente com o aquecimento global, que diz respeito a todos nós – Phoenix e Pitt que o digam. Quando Jane Fonda apareceu gloriosa com seu icônico casaco vermelho – o uniforme das manifestações contra mudanças climáticas –, grisalha (já não era sem tempo) e repetindo roupa (nunca entendi o porquê repetir roupa seria deselegante, mas enfim, isso é outro assunto), era sinal de que tínhamos algo diferente acontecendo.

O Oscar quebrou paradigmas, prova de que a mudança é possível e necessária. Pensar individualmente e ficar no mesmo lugar sempre, seja do pensamento ou da ação, vai nos afundar ainda mais – convenhamos, o planeta dorme em areia movediça. Os formadores de opinião famosos de Hollywood fizeram a lição de casa; nós, espectadores e amantes do cinema, ganhamos de presente filmes cada vez mais diversos, inteligentes, divertidos e importantes. Fonte constante de reflexão, capaz de nos transformar a cada nova jornada assistida e degustada.

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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