Quando o inimigo mora em nós

  • Margot Cardoso

A autossabotagem e a resistência interna precisam ser combatidas. Caso contrário, habitamos o limbo da vida não vivida e nos transformamos em refugiados de nós mesmos

Se você prestar atenção nas grandes narrativas ­—­ mitos e obras clássicas — vai perceber que todas têm um único tema: a busca do homem na realização de si mesmo. A Odisseia conta a saga de Ulisses para retornar a sua Ítaca. A epopeia de Gilgamesh, escrita 1.500 anos antes de Homero, tem o mesmo tema. Todas são histórias sobre a luta interior do homem para se realizar e conquistar o seu lugar no mundo. E por que é assim? Porque essa é a verdadeira missão do ser humano. Construir a si próprio, atualizar a sua essência — aqui “atualizar” no sentido literal de transformar em ato.

E por que um único assunto rende milhares de páginas e apesar disso nunca se esgota? Há muitas razões. Primeiro porque esse anseio humano não termina nunca. Até no derradeiro suspiro alimentamos essa busca. Outra razão: é uma tarefa gigante. Nessa luta o homem tem que combater seus defeitos, a escravidão dos instintos, a preguiça, a ilusão dos sentidos e, até, enfrentar os outros.

Estou no caminho

Ah! Isso é óbvio. Desde que nascemos estamos nessa busca. Nem sempre. A maioria de nós possui duas vidas. A vida comum, do dia a dia — comer, dormir, procriar, trabalhar —  e a vida “não vivida”. A vida sonhada. Aquela que não temos tempo, que não sabemos se vai dar certo, se somos capazes, se vale a pena, se levamos jeito… Você sabe do que se trata. São os sonhos, as decisões e os projetos constantemente adiados. Você já acordou no meio da noite pensando sobre a pessoa que você poderia se tornar ou na obra que você conseguiria realizar? Você já desconfiou que está no lugar errado e que essa vida que você leva não te pertence? Você é um altruísta que não ajuda, um pintor que não pinta, um escritor que não escreve?

Não damos muita importância para a vida não vivida, mas ela não nos deixa, circula ao nosso redor e está sempre a nos encarar. A questão é que talvez grande parte dos caminhos que realizam a nossa essência podem estar exatamente nessa vida “não vivida”. Se é assim, porque não avançamos para a vida não vivida? Steven Pressfield, na sua obra A Guerra da Arte tem uma teoria interessante. Para ele, existe uma força que separa a vida vivida e a vida “não vivida”. Ele chama essa força de Resistência. E ela é o tema central do seu livro.

Ao combate!

Para ele, a Resistência é a força mais tóxica do planeta. Bem humorado, afirma que ela é a maior fonte de infelicidade do mundo, mais do que a doença, a pobreza e a disfunção eréctil. “Ceder à Resistência deforma nosso espírito. Atrofia-nos e nos torna menores do que nascemos para ser”, diz.

O autor afirma que enfrentar a Resistência faz a diferença entre a felicidade e  infelicidade, a saúde e doença, vida e a morte. Muitos caem no mundo das adições, desenvolvem tumores e neuroses, sucumbem aos anestésicos da vida — como a fofoca, o consumo e a presença compulsivo nas redes sociais — simplesmente porque não caminharam em direção ao seu chamado. Ele cita um exemplo que você já deve ter visto por ai. Uma pessoa recebe o diagnóstico: câncer, seis meses de vida. Resolve viver como sempre sonhou, pede demissão do emprego, vai morar à beira mar e compor poesia. Pensam que ela enlouqueceu, mas ela nunca se sentiu tão feliz… o câncer começa a regredir. Pressfield afirma que não precisamos chegar a esse ponto. Podemos começar agora mesmo a vencer a resistência e partir para a vida “não vivida”. Como? Com conhecimento e luta.

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Quem é o inimigo?

O primeiro passo é identificar a Resistência. Uma tarefa que exige atenção porque ela está sempre disfarçada. Ela habita dentro de nós, é criada e alimentada por nós. E, por vezes, confundimos ela com nós mesmos. A primeira dificuldade em combatê-la: ela conhece todos os nossos pontos fracos. Ardilosa e eficiente, é uma máquina que intimida, falsifica, seduz, adula. E também se disfarça de inimigo externo. Geralmente enxergamos ela no cônjuge, no chefe, no trabalho, na geografia, na sociedade.

Outra pista para identificá-la: ela está sempre agindo no sentido para cima, para o norte, como uma bússola. Qualquer movimento para cima, para o crescimento, ela estará à sua frente. No movimento para baixo, para a estagnação, para o vício e para a mediocridade, você não verá a resistência. Pode ir tranquilo. É o clássico “para baixo todo santo ajuda”. Ela é uma força cega que obstrui qualquer ação de uma esfera inferior para outra superior.

Trave-a!

Com a resistência devidamente identificada, agora você está pronto para enfrentá-la e já pode começar a viver a vida que você sempre quis. Quer sentar e escrever o romance da sua vida? Mudar completamente suas rotinas? Buscar um corpo saudável? Fazer um trabalho voluntário? Ah! Apareceu algo urgente. Esqueça. É a Resistência. A sua essência é o que é importante e deve estar à frente do urgente. Caso contrário, todos os dias vai aparecer algo urgente. E por falar em futuro, a Resistência é como a adição, todos os dias ela vai se materializar à sua frente. Você venceu ela hoje, prepara-se que amanhã, ela te espera… E com uma estratégia nova. Mantenha-se forte.

A dor

Vencida a primeira etapa, no meio do processo, dói as costas, o rim. É a Resistência. Ela tenta manipular a sua mente, o seu cérebro primitivo pede descanso, você inventa desculpas para você mesmo. A resistência ataca em todas as frentes. Se você acredita em horóscopo, ele vai dizer “não saia da cama hoje, perigo de morte”, se você é místico, vai aparecer vários imprevistos e você vai pensar “é o universo confabulando para que eu não vá”. Aconteça o que acontecer não saia do caminho. É vital que você alimente o seu corpo, caso contrário ele morre. A sua alma também precisa de alimento, caso contrário, também morre… de depressão, de ansiedade, de vazio existencial.

Cuidado com os outros!

A Resistência quando não consegue fazer o trabalho sozinha, recruta aliados. Há um acordo, uma espécie de consenso em torno da mediocridade. A maioria é  vencida e quando alguém triunfa sobre a Resistência, é hostilizado pelos outros. Você tem um emprego horrível, mas estável. Qual será a primeira voz a te desencorajar a pedir demissão? Aquele que está na mesma situação e não tem coragem de se demitir. Aquele que vence a Resistência mostra que é possível e a maioria prefere o não esforço, prefere acreditar que o caminho não é possível. As pessoas detestam ver que alguém fez aquilo que elas não tiveram coragem de fazer. Elas se sentem desafiadas no seu comodismo. Quem é esse infeliz que está pousando do que eu não sou?

E os prazeres da vida?

A Resistência também alicia com o que dá prazer. Afinal, a vida não pode ser somente luta. E é por isso que essa é uma estratégia comum da Resistência: a satisfação a curto prazo. Você deve conhecer essas estratégias. São o açúcar, as redes sociais, o consumo, o álcool, o sexo. Ok. Essas não são necessariamente coisas ruins. Como saber se elas são armas da Resistência para impedir o teu crescimento? Quando depois delas vem a falta de sentido e o vazio existencial

Nietzsche

Você precisa de uma força extra para superar a Resistência, leia Nietzsche (Humano, Demasiado Humano, por exemplo). É o filósofo que melhor exorta o homem para o caminho para cima. Já tive uma grande batalha contra a Resistência e foi Nietzsche que segurou a minha mão. E sabe qual é o melhor de tudo? Aquele que segue o seu caminho, que tem a ousadia de perseguir o seu chamado interior, não tem tempo para problemas. Há quem esteja sempre no drama, no conflito e na confusão para não estar disponível para si mesmo. Você já ouvir falar que Nietzsche escreveu pouco porque sofria de fortes enxaquecas? Nunca. Nada o deteve. Não pense sobre onde, nem quando, agarre a vida não vivida e comece hoje, comece agora a vivê-la intensamente.

criancas


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